O Natal e os Guardiões do Impossível
Sobre amadurecer sem abandonar aquilo em que ainda ousamos acreditar
Entrelaço os fios das vidas.
A maioria, frágil e dispersa,
disforme, sem claro destino ou mote.
Outros — raros — ao se encontrarem,
reconhecem o desígnio no toque.
Unidos, urdem redes —
fino tecido, sentido.
Assim se fazem fortes, sem vício.
Assim resistem.
Este é meu ofício desde o início dos dias.
Sou Cloto, os teço, sim.
Contemplo as vidas.
Ignoto, no começo já habita o fim.
Seu passado, presente, seu amanhã.
As que se entrelaçam
detêm meu olhar e têm apreço.
Não por escolha,
mas por peso.
Nenhum enredo
resiste à lâmina de minha irmã.
Duas exceções, porém, conheço —
meu tear não as compôs.
A primeira:
não teci o fio do Ungido.
Cortado, ergueu-se;
ressurgido, inquietou Átropos.
A segunda, entre os mortais,
é a tradição que atravessa gerações.
Rompe-se o fio,
não o tecido.
Vive no nome, no gesto repetido.
Às famílias cabe este tear,
quando minhas mãos
cessam o fiar.
— Thank you indeed, Mr Schulz.
Agradecia o senhor, já na casa dos setenta, de cabelos completamente brancos, postura ereta e uma agilidade que contrariava a idade, enquanto Ricardo pendurava seu longo casaco de lã verde-escura e o chapéu de feltro macio, de coroa delicadamente amassada, no cabideiro de mogno junto à entrada da taverna.
— Este palco me traz boas recordações, Ricardo. É sempre um prazer retornar.
Seu olhar percorreu o salão agora vazio, cadeiras invertidas sobre as mesas, como se a taverna repousasse, sem expectativa de visitas iminentes.
Com um sorriso contido, Ricardo indicou a porta que conduzia à biblioteca. Ao abri-la, foram imediatamente envolvidos por um regozijo musical:
You better watch out, you better not cry
You better not pout, I’m telling you why
Santa Claus is comin’ to town
Na ala leste da biblioteca, quatro meninas, entre dez e quatorze anos, revezavam-se ao teclado de um piano vertical de mogno polido, de tom avermelhado quente — um legítimo Eisenfelder — que se destacava com suas linhas clássicas diante das estantes repletas de livros, de formas variadas, mas retilíneas e previsíveis.
Enquanto uma tocava, as outras cantavam, em um revezamento contínuo, quase hipnótico. Em ritmo festivo, quase dançante:
Bate o sino pequenino, sino de Belém,
Já nasceu o Deus-Menino, para o nosso bem...
As palavras rodopiavam na alegria leve, saltitante e intacta da infância.
As sobrancelhas grossas e brancas se ergueram em conjunto com um leve sorriso. Seus olhos azuis claros, então, seguiram a indicação de Ricardo em direção ao lado oeste da biblioteca, de onde provinha a luz natural do recinto.
Ali erguia-se uma janela vertical, composta por três painéis altos e estreitos, de notável imponência. Sua estrutura era robusta, com caixilhos grossos e rústicos de madeira escurecida, negra como o ébano. As travessas horizontais e verticais formavam retângulos perfeitamente simétricos que, em conjunto com os arcos superiores, conferiam ao conjunto um suave toque gótico.
Os vidros duplos, límpidos, permitiam acompanhar o pôr-do-sol em movimento e criavam no ambiente uma sensação acolhedora de abrigo.
Ricardo indicou, com um gesto delicado, o local para onde o nobre convidado poderia se dirigir.
— Por gentileza, professor, podemos nos acomodar nessas cadeiras. É o que chamamos, por aqui, de Recanto do Colóquio: um lugar de boas conversas e ideias sem pressa.
Próximas à janela, duas cadeiras de estilo vitoriano, visivelmente pesadas e de caráter imponente, estavam posicionadas frente a frente, quase se tocando pelos braços dianteiros, formando um pequeno ângulo. Esse ângulo transmitia não a sensação de um duelo frontal, mas permitia que os ocupantes se observassem com conforto, sem necessidade de grandes ajustes do corpo. Entre elas, um espaço contido acomodava uma mesa baixa, sobre a qual repousava um abajur e uma superfície ampla o bastante para os objetos habitualmente ali utilizados — agora ocupada por um bule de porcelana, xícaras e pires.
— Nada como um revigorante chá — dizia Ricardo, enquanto servia as duas xícaras.
— Agradeço sua disponibilidade em nos visitar, John Ronald Reuel.
— Sinto-me lisonjeado e confortável ao nos tratarmos pelo primeiro nome, Ricardo. O respeito é recíproco, fruto da proximidade que desenvolvemos — respondeu, segurando a xícara com mãos grandes, de dedos longos, marcados pelo tabaco, antes de levar o chá aos lábios. — É um prazer estar aqui.
— Vou chamar as crianças, e espero que aproveite. Bento, Lara e Luísa, venham aqui.
Logo atrás de Luísa surgiram correndo Aninha e Liz, as menores do grupo, ainda entre três e quatro anos. Bento, aos sete, magro e esguio, trazia sempre um sorriso largo e curioso, atento a tudo o que se anunciava como aventura. Luísa, com onze anos e energia inesgotável, não parava quieta, fazendo acrobacias e espacatos como se o corpo também quisesse participar da conversa. Lara, um pouco mais velha, de cabelos castanhos lisos e traços delicados, observava com calma e interesse, sorriso aberto, como quem prefere compreender antes de falar. Aninha, a mais nova, já corria com desenvoltura e tagarelava sem pausa, enquanto Liz, de franja reta e postura confiante, parecia certa de seu lugar ali, mesmo em silêncio.
As crianças sentaram-se no chão, logo à frente das poltronas, acomodando-se com naturalidade.
— Estou sabendo que vocês querem conhecer algumas curiosidades sobre o Papai Noel. É verdade?
Claramente não esperavam ouvir aquele nome. Bento soltou um sonoro “Sim!”. Lara e Luísa se entreolharam, desconfiadas a princípio, mas logo assentiram com a cabeça.
— Pois bem, tenho algumas coisas interessantes para contar. Mas, antes de tudo, preciso que entendam onde essa história se passa — disse, ajeitando o colete e esticando a calça de lã grossa, como quem se prepara para algo importante. — Imaginem um local gelado, coberto de neve para todos os lados, com um vento especialmente frio durante o inverno. Perto do famoso Poste do Polo Norte.
— Poste do Polo Norte? — indagou Lara.
— Sim. O Poste do Polo Norte é o ponto mais ao norte do nosso planeta — explicou, apontando com o dedo longo e firme para um globo terrestre de tom sépia envelhecido, cujos continentes eram delineados por traços ornamentados e rotulados em latim arcaico. O globo repousava sobre uma pequena mesa à sua direita. Não estava ali como ornamento, mas como lembrança de que o mundo real, com suas terras incógnitas, ainda guarda mistérios suficientes para as mentes mais curiosas.
— É nesse lugar que fica a casa do Papai Noel — ou, quem o conhece melhor, Papai Nicolau Noel. Seu principal ajudante, o Urso Polar do Norte, é muito bem-intencionado, mas um tanto trapalhão — disse, lançando um olhar atento a cada uma das crianças. — Já se envolveu em confusões com fogos de artifício, perdeu encomendas importantes... mas sempre se mostrou dedicado às suas tarefas.
Enquanto escutava, com atenção renovada, Ricardo pegou uma folha de papel e alguns lápis-de-cor, começando a rabiscar calmamente sobre uma prancheta.
— Não pensem que a vida dele é moleza. Está sempre terrivelmente ocupado, principalmente a partir de outubro, quando começam a chegar os pedidos.
— Todo mundo recebe o que pede? — emendou Luísa.
— Ele costuma dizer que espera levar algo que as crianças queiram, embora nem sempre tudo o que pediram.
— Mas como ele consegue atender todo mundo? — rebateu Bento.
— Mais de dois mil presentes por minuto, nos melhores desempenhos — respondeu com naturalidade. Bento arregalou os olhos.
— As coisas ficaram mais fáceis quando os elfos ajudaram a organizar a separação dos presentes. Foi uma ajuda e tanto — continuou o senhor, enquanto Ricardo seguia rabiscando. — E sabe de uma coisa? Papai Noel treina suas próprias renas, que ele traz da Lapônia — disse, apontando mais uma vez para o globo, quase tornando visível a imaginação das crianças.
Ricardo terminou o desenho, coloriu o Papai Noel ao lado do Urso Polar do Norte e o entregou a Aninha e Liz.
— Eis um retrato deles — disse, com ternura.
As meninas soltaram uma risada e saíram correndo com o desenho, Liz ajeitando a franja com cuidado, enquanto Aninha balançava o papel no ar, apontando para o Urso Polar do Norte como se ele ainda estivesse ali. Para elas, a história havia se cumprido. Bento, Luísa e Lara permaneceram atentos. O senhor, agora, gesticulava mais, claramente animado.
— Vocês sabem que nem tudo são doces e flores na vida por lá! — disse, com uma voz estridente, que surpreendeu as crianças, quase imitando um rugido de goblin.
— Goblins! Pequenos, do tamanho de vocês, Bento — ele fez uma voz aguda, quase zombeteira. — Pele pálida, esverdeada, feios, malvados, cabeçudos, maliciosos! Eles ficam à espreita da Casa do Papai Noel, esperando para roubar os presentes!
Ele falava com tanta energia que sua voz parecia inchar de empolgação, a história agora fluindo com uma rapidez frenética.
— Cavaram túneis! Tentaram roubar os presentes! — as crianças arregalaram os olhos de susto. E continuava: — Papai Noel teve que chamar os gnomos vermelhos, que ODEIAM os goblins! — ele continuava imitando, agora com voz rouca dos gnomos. — Quebraram estábulos, afugentaram as renas!
Ele interrompeu a fala por um instante, como se tivesse perdido o fôlego, batendo as mãos nos joelhos, os olhos brilhando. Em seguida vieram os sons: das patas de renas correndo, sussurros, um grito de urgência — tudo encenado ali mesmo, diante das crianças.
A animação não passava despercebida. Helena e Letícia interromperam a música ao piano e atraídas pela energia do relato, aproximaram-se lentamente.
O senhor parecia inteiramente imerso. Falava olhando diretamente para as crianças, estavam dentro da história, não apenas como ouvintes.
— Sabem, ouvi de minha avó uma canção que foi passada pela avó dela… Será que devo cantar para vocês, crianças?…
— Siiiiim!… — gritaram em coro os pequenos. — Por favor, Sr. John!
— Pois bem, se vocês insistem… mas preparem-se, porque ela serve como um aviso especialmente para a noite de Natal… — disse o convidado, que levantou a gola da camisa, arregalou os olhos e inclinou-se para frente, acentuando a voz de barítono. Percutiu com os dedos nodosos no tampo da mesinha, num ritmo hipnotizante, que mais tarde serviria de inspiração para outro britânico, Freddie Mercury… Tum-tum tá… Tum-tum tá... Tum-tum tá
Cui-dado c’os Go-blins!
Cui-dado c’os Go-blins!
Sorrateiros e bagunceiros!
Querem os presentes que não lhes pertencem.
Têm os dentes tortos, não vão ao dentista,
nariz de porcos, cabeleira sinistra!
HU- HA!
Cui-dado c’os Go-blins!
Cui-dado c’os Go-blins!
Ladrões e baderneiros!
Quando saem da toca
em suas andanças,
querem levar, esses bobocas,
as lembranças das crianças
fazendo careta nada engraçada!
Como insistem!
Levam os presentes para enfeitar sua morada.
Pior que eles, não existem!
Se o cachorro latiu:
é aviso!
Moram no covil
cheirando a canil!
Não têm juízo!
HU- HA!
Cui-dado c’os Go-blins!
Cui-dado c’os Go-blins!
Chamem ajuda, evitem a lambança!
Os gnomos persistem, as fadas resistem!
Com eles, não entram na dança.
Mas depois que os presentes Noel
às crianças entregar,
debaixo do pinheiro,
a casa enfeitada,
família reunida,
vou lhes falar:
Agora, é com vocês!
Peguem a espada afiada,
o escudo que brilha
na aurora cortês,
em vigília, antes do galo cantar.
Cui-dado c’os Go-blins!
Cui-dado c’os Go-blins!
Matreiros e cabeçudos!
HU- HA!
A esta altura todos já estavam de pé remexendo os braços e saltitando no ritmo da canção, e os mais velhos caíam na gargalhada!
O convidado enfim se sentou, ofegante. — Ahhh, que boas lembranças da minha infância! — Muito bem, crianças! Agora já estão preparadas para enfrentar esses monstrinhos se ousarem aparecer por aqui. Voltou-se com um generoso sorriso para Ricardo, que também deixou-se contagiar pela alegria da antiga canção. Algumas das crianças agora brincavam no salão da biblioteca, imaginando goblins e gnomos.
Após alguns instantes, pôde apreciar a ampla janela da biblioteca que permitia ver um longo e bem aparado gramado. O sol poente contrastava com o horizonte da serra — tomada por araucárias — tingindo de laranja queimado o lusco-fusco do entardecer. As árvores, em suas mais variadas alturas e formatos inconfundíveis, desenhavam um horizonte singular, como taças projetadas em direção ao céu.
No gramado, a cerca de quinze metros da janela, se destacava um pinheiro, com cerca de dez metros de altura, com contornos que pareciam ser retirados de uma pintura impressionista, tão belo quanto imponente. Ao lado do pinheiro, via-se uma escada em forma de V invertido, com cerca de quatro metros de altura. Sobre ela, um homem se esforçava, mas se divertia, enquanto posicionava o que pareciam ser luzes de Natal, atento à simetria de cada fio. Auxiliavam-no dois meninos, um com quatorze, outro já com quinze anos — idade em que altura já impressiona, mas o juízo ainda não acompanha na mesma proporção — atentos aos afazeres em curso.
A cor verde-escura dos galhos, densos e bem horizontais, confundia-se com o negro das sombras. No topo do pinheiro, a Die Spitze — a ponta dourada que refletia os últimos raios de sol — destacava-se com um ar de mistério. Como havia conseguido colocá-la ali?
Na face norte da biblioteca, uma porta se abriu. Julie e Cassia entraram trazendo uma bandeja de doces de Natal e canecas de Choco Leite. Moviam-se com a naturalidade de quem cuida — atentas às crianças, aos detalhes, ao ritmo da sala — como se garantissem, sem alarde, que tudo continuasse possível.
O senhor levantou-se de imediato, como fazia sempre que uma mulher adentrava o recinto, inclinou levemente a cabeça e saudou com cortesia:
— Madams...
O lanche foi disposto no chão, para alegria geral. Em meio à confusão divertida, entraram na biblioteca os dois meninos que, há pouco, estavam do lado de fora.
— Acabamos. Deu trabalho, mas chegamos bem a tempo desse lanche — disse Pedro, com seu sorriso grande, com aparência simpática e expressiva.
— E está com uma cara ótima — emendou Felipe, ajeitando o cabelo escuro, visivelmente à vontade.
Pedro observou parte do grupo reunido no chão, em volta do senhor de cabelos brancos.
— O que está acontecendo aqui? Todo mundo ouvindo histórias?
— Histórias do que? — perguntou Felipe, curioso.
— Natal! Goblins! Presentes! Papai Noel! Urso Polar do Norte! — responderam as crianças menores, atropelando-se nas explicações, cada uma defendendo a parte mais empolgante.
— Parece mais uma bagunça divertida isso — comentou Luísa.
— Ou uma baita história infantil — cutucou Helena.
— Já passei da época — retrucou Felipe.
— Goblins?!?! — Pedro riu. — Até parece que estamos em O Senhor dos Anéis.
Ele trocou olhar cúmplice com Felipe, Helena e Letícia — não coincidentemente, os mais velhos da trupe — que assentiram, reconhecendo a referência.
O senhor escutava a troca frenética de opiniões com paciência. A menção às aventuras da Terra-média o fez se ajeitar na cadeira, cruzando as pernas e expondo as solas gastas dos sapatos. Um sorriso amplo redesenhou as rugas do rosto. Ele passou a mão pelos cabelos para trás e trocou um olhar breve com Ricardo.
Como se pedisse uma autorização implícita — prontamente concedida com um leve aceno de cabeça —, retirou do bolso do paletó de tweed xadrez um cachimbo de haste longa e fina.
— Gostam dessas aventuras, crianças?
A pergunta teve um efeito imediato. Os quatro se dirigiram às estantes da biblioteca e retornaram com volumes claramente bem manuseados: A Sociedade do Anel, As Duas Torres, O Retorno do Rei, o Hobbit e Contos Inacabados.
— Interesting, indeed — murmurou, com um brilho satisfeito nos olhos de águia, enquanto ajeitava o fumo no fornelo, acendia o cachimbo e mordia distraidamente a piteira fina e escura.
Calmamente, sem levantar a voz, ele soltou uma baforada que se ergueu como uma cerração numa manhã fria de inverno.
— Luísa, Papai Noel existe — e é uma bagunça divertida.
A Helena lembrou que o Natal não era fuga da maturidade, nem história infantil.
Felipe ouviu que crescer não era quebrar a magia, mas transformá-la em algo maior.
E a Pedro ficou a imagem: reis e sábios haviam desistido do Um Anel, até que Bilbo o encontrasse por acaso.
Então se calou.
O silêncio cresce por alguns segundos. Não era ameaçador, mas desconcertante. O senhor expansivo tornara-se quase um avô atento. Seus olhos azuis, profundos, percorriam um a um, procurando não respostas prontas, mas reações verdadeiras. Ali, sentados juntos, começavam a perceber que não eram apenas ouvintes passivos — o sentido da história também lhes pertencia.
Nesse instante, as luzes do pinheiro no jardim se acenderam. Tons contínuos de verde, vermelho e azul romperam a escuridão do exterior. O esplendor da árvore iluminada contrastava com a noite ao redor, como se algo ancestral tivesse sido discretamente acordado.
Com voz baixa e grave, ele retomou:
— Digam-me… o que vocês lembram do Natal quando eram menores? Não aquilo que acham que deveriam lembrar, mas aquilo que faz o coração bater um pouco mais rápido. Aquilo que ainda é bom de lembrar.
— Certa vez tentamos filmar o Papai Noel deixando os presentes. Não sei como eles foram entregues, mas nada apareceu na filmagem — adiantou-se Lara, claramente animada.
— Lembro que fizemos uma banda de Natal, inventando instrumentos com minhas irmãs e minha prima. Foi muito divertido! — disse Luísa.
— Certa vez, nossos planos mirabolantes para pegar o Papai Noel deram certo — disse Felipe, resgatando a memória.
— Lembro de ouvir o sino do Papai Noel e depois vi o Noel descendo as escadas da minha casa! — disse Helena.
— O sequestro do Menino Jesus na manjedoura, na véspera do Natal… Resgatá-lo deu trabalho — disse Pedro, com sua memória impecável.
Letícia demorou um pouco mais antes de falar, como se escolhesse com cuidado a lembrança.
— Eu lembro da cartinha que escrevi para o Papai Noel… — disse, por fim. — Eu ainda estava aprendendo a escrever. As letras eram tortas, algumas palavras erradas… mas eu caprichei muito. Achei que, se ficasse bonita, ele ia entender mesmo assim.
Ele ouviu em silêncio, os olhos atentos, o sorriso contido por trás do cachimbo apagado. Então, como quem recolhe os fios soltos de uma história, disse:
— Vejam só… ele ainda está aí, não está? — sorriu de leve. — O velho Papai Nicolau Noel.
Alguns acham que podem apagá-lo com a razão. Enganam-se. Ele não mora nas ideias, mas em algum lugar mais profundo.
Amadurecer não é esquecê-lo.
É assumir algo maior.
É aceitar uma tarefa —
Como Frodo aceitou a dele.
A biblioteca, pouco a pouco, já não era ocupada apenas por crianças. Jovens, adultos e até avós se aproximavam, puxando cadeiras, apoiando-se discretamente nas estantes, acomodando-se como quem não vinha para ouvir histórias, mas acabou ficando. Conversas cessaram. O espaço se encheu de uma atenção rara, compartilhada.
Havia ali quem escutasse pela primeira vez e quem escutasse pela segunda, pela terceira — talvez pela última.
Fábio, que até então montava as luzes do pinheiro no jardim, aproximou-se de Ricardo e pousou a mão em seu ombro. O olhar entre ambos dizia mais que palavras: haviam conseguido reunir todos ali.
— Confunde-se amadurecimento com cinismo — observou Ricardo, exercendo aquela habilidade rara de intervir sem interromper.
— Indeed, my friend — respondeu o senhor, sem precisar mover a cabeça. Acredito que o Papai Noel seja real no sentido mais importante.
Não como algo a ser provado, mas como uma presença que aponta algo maior: a generosidade que entrou no mundo na forma de uma criança. Talvez por isso o Natal seja o único momento do ano em que ainda nos permitimos acreditar em coisas impossíveis.
Ele então voltou o olhar para os mais jovens.
— Pensem no Um Anel. Quem o preservou não foram reis nem sábios, mas hobbits. Pequenos, comuns, sem pretensões de grandeza.
Frodo o carregou quando ninguém mais queria. O Natal é parecido com isso. O Papai Noel também. Não são anéis de poder, mas de luz.
O mundo — com suas guerras, fome, opressões e cansaço — tenta jogá-los no fogo do cinismo, ou deixá-los enferrujar no esquecimento.
No mundo real, os improváveis costumam estar onde vocês estão agora: na fronteira da infância e a vida adulta.
O senhor apagou o cachimbo e inclinou-se à frente. O silêncio que volta a tomar o recinto, não como vazio, mas como possibilidade.
— Então, o que me dizem? Vamos deixar o Natal perdido na caverna dos goblins... ou vamos ser os hobbits que o carregam por mais um trecho do caminho?
As crianças começam a cochichar entre si. Pedro arriscou, quase sem fôlego:
— O senhor é John Ronald Reuel...
— Tolkien?! — completou Letícia, os olhos arregalados.
O sorriso tranquilo do senhor foi resposta suficiente.
Por um instante, as histórias que haviam sido lidas, discutidas, imaginadas — e até vistas na tela — pareciam menos distantes. Não como algo explicado, mas como algo finalmente encontrado.
Foi então que algo interrompeu a atenção da sala. Uma das crianças percebeu primeiro. Depois outra. Em seguida, como se obedecessem a um mesmo impulso, os olhares começaram a se deslocar em direção à janela.
No jardim, agora imerso na penumbra, o pinheiro iluminado se destacava contra a escuridão. Acima dele, no céu que escurecia, surgia uma estrela alva e intensa — posicionada de modo quase impossível, exatamente sobre o Tannenbaum, como se ali tivesse sido colocada.
— Que estrela é aquela, papai? — perguntou Lara, com os belos olhos brilhando.
— É Canopus — respondeu Fábio. — A estrela-guia. A mesma que, segundo a tradição, conduziu os reis magos após o nascimento de Jesus.
O senhor levantou-se da cadeira com agilidade inesperada, retomando o balançar natural dos braços. Ajustou a camisa, a gravata frouxa, segurando o cachimbo entre os dedos longos, e passou a olhar, um a um, os adultos ali reunidos.
— Sir… madam… — dizia, quase em tom de saudação. — Deus entra no mundo caído para restituí-lo. O nascimento de Cristo não é uma fuga da realidade, mas sua redenção mais concreta.
Fez uma breve pausa.
— É a única eucatástrofe verdadeira: o final feliz que irrompe no coração da história humana. O improvável Deus-menino. A vida que vence a morte após a cruz.
Ele então sorriu, como quem retorna ao presente.
— Sim, Ricardo. O Natal talvez seja a última festa que ainda resiste ao cinismo moderno. Nela, ainda se permite que as crianças vejam o mundo como ele deveria ser:
— Cheio de luzes na escuridão... — apontou para o jardim;
— de biscoitos partilhados sem medida... — indicou os pratos vazios;
— de presentes sem cálculo…
Fez uma pausa, como se lembrasse de algum momento da infância.
— e de canções antigas que continuamos a cantar, mesmo sem saber exatamente por quê.
— A eucatástrofe, esse final feliz inesperado, é o espírito do Natal. O nascimento de Cristo é a eucatástrofe da história da humanidade, como narrada nas Escrituras. Um espírito que o mundo moderno nos permite viver apenas por algumas semanas breves.
Ele respirou fundo.
— E, no entanto, são essas tradições que sustentam o sentido. São esses ritos que ensinam às nossas crianças que há perdas e vitórias, que a vida não é apenas cálculo e eficiência. Não somos fracos ao preservá-los. Ao contrário: é assim que amadurecemos.
O senhor voltou a sentar-se, reacendeu o cachimbo com calma e retomou o chá, como se tivesse apenas terminado uma boa conversa.
Pouco a pouco, as crianças retornaram ao piano. As teclas responderam primeiro com timidez, depois com confiança, até que as canções de Natal novamente se espalharam pela biblioteca, fechando um círculo iniciado horas antes.
Os adultos permaneceram em silêncio. Alguns sorriram discretamente. Havia sorrisos contidos, olhares marejados. Outros apenas observavam, atentos aos menores, como quem reconhece algo que julgava distante demais para ser reencontrado.
Pedro cochichou para Letícia:
— Então… ele era mesmo o Tolkien?
Ela hesitou.
— Pode ser.
— E o Papai Noel? — perguntou Lara.
Helena sorriu.
— Talvez seja assim que ele aparece.
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