Quando se é íntimo de alguém, palavras são desnecessárias. Especialmente para ela, que tinha um dom. Ela era capaz de decifrá-lo pelos gestos ou pela falta deles. A maneira como ele caminhava, seus passos mais arrastados pelo quarto, como ele lidava com o violino, mais seco e quase impaciente. A pequena cova em seu queixo se acentuava quando estava preocupado. Parecia querer evitá-la, para poupá-la de seus problemas. O que era impossível, pois dela nenhum detalhe escapava, extraordinária que era. Aprendera a ler os microgestos desde a infância, por questão de sobrevivência. Uma hesitação, um pequeno desvio de olhar, uma levíssima pressão nos lábios lhe transmitiam mais fielmente o que precisava entender do que se pudesse ouvir um longo discurso, cheio de meias verdades. Os outros associavam o domínio da palavra, ou dos signos, com o poder. Mas ela ia além; ela dominava aquilo que antecede a palavra, que não pode ser distorcido ou camuflado. Ela reconhecia a intenção por trás do discurso, o sentimento que o guiava. Descobrira mais tarde, na adolescência, que nem mesmo as próprias pessoas tinham plena consciência dos gestos e expressões. Enfim, interpretava uma linguagem que não podia ser corrompida naturalmente. Embrenhava-se na selva do inconsciente, e nem sempre apreciava o que encontrava.
Esse ensaio é uma sequência do conto anterior, O Virtuoso. Pode ser encontrado no link abaixo.
Durante as últimas semanas deparava-se com as tentativas frustras de seu esposo de desviar sua atenção e mostrar-se tão forte e confiante quanto um capitão de um barco à deriva. Ela gostava e até se divertia em penetrar surdamente no reino das palavras, como escreveu Drummond. Realizava-se em seu poder da palavra não expressa, no seu poder do silêncio. Para ela, o mundo era escrito, acessível aos seus sentidos apurados e seletivos, notando o inexprimível.
De certa forma, ela compreendia o marido mais do que ele mesmo. É como se ele ainda lutasse para encaixar as peças do quebra-cabeça do seu modo de ser e viver e sempre lhe faltasse uma. Vivia uma eterna busca por completude sem jamais estar totalmente satisfeito. Ele compreendia o mundo pelos sons, e a busca pela música perfeita era seu propósito, seu Lebenssinn.
Era isso o que, para ele, fora uma… revelação quando se conheceram há muitos anos. Apesar de faltar algo nela mesma que para os outros é tido como essencial ou natural, ele jamais a julgou incompleta.
Então, naquela manhã, quando ele se levantou de sua cama, a sua silhueta magra encurvada, ali sentada na borda do colchão, envolta em uma aura matutina diáfana, não lhe causou nenhuma dúvida ou mistério. O tênue feixe de luz que passava pela cortina entreaberta produzia flutuantes partículas douradas dançantes ao seu redor, com uma aura futurista, e o seu esposo parecia prestes a mergulhar em direção à claridade. Engraçado como os raios de luz se revelavam como uma pintura em um breve e sonolento momento, uma fenda no tecido da realidade tragando-o.
Da mesma forma para ela os sons invisíveis concretizavam-se de maneira diferente. Materializavam-se naturalmente em gestos, movimentos, em ressonância no ambiente e nela mesma. Alguns não acreditavam que ela conseguia sentir a música em sua essência, não em sua forma refinada e final, mas na sua origem bruta, primitiva, quase lasciva, como ondas sonoras que atravessavam seu corpo inteiro, sentindo a vibração primordial dos sons em todos os poros de sua pele. Por mais que seu marido vivesse a música e fosse um virtuoso, certamente nunca a experimentaria como ela. Seria impossível para ele. Por isso não se enxergava com fragilidade, afinal, embora ele fosse o profissional e tivesse fama, era ela quem mergulhava na música com sentidos e de maneiras que ele não podia sequer conceber.
Gostava de se imaginar como uma verdadeira amante, com sua relação carnal, íntima com a música; se estivesse próximo o suficiente, não somente as notas graves a eriçavam, tal era sua sensibilidade. E, é claro, havia o espetáculo visual, quase particular, dos movimentos do maestro e dos musicistas. Se lhe mostrassem somente as mãos e seus movimentos, poderia dizer a que maestro ou maestrina pertenciam, pois cada qual possuía uma assinatura gestual que se revelava aos seus verdes olhos.
Ela ainda achava graça do primeiro momento em que puderam se encontrar, ela, uma jovem de cachos ruivos e ele, a estrela da filarmônica. O talento dele como spalla era notório. Já o havia observado várias vezes durante os concertos, mas ele não a conhecia pessoalmente. O violinista parecia ter ensaiado algum discurso para impressioná-la, e ela o deixou falar por um longo tempo só para captar a reação dele ao final. Desde criança, gostava de pregar peças nas pessoas que acabava de conhecer. A quebra de expectativa nunca falhava. O que sempre lhe fora privado não lhe fazia falta alguma, e encontrava a beleza onde os outros sequer procuravam. Mas, naquele momento, a reação dele foi diferente de todos os outros. Não era pena ou surpresa. Não viu paternalismo ou frustração. Nem mesmo rejeição, a que estava acostumada. De todas, o que mais lhe divertia era a pena. Com uma expressão de soberba e superioridade, estreitavam os olhos bondosos, enrugavam o cenho e comprimiam os lábios para em seguida deixar escapar um “ Oh! Uma moça tão bonita, mas...”, como se a vissem como alguém inferior, uma boneca quebrada que precisasse de conserto. Como as pessoas se revelavam sem perceber. Adorava jogar a isca e se fazer de vulnerável para pescar narcisistas maiores e menores; seu caráter ou a falta dele se revelava. Ria-se ainda mais quando os pendurava de cabeça para baixo, invertendo as posições, mostrando o quão pequenos eram. Como se jogasse uma pedra no pequeno e insignificante lago de águas espelhadas em que os narcisos se admiravam. Expunha-os por misericórdia, não rancor. Quem sabe poderia até salvar algum deles do destino trágico grego.
Oh, uma moça tão bonita, mas...
Não, nada disso, nada de “mas”.
O que ela descobriu ali no seu encontro com o violinista foi o mais puro deslumbramento.
Sempre admirou os musicistas, porque lembravam-lhe da frase de Keats: “a thing of beauty is a joy forever.” Eles produzem o perene em um mundo fugaz. A eles era concedido o acesso à eternidade, à memória. Materializava em sua mente a jornada musical das cadências, a dualidade entre o conflito e a resolução, entre a pergunta e a resposta. Eriçava-se com a tensão entre o acorde dominante de quinta e o relaxamento de um acorde de primeira. Era, claro, o ciclo de Eros. Da pulsão vital. Gostava dessa vertigem feminina. Talvez por isso se encontraram e se conectaram, sua energia de viver uma vida plena, longe dos limites convencionais, como o fogo que ilumina e queima na cor dos seus cabelos. A sua aparência, de certa forma, espelhava o que sentia por dentro.
Um pequeno movimento de suas mãos é suficiente para que seu marido retorne ao seu lado, os rostos tão próximos quanto possível; seus olhos mais negros não se iluminam com a manhã. Agora, não precisaria de nenhum talento especial para sentir a angústia. A antecipação do inevitável.
Ali deitados, o rosto próximo, ele gesticula para ela:
“Não posso viver sem você.”
A esposa retribui o carinho no rosto, também com gestos:
“ Mas você vai.”
Seus olhos verdes estão cansados.
“Enquanto você estiver tocando seu violino, eu estarei ali, sentindo da forma que só eu consigo.”
A esposa olhou para o instrumento na estante.
O violinista levanta-se da cama e busca seu violino. Uma ferramenta simples de madeira e cordas, mas que em suas mãos tornava-se repleta de vibrações que ressoavam no quarto e dentro dela.
Enquanto isso, a esposa fecha os olhos, ouvindo-o perfeitamente.
Então, ela pensa naquele deslumbramento de quando se apaixonaram, quando se conheceram após o concerto. Alguém que dedicou uma vida inteira a entender o mundo pelos sons e pela música agora aprende que a música, assim como a vida, também é feita de silêncios.
Sem nunca realmente ouvir, ela escutava com o corpo inteiro.





