Sábio é o que se contenta com o espetáculo do mundo.
...
Ele sabe que a vida
Passa por ele e tanto
Corta à flor como a ele.
De Átropos a tesoura.
Ricardo Reis – Heterônimo de Fernando Pessoa
Tudo o que escrevemos é uma mera sombra de nossos pensamentos. Reis refletiu por um segundo, e tudo o que o cérebro processou foi escrito.
E, como nos Rubaiyat de Omar Khayyam:
O dedo móvel escreveu;
e, tendo escrito, moveu-se.
Nem toda a tua piedade, nem toda a tua
inteligência o farão voltar para cancelar
metade de uma linha.
Nem todas as tuas lágrimas apagarão
uma palavra dela.
Algumas coisas nunca mudam.
Reis parou e observou as pontas dos próprios dedos. Gostava de sentir a pressão delicada do indicador sobre o polegar, descrevendo círculos suaves e constantes. Fazia aquele movimento desde a infância, sempre que se sentia acuado ou tenso.
Quando seus pais o mandaram para o internato jesuíta, sempre que a disciplina se fazia presente na ponta da régua de madeira do professor de álgebra e latim, distraía-se com os movimentos dos dedos. Círculos e mais círculos para ocupar a mente enquanto o corpo sofria. Círculos macios, agradáveis.
Na outra mão, recebia a severa régua de madeira do professor, que batia até fazê-la latejar.
Talvez a vida fosse assim. De um lado, cobrava o preço. Pela dor. Pelo sofrimento e aspereza. Do outro, ainda permitia a escolha da delicadeza, macia como as pontas de seus pequenos dedos.
Com o tempo, foi aprendendo a ignorar as palmatórias e aceitá-las como parte do mundo, fora de seu controle. A vontade do padre era forte, necessária para impor disciplina e respeito. Segurava-lhe o punho com firmeza, como um torno, impedindo que a criança o recolhesse.
Reis sentia-se um covarde.
A natureza inexorável, mais forte do que nós, também nos segura e nos afasta. Nos arranca e nos empurra. Como um pequeno barco lançado de um lado para outro entre as ondas de uma tempestade no Mar Mediterrâneo, imaginava.
Mas, claro, sempre havia um propósito. A obediência era necessária para construir indivíduos corretos e tementes. O sofrimento legitimava um bem maior. O sacrifício provava e purificava.
Certo inverno rigoroso voltou-lhe à memória.
Seu amigo mais próximo, franzino e ainda sonolento, esquecera o casaco de lã no dormitório, situado no fim do corredor do andar superior do colégio.
Era um frio de gelar os ossos. Recordava-se de os dentes do menino baterem incontrolavelmente uns contra os outros, enquanto o corpo inteiro estremecia numa tentativa inútil de produzir calor.
Não sabia se fora o desespero provocado pelo frio cortante ou a ingenuidade infantil de acreditar que, naquele coração adulto, ainda existisse algum resquício de calor humano. O fato é que seu amigo venceu o medo e a rigidez da mandíbula para dirigir-se ao irmão — achava agora graça de chamar os professores do internato assim.
Ainda hoje surpreendia-se com a seletividade de suas lembranças.
Passaram por sua vida muitos bons professores. A maioria deles, para ser justo com a realidade. A grande maioria.
Era curioso como a memória parecia marcada em couro de boi, a ferro e fogo. As lembranças ruins permaneciam.
Seria isso somente nele ou uma característica da natureza humana? Essa escolha, consciente ou inconsciente, pelo desagradável.
Talvez fosse um mecanismo de autopreservação. A experiência perversa permanecia como advertência. Perceber o mal onde ele existe não é pessimismo; é uma forma de otimismo. Porque ao menos diante do mal, quase nunca há dúvida. O que nos fere grava-se na memória com muito mais profundidade do que aquilo que apenas nos agrada. É a lucidez da certeza, tão pouco presente nas páginas da vida, repletas de hipóteses, frases interrompidas, dúvidas e hesitações. Vivemos eternamente — quem diria? — em preparação. Somos uma nota de rodapé, circundando-nos de rosas, amando, bebendo e calando. O mais é nada.
Mais tarde, já adulto, chegou à conclusão de que nada se sabe. Tudo se imagina.
Seu amigo pediu, então, ao professor:
— Posso buscar meu casaquinho de lã?
O homem sequer levantou os olhos.
— Fique na sua carteira e aguente. Aprenda a não esquecer.
O rosto era uma carranca suspensa entre o deboche e a irritação por ter sido interrompido.
Tudo se imagina...
Então já não sabia se aquela era uma lembrança verdadeira ou inventada; uma fantasia vivida. Havia abandonado o mundo imaginado da infância. Não construía mais castelos no ar.
De qualquer forma, era assim que se lembrava.
Levantou-se lentamente da cadeira na sala de aula. O ranger do piso de madeira chamou imediatamente a atenção dos colegas e, sobretudo, do temido professor, que arregalou os olhos, pasmo.
— Mas o que...?
Antes que pudesse completar a frase, Reis simplesmente caminhou até o amigo, parou ao seu lado, voltou-se para o irmão e disse:
— Chega.
Então, como se uma lembrança muito antiga falasse por seus lábios, recitou:
Sê lanterna, dá luz com vidro em torno,
Porém o calor guarda.
Não poderão os ventos opressivos
Apagar tua luz;
Nem teu calor, disperso, irá ser frio
No inútil infinito.
As palavras saíram-lhe sem que soubesse de onde vinham.
Tirou os óculos e os pousou na carteira ao lado. Em seguida, retirou o próprio casaco puxando-o pelo colarinho e o entregou ao amigo.
O menino ergueu lentamente a mão. O ar que saía de sua boca transformava-se numa névoa branca pelo frio, mas já não havia medo.
Então Ricardo Reis viu-se novamente na confeitaria, de pé diante do agente, que o observava com uma expressão entre a curiosidade e a admiração. Havia uma névoa esfumaçada, dado os cigarros e cachimbos dos clientes das mesas próximas.
— Você não tem a mínima ideia do que sou capaz, Agente.
— Muito pelo contrário, Reis. Você fez o impossível. Foi o primeiro dentre muitos. O pioneiro.
— Pioneiro em quê?
O Agente baixou os olhos. Os lábios comprimiram-se discretamente antes de um longo suspiro.
— Qual é o problema, Agente?
— Quando escrevi para você, Reis, não foi uma decisão fácil.
Ergueu vagarosamente o rosto.
— Eu… eu sabia que você seria o escolhido para permanecer, porque, de certa forma, é mais real do que eu mesmo.
Reis franziu o cenho.
— Como poderia ser mais real do que qualquer outra pessoa?
— Porque você é a parte que habita e se reconhece, doutor.
Instintivamente, Reis levou a mão ao bolso. Apertou o relógio de bolso, como se pudesse segurar a passagem do tempo, esse inexorável companheiro que nos limita e nos define.
— Dezesseis horas e quarenta e sete — disse calmamente o Agente.
Reis retirou o relógio.
16h47
Percutiu com o dedo a pequena máquina.
— Não adianta dar corda. O relógio não está com defeito. A informação está correta.
— Como assim?
— O Tempo é algo que o Universo escreve continuamente em si mesmo.
— Outro de seus truques?
— Eu disse que o tempo está correto.
O Agente fez um gesto distraído com a mão, como quem apenas afasta uma mosca insistente.
— Já imaginou olhar seu reflexo no espelho... e não se reconhecer? Levar as mãos ao rosto e a imagem não responder aos seus movimentos, indepedente de sua vontade? Como se aquele que olha fosse apenas o lugar onde se sente e se pensa?
Fez uma pausa.
— Assim como o Tempo, esse espelho reflete um processo mais profundo.
— O que pode haver de mais profundo e fundamental que o próprio Cronos, o deus atroz que devora os próprios filhos? — a voz de Reis chiou.
O Agente sorriu discretamente.
— Meu caro, você já sabe a resposta.
Fez nova pausa.
— Por acaso não escreveu que o Destino é sempre alheio e invencível, quer o que procuremos, quer o que esperemos?
Reis permaneceu em silêncio por longos segundos antes de responder.
— A vida ensinou-me a nunca interrogá-la. Ela nada tem a me dizer. Vivo. Simplesmente vivo e sigo meu destino. Assim não me frustro com a realidade, porque ela é sempre mais — ou menos — do que desejamos.
— Aquilo que você intuiu em sua poesia vale muito além dos versos, doutor.
O Agente aproximou-se.
— Tudo o que existe, absolutamente tudo, relaciona-se entre si, como já intuíam os antigos. E essas relações deixam uma marca indelével. Um registro irreversível. Informação.
Olhou diretamente para Reis.
— É isso que chamamos de Destino.
— Como o dedo móvel que escreve os versos dos Rubaiyat?
— Sim. Indelével. Irreversível. Nem toda a tua piedade, nem toda a tua inteligência poderão apagar sequer uma palavra.
Reis baixou os olhos.
— Mas eu escrevo apenas versos. E sobre as linhas da realidade não tenho poder algum. Por que, então, me escolheu?
O Agente respirou profundamente.
— Chegará o momento em que toda a humanidade será posta à prova.
Reis estremeceu da cabeça aos pés.
— Permita-me ser franco, Reis. É a nossa única chance.
O Agente fez uma pausa.
— Aquele casaco de lã, na sala de aula... não foi você quem o deu ao seu amigo.
Reis sobressaltou-se.
Como ele podia conhecer suas lembranças?
O Agente respondeu antes mesmo da pergunta.
— Essa memória é minha, doutor.
O silêncio pareceu suspender o próprio tempo.
— Ou nossa, se preferir.
Então o agente levantou-se lentamente, estendeu a mão e disse:
— Creio que chegou o momento de me apresentar apropriadamente.
Reis permaneceu imóvel.
— Fernando Pessoa.





