Seis grandes mentes duelavam à mesa principal da Taverna.
A luz amarelada se derramava sobre as taças meio cheias, louças tocadas e guardanapos de linho amassados — o único sinal de que o tempo aparentemente passava.
Einstein recostou-se, o cachimbo pendente dos lábios, Sagan tamborilava os dedos, Camus afastou seu prato, Galileu percorria o bordado da toalha com as mãos. Cada gesto parecia carregar um cálculo, uma hipótese, um juízo.
Naquele espaço, os golpes eram verbais e os silêncios, feridas que deixavam cicatrizes mais profundas do que qualquer réplica. O que estava em jogo não eram ideias soltas, mas a essência última e íntima de cada um deles, aquilo que moldou épocas inteiras.
A decoração era sóbria, o serviço impecável. O aconchego do ambiente, de fina decoração sem excessos, e as amenidades servidas aos convidados pareciam contrastar com o que se desenrolava ali — como se a madeira escura e o perfume discreto do vinho tentassem suavizar o choque de visões.
E parecia haver uma diferença cataclísmica entre outras duas mentes titânicas, Lemaître e Nietzsche.
As cadeiras estavam próximas, sem a distância cerimonial que protege egos. Ali não havia orgulho ou presunção. Ninguém precisava da última palavra para provar nada. Cada um defendia, sem alarde, o lugar de onde via o mundo. O que se fazia nítido é que todos se bastavam o suficiente para debater franca e abertamente, sem vaidades, e colocar à prova suas convicções mais profundas. O resto — toalhas limpas, talheres de prata, enfeites de Murano, taças de cristal esculpido — era mero detalhe. Ali, o que estava em jogo transbordava o metal e o cristal.
A cada pergunta, era como se empurrassem a borda do mapa do mundo cogniscível um pouco mais para o desconhecido. Era o ponto onde o pensamento encostava no que não se podia nomear. Afinal, sabiam que o material é supérfluo e superficial, e que a verdadeira riqueza é outra.
Porém, mesmo as maiores mentes podem dar um passo em falso...
Lemaître percebeu o movimento de Nietzsche e estranhou a ausência de reação do filósofo aos seus argumentos. Havia defendido sua fé magistralmente, não havia? Por que então seu oponente não demonstrava o mínimo de consternação, tal qual os demais? Procurou novamente a sua taça com água, pois sua boca recendia a fel.
O alemão permitiu-se um sorriso quase imperceptível e franziu levemente a testa.
— Lemaître, serei brutalmente honesto. Temo suas certezas, padre. — Nietzsche repousou a colher de sopa, sem ruído algum. — Você substituiu o carrasco pelo benfeitor — disse com voz baixa e cortante. — Trocou a culpa pela graça. A tutela pela companhia. Preencheu a ausência de finalidade com significado. Bravo!
O padre ajeitou a manga da batina, como se ela tivesse encolhido.
Nietzsche endireitou o corpo, aproveitando o impulso.
— No entanto, caro amigo… sua batina e toda a sua Igreja o impedem de ver a verdade. Ambas são absolutamente desnecessárias para realizar aquilo que você mesmo diz defender. — Ele sorriu mostrando discretamente os dentes abaixo do generoso bigode, como quem revela uma carta guardada.
Lemaître franziu o cenho e tocou o crucifixo, como quem procura a posição exata das palavras antes de lançá-las. Não falava para vencer Nietzsche — mas para que simplesmente o ouvisse no íntimo.
— Defendo o que a Igreja defende. Acredito que a Igreja, em seus primórdios, não permaneceu devido ao seu poder ou à sua influência, irrelevantes em seus primeiros séculos — disse, firme. — Prevaleceu pela força da verdade das palavras de Cristo. Esta Igreja, de que tanto fala e que critica, é tardia. Surgiu muito tempo depois da palavra pregada.
O sacerdote fez um pausa e olhou para os demais convidados, então voltou a se concentrar no filósofo:
— Para homens como você, Nietzsche, talvez ela seja desnecessária. Mas não escrevemos apenas para os raros, mesmo que o Cristo que você admira fale aos fortes de alma, que suportam a solidão do sentido.
O sacerdote comprimiu os lábios num traço fino:
— A Igreja tenta impedir que os fracos sejam mortos no caminho até Ele.
O filósofo ergueu as sobrancelhas, quase compassivo.
— Ora, Lemaître… toda a estrutura, precoce ou tardia, que se ergueu após a morte de Cristo cresceu no sentido contrário à sua obra. Opôs-se frontalmente aos seus ensinamentos. — Mostrou as palmas e fez um movimento rápido afastando-as entre si.
— A sua graça, padre, anestesia a revolta que é própria de Cristo.
O sacerdote ouviu. Surpreendentemente não havia rejeição em sua expressão — apenas desconforto. O que Nietzsche dizia ecoava dentro dele, de forma estranhamente familiar e potente. Lemaître se esforçou para que as palavras saíssem claras:
— E de que forma isso ocorre? A Igreja segue os ensinamentos sagrados...
Nietzsche fechou as mãos separadas, como quem apresenta um veredito inevitável.
— Este é o ponto, Lemaître. Este é o ponto que eu queria atingir — que gostaria que você atingisse desde o início.
Levantou-se da cadeira apoiando as mãos na mesa. A lareira estalou, como se acompanhasse a tensão.
— O último cristão que existiu... foi Cristo. Todos os que vieram depois dele — especialmente seus apóstolos — distorceram, deturparam e corromperam sua mensagem e a transformaram num sistema de poder. — Nietzsche fixou seu olhar, sem piscar, no sacerdote.
Como ousava?
O próprio pensamento soou escandalizado dentro da cabeça de Lemaître.
O filósofo inclinou-se e se aproximou.
— Cristo não julgava. Não punia.
Nietzsche abriu a mão devagar, como se libertasse algo.
— Não precisava.
Aquelas palavras trouxeram a imagem dos olhos de Cristo crucificado que arrebatou Lemaître, trespassando sua carne para revelar na sua alma não o julgamento, mas o mais puro perdão.
O padre se amparou, segurando a borda da mesa, as pontas dos dedos empalideceram. Ele ainda podia sentir aquilo, mesmo sem compreender. A tragédia do suplício que havia presenciado pouco tempo antes expunha de modo permanente visões de mundo opostas.
Percebia a intenção verdadeira nas palavras de Nietzsche, porém elas exigiam um custo elevado de transmutação, de tresvaloração.
A taverna inteira mergulhou no silêncio. A figura do filósofo assomava sobre todos.
Nietzsche continuou, firme, alheio à lembrança de Lemaître:
— Cristo nunca quis fundar uma religião. Quem fez isso foram seus discípulos — Paulo acima de todos. O vosso São Paulo… o grande falsificador da história.
Lemaître levou a mão à boca, horrorizado. O colarinho de sua batina apertava-lhe o pescoço, que pulsava. Enfim, palavras escaparam de seus labios cerrados:
— E você, Nietzsche, tem certeza que não está fazendo o mesmo? — perguntou sem conseguir elevar a voz. — Seu Cristo construído, ideal, é tão inacessível quanto o meu...
— Vocês transformaram Cristo em símbolo. Eu tento desbastar séculos de mentiras e mitos sob os quais o soterraram.— disse Nietzsche, saboreando as palavras. — Criaram dogmas, forjaram culpa. A sua ideia de existir em companhia cobra um preço… a dependência.
Lemaître perdeu o chão. Estava atônito, incapaz de responder.
Nietzsche inclinou-se para frente. O brilho âmbar das lamparinas desenhou sombras duras sobre seu rosto.
— Cristo foi negado pelo cristianismo.
A frase caiu como um golpe profundo.
A madeira da mesa parecia absorver a tensão.
Nietzsche prosseguiu, a voz agora mais baixa e incisiva:
— O homem de Nazaré pregava um modo de vida, não uma moral. A Igreja… foi uma perversão lenta, mas genial, admito. Mataram-no duas vezes: no corpo e no sentido.
O fogo estalou alto demais.
Ele ergueu os braços, ainda de pé, como se assumisse por um segundo a forma de uma cruz.
— Arrisque-se como ele se arriscou. Permita-se perder. Não controle o que não pode ser controlado. — fez uma pausa. — Nunca pôde.
Lemaître respirou fundo, lutando para recuperar o eixo. As lamparinas oscilavam, projetando sombras que pareciam acompanhar sua hesitação. Por fim, conseguiu falar:
— E… não poderia essa sua visão, Nietzsche, ser apenas um amadurecimento da fé organizada? A tradição é o modo pelo qual os séculos tentam proteger algo frágil demais para ser deixado ao vento.
Camus interveio, cauteloso:
— Eu reconheço isso — disse com voz branda. — É raro ver um religioso compreender Nietzsche sem tentar reduzi-lo.
Lemaître voltou-se para o escritor, mas continuou:
— Admiro a coragem de Nietzsche. Poucos tiveram a audácia de olhar Deus nos olhos e dizer: “Sou responsável por mim mesmo”.
O garçom, recolhendo talheres, murmurou de modo quase litúrgico:
— “Eles me adoram ensinando doutrinas que são mandamentos de homens.” — em Marcos está escrito.
Nietzsche encarou o garçom, que colocou a mão em seu ombro e o convidou a sentar-se novamente.
O filósofo abrandou o tom e baixou as mãos.
— Jesus transcende as normas. Não reforça a moral. Ele a explode.
Ao se sentar, continuou:
— Ele dissolvia a moral — não a empunhava.
Nietzsche sorriu, dirigindo-se ao garçom.
— Também posso citar a Escritura, em João: “Meu reino não é deste mundo”. Ele nunca quis um reino. Nunca quis uma Igreja. — O filósofo suspirou. — Quem inventou isso foram os outros — os hipócritas, sepulcros caiados; belos por fora, cheios de ossos por dentro.
Até o fogo pareceu conter o estalo.
— Cristo era contra o poder — continuou Nietzsche. — Ele rejeitava dominação e hierarquia. “Amai os vossos inimigos.”
Lemaître baixou a cabeça. O desconforto em seu pescoço havia cessado.
— Também está escrito… — murmurou para si mesmo, como quem se agarra a algo que escapa. — “Ninguém dirá: ei-lo aqui ou ei-lo ali, porque o Reino de Deus está dentro de vós.”
Nietzsche assentiu.
— Sim, padre. Cristo pregava como quem viveu — não como quem doutrina. Ele falava aos fortes de espírito, não aos domesticados. Vocês vivem como se não houvesse risco algum. Vocês não querem pagar o preço real...que Cristo pagou.
Lemaître ajustou os óculos, tentando se recompor.
— Mas sem a palavra pregada… ele não seria apenas um sopro no deserto?
O filósofo replicou imediatamente:
— Pregado… ou capturado, Lemaître?
O padre recostou-se à cadeira.
Nietzsche finalizou, umedecendo os lábios.
— Vocês torceram as palavras de Cristo como se entortassem ferro… mas o ferro permanece ferro, mesmo torto pelo homem.
Lemaître não respondeu de imediato. O peso do que foi dito por Nietzsche não pedia réplica, mas escolha. Por um momento, o sacerdote pareceu pesar algo invisível entre as mãos — não argumentos, mas consequências. Para os outros e para si mesmo.
Aquele ambiente da Taverna, íntima mas talvez profana, mostrava-se um terreno fértil para crescer — ou perecer.






