João Manuel Cardoso Martins se esforçava para identificar a obra que estava procurando. As prateleiras da biblioteca da Taverna não lhe eram familiares; sentia-se confortável ali, mas muito distante da sensação de comodidade de sua própria coleção. Localizar o que queria não era tarefa trivial.
Estava acompanhado de um senhor mais alto do que ele, esguio e aristocrático. Explorar uma biblioteca, ainda mais uma tão singular, era sempre um prazer que claramente compartilhavam. Em certo momento, o homem estendeu o braço esquerdo com naturalidade e alcançou o volume exato. Era a edição em português de A Montanha Mágica. Comentou, enquanto ajeitava seu bigode fino e bem aparado, que ficava feliz em encontrar o romance naquela língua; afinal, sua mãe tinha origens brasileiras.
— Obrigado, Thomas Mann. — João Manuel olhou com atenção para o livro. — Preciso conferir uma passagem para solucionar uma dúvida que tenho há tempos.
O humanista ainda não se acostumara com as oportunidades providas pela Taverna. Mann fora agraciado com o Nobel de Literatura em 1929, e essa obra, importante pilar desse reconhecimento.
Os momentos seguintes permitiram o manuseio e a troca de observações sobre o livro. O intercâmbio de ideias permitiu que Mann aprofundasse seu conhecimento sobre a cultura brasileira, que ele considerava uma influência decisiva em sua obra. Eis que a porta branca, dupla, de estilo francês, que conecta a taverna à biblioteca se abre.
“Aqui”, disse Ricardo, com gesto animado e repetitivo de convite, indicando o local onde se acomodariam. Não a mesa principal, onde se preparavam as pratarias e adereços para o iminente jantar, mas uma das mesas laterais.
No caminho, percebem que a mesa já estava ocupada por um senhor na casa de seus 60 anos, magro e de aparente constituição frágil. Seu rosto, de pele clara e pálida, teve o semblante modificado para uma feição de surpresa. Prontamente, arrastou a cadeira para trás, postando-se de pé de maneira altiva e elegante, ajeitando seu terno discreto e a gravata fina, como se revelassem sua personalidade austera.
— Prazer em conhecê-lo, Sr Thomas Mann; sua escrita muito se cruza com a minha própria história e, consequentemente, com a minha obra.
— Estava ansioso para conhecer o prolífico Manuel Bandeira. Adianto que conheço seu enfrentamento à tuberculose: quase um morto social, que se viu na solidão. Mergulhou na frustração e peregrinou em busca da cura, acabando em um sanatório na Suíça — apontou Mann.
Os três trocam formalidades e sentam-se. João Manuel deposita o livro com cuidado entre eles, como se fosse um objeto a ser estudado, observado, pintado.
Bandeira percebe o destaque que o livro ali recebe e relembra que estivera internado no sanatório de Clavadel, nas proximidades do Waldsanatorium, que inspirou o fictício Berghof. Esse interlúdio tornou-se um ponto de intersecção das histórias de ambos, catalisando a passagem de um encontro solene para uma conversa mais cordial.
Os olhos cinza-esverdeados de Mann se dirigem ao horizonte, apoiando o queixo na mão direita, que, junto com a expressão, evocavam uma aura pensativa, nostálgica. De maneira reservada, cruza os olhos profundos com os de Bandeira e João Manuel.
— Foram três semanas acompanhando minha esposa; pareceram anos. Aliás, semanas é um intervalo muito curto para quem está lá em cima. O tempo, quando nos parece longo, é longo, e quando nos parece curto, é curto; mas ninguém sabe, em realidade, a sua verdadeira extensão....
De maneira sincronizada, os três soltaram a expiração, naquele “hã” cômico, seguido de um silêncio, esse nada vazio, mas de contemplação e reflexão. Grandes mentes sabiam rir de sua própria ignorância. O que poderia ser mais irônico? Pois ali, não sabendo como, mas sabendo quem — as Moiras — brincavam com o tempo, afinal, todos estavam ali juntos.
O silêncio foi interrompido pela descrição de Bandeira de que sua frustração inicial com o diagnóstico da tuberculose rompera sua vida normal, e que isso fora traduzido pelo choro nos versos, como um sabor acre escorrendo pela boca.
“Fez-me fazer versos como quem morre”, disse, com uma voz que se esvanecia, como que se afastasse para a perdição.
O som da aldrava batendo à porta interrompeu o momento penoso. Parecia mais destacado do que qualquer um imaginaria a princípio, pois a taverna não estava em silêncio absoluto naquele momento. A movimentação do garçom Ricardo, nos preparativos do encontro, misturava-se aos barulhos distantes da cozinha e ao som do gramofone, que tocava Caprice No. 24 em Lá menor, no violino de Niccolò Paganini.
Ricardo prontamente atende ao chamado, abrindo a pesada porta e dando passagem a um homem negro, de meia-altura e bem vestido. O homem retira o chapéu de feltro, acomodando-o no cabideiro de mogno junto à entrada da taverna, enquanto segue a orientação que lhe apontava o local de acomodação. Ainda com a porta aberta, Ricardo permite a passagem de uma pessoa com um manto cor de areia queimada, acinzentado e desgastado, com um capuz que cobria quase completamente o rosto, deixando visível apenas a parte inferior da barba grisalha e bem aparada. Ele se move de maneira lenta, mas não hesitante, e senta-se na penumbra, perto da parede mais distante da taverna.
Enquanto o primeiro visitante se dirigia à mesa, João Manuel comenta — está em vias de caquexia —, observação de um olhar clínico aguçado, em um tom de voz que somente Mann e Bandeira poderiam escutar. À medida que se aproximava, sua feição revelava traços delicados, com bigode proeminente e bem aparado e postura altiva, apesar da evidente dificuldade.
— Senhores, apresento-lhes João da Cruz e Sousa — diz Ricardo, com satisfação. A expressão de surpresa de Bandeira, Mann e João Manuel refletia o reconhecimento daquela figura, um dos maiores expoentes do simbolismo no mundo.
Enquanto Cruz e Sousa se dirigia de maneira aristocrática ao seu lugar, fruto de sua educação refinada, e cumprimentava cordialmente os companheiros, Ricardo indagava a todos sobre o que gostariam de beber.
— Enquanto matamos o tempo? — riu ironicamente Mann, seguido de uma risada de todos. Bandeira solicitou um café expresso. Um vinho do Porto foi solicitado para Cruz e Sousa e João Manuel; um Kulmbacher foi solicitado por Mann. Ricardo tomou nota em seu caderno de bolso, com capa de couro, e se dirigiu ao balcão.
Amenidades a respeito de seus respectivos tempos e lares tomaram a roda daquele seleto grupo. Ao fundo o gramofone alternava jazz no contrabaixo de Jimmy Blanton, a bateria de Chick Webb e as composições britânicas de Henry Purcell.
O garçom retorna com as bebidas solicitadas, distribuindo-as uma a uma, após repousar, no centro da mesa e sobre A Montanha Mágica, um outro livro, de menor espessura, mas de grande densidade: Antologia Poética. Ricardo afirma solenemente, olhando nos olhos penetrantes de Cruz e Sousa, que aquilo era uma pequena lembrança proporcionada pelo curador da biblioteca da Taverna.
— Meu Deus! — disse, visivelmente de olhos marejados. — Não tive a oportunidade de ver isso publicado em vida. A tuberculose ceifou-me isso.
Enquanto usufruíam os primeiros tragos, todos perceberam a carga emocional daquele momento; sabiam, de antemão que aquele senhor não teve a oportunidade de ver grande parte de sua obra — e talvez a mais impactante —publicada ainda em vida. Folheava o livro e demonstrava a necessidade de um momento introspectivo.
Percebendo o momento, Bandeira confere, com sua mão direita, se o cabelo está meticulosamente penteado para trás e acende um cigarro, continuando após o primeiro esbaforir.
— Tive minha juventude roubada pela tísica, minha vitalidade reduzida a pó. Meu pai custeou minha estadia em Clavadel, na helvética Meca da Tuberculose.
— O vento... o vento quente e seco da descida do Alpes, que limpa o ar. Quantas virtudes! Acelerava a combustão, curava as doenças latentes...um resort de ar puro. — disse Mann
— E lá estava eu como estrangeiro, em terra e na vida, repelido por esta – emendou Bandeira. — Recebi uma sentença de morte; lá ouvi que possuía lesões pulmonares graves, mas que estava sem bacilos e sem sintomas alarmantes. Portanto, tinha um prognóstico um pouco melhor, quem sabe cinco, dez, quinze anos... o que é esse tempo para um jovem? Passei a me iludir com a poesia; sentia uma inutilidade vazia.
— Conheço bem os limites da terapêutica – interveio João Manuel.
— Sim, eu estava suspenso na montanha — Bandeira assentiu. Não digo que tenha ficado atônito; a passagem por lá me permitiu aprofundar conhecimentos de línguas e de literatura: Les Misérables, Faust, Hamlet, El ingenioso hidalgo Don Quijote de la Mancha, Os Lusíadas. Reaprendi alemão. Foi em Clavadel que, pela primeira vez, pensei seriamente em publicar um livro de versos.
— A sensação de suspensão é o tédio, Herr Bandeira — ponderou Mann, com a familiaridade de quem já refletira longamente sobre o tema. Tédio era a vida sem tempo, a vida sem cuidados nem esperanças, a vida que estagnava sob a forma de uma atividade abastardada, a vida morta.
— A sensação de vida provisória — complementou Bandeira. A sensação de que ambos compartilhavam os pensamentos era pulsátil.
— Vocês são exemplos do “hominis sanatorialis”: paciente despersonalizado, suspenso da vida social. João Manuel percebia claramente, nos dedos ao redor do copo e nas folhas do livro, que Cruz e Sousa apresentava sinais de baqueteamento digital.
— Acho necessário nos aprofundarmos sobre o tédio, pois são corriqueiros alguns conceitos errôneos — emendou Mann. É lugar comum que a novidade abrevia o tempo, ao passo que a monotonia o retarda. Grande mentira! Pode ser que a vacuidade torne aquele momento — aquela hora — tedioso; entretanto, as quantidades mais extensas de tempo são abreviadas ou aceleradas pela monotonia, tornam-se um quase nada.
Façam o exercício inverso: um teor ou conteúdo interessante é capaz de abreviar horas, até mesmo um dia, mas confere vastidão, solidez, peso ao curso do tempo. Então, seus anos ricos de conhecimento — olhando para Bandeira — passam muito mais devagar do que outros, esses vazios, leves, que se vão facilmente com uma brisa.
— O homem sanatorialis me fez reconhece a dor, mas conseguiu transformá-la em linguagem – disse Bandeira; — quem sabe uma forma de resposta vital à doença, uma celebração da vida apesar de tudo.
Ao ouvir a frase “celebração da vida”, Cruz e Sousa fechou o livro e adotou uma expressão séria, enquanto Bandeira continuava:
— Reconheço que a tuberculose me tornou mais paciente, me ensinou humildade, mas gerou um sentimento que nunca mais consegui corrigir de todo.
A romantização da tísica continuava. No sanatório, temos uma metáfora do tempo suspenso, da morte lenta e da medicalização da vida — Mann falava convicto. A tuberculose surgia como um desvio, algo que redefinia o sentido da vida.
O que distingue o homem de outra forma de vida é o espírito, precisamente o espírito. Então é na doença, que o homem deve se distinguir dos animais. O gênio da enfermidade é mais humano que o da saúde.
Ouvir a digressão sobre a dignidade da doença fez com que Cruz e Sousa cruzasse os braços e projetasse o corpo para trás, adotando posição de defesa, quase que armando um ataque. O pescoço magro expunha a pulsatilidade da descarga adrenérgica.
Ricardo troca o disco do gramofone. Instala-se o samba leve de Noel Rosa. “Quando eu morrer...” preenche a sala. O rosto alemão de Mann pareceu reconhecer parte de suas raízes e demonstrou um sorriso involuntário. Os dedos de todos acompanhavam a cadência, com exceção dos dedos baqueteados de Cruz e Sousa.
O término da música é seguido pela modificação da postura de Cruz e Sousa, antes frágil, que agora se agiganta e adota forma combativa, como se rememorasse seus tempos na vanguarda do movimento abolicionista.
— Vocês parecem tratar o hominis sanatorialis como um privilégio histórico! Como ousam? O lirismo das elites em contraste, como o branco e o preto, ou no silêncio sobre a massa de pobres.
Ele impõe um silêncio estendido; ouve-se ao fundo o tilintar de pratos na cozinha. Sem elevar a voz, mas de maneira refinada e firme — revelando, ainda assim, sua revolta interna —, continua:
— Vocês vangloriam a tuberculose como inspiração da arte, enquanto ela só preenche a cemitérios, como o Père-Lachaise em Paris. Parece-me que, para vocês, ela estendia a vida; enquanto, na realidade, ela só cria urgência, só a encurta.
De forma quase imperceptível, o gramofone agora tocava a Marcha Fúnebre, de Frederic Chopin, em tom baixo e grave.
A fala rápida desencadeia uma tosse em Cruz e Sousa, tosse inteiramente despida de prazer e alívio, irregular, soava como se alguém chafurdasse, frágil e horrendamente no lamaçal da podridão orgânica.
A continuação dessa história pode ser encontrada aqui:
Comentários do autor:
A Montanha Mágica (1924), de Thomas Mann, usa a tuberculose como dispositivo para pensar o tempo suspenso em um sanatório alpino; poucos dias se alongam, anos se condensam. Tradução de Herbert Caro (Nova Fronteira).
Manuel Bandeira (1886–1968) foi diagnosticado com tuberculose aos 18 anos; foi um dos principais poetas do modernismo brasileiro. Sobreviveu décadas além do prognóstico. Desencanto (1912) e Epígrafe (1917) inspiraram diretamente suas falas no texto.
João Manuel Cardoso Martins (1947-2014), médico e humanista, morreu de doença neoplásica metastática.
Niccolò Paganini (1782–1840), violinista lendário, sofreu de tuberculose (além de sífilis), com progressivo declínio de saúde.
João da Cruz e Sousa (1861–1898), expoente do simbolismo, morreu aos 36 anos de tuberculose, com um curso rápido e fatal; grande parte de sua obra foi publicada postumamente.
Kulmbacher: cerveja bávara escura, tradicionalmente servida em canecas de meio litro.
Jimmy Blanton (1918–1942) redefiniu o papel do contrabaixo no jazz moderno. Sua carreira foi interrompida precocemente pela tuberculose; morreu aos 23 anos.
Chick Webb (1905–1939) sofreu desde a infância com sequelas graves de tuberculose óssea, que comprometeram seu crescimento e sua coluna. Ainda assim, tornou-se uma das presenças rítmicas mais poderosas da era do swing.
Henry Purcell (1659–1695) é associado a doença pulmonar crônica; sua música tornou-se emblema de lamento e solenidade.
Noel Rosa (1910–1937), sambista e compositor, morreu aos 26 anos de tuberculose.
O Cemitério do Père-Lachaise reúne ícones ceifados pela tísica, como Frédéric Chopin (1810–1849), Eugène Delacroix (1798–1863) e Molière (Jean-Baptiste Poquelin, 1622–1673).
Antologia Poética, Cruz e Sousa. Coleção Bom Livro, Editora Ática. Apresentação e notas de Ivone Daré Rabello.






