O Perfume
Ainda pode senti-lo?
Olho para o vaso de Rosas.
Algumas entreabertas,
outras em botão, tímidas.
Uma ou outra pétala caída, aqui e ali, perdida.
Mas não vejo as Rosas.
Inclinadas, como se suplicassem, delicadas:
“Sinta meu perfume.”
Um pedido urgente para prolongar a própria existência.
A súplica não é das flores.
É minha.
Não quero deixar de sentir.
Não posso deixar de existir.
Sem as Rosas.
Já não as vejo, porque sei que logo perecerão, podadas que foram.
Suas pétalas secarão e cairão ao redor do vaso, sobre a mesa, como se dissessem:
“Aqui houve Rosas.
E o seu perfume.”
O que vejo, em verdade, somos nós.
Não temos raízes fincadas na terra úmida.
Somos as Rosas.
Seríamos flores sem perfume?
Seríamos flores, sem o perfume?
Algumas entreabertas,
outras em botão,
todas com o caule cortado,
os dias contados,
suplicando:
“Sinta meu perfume.”
Nada mais me resta.
Meus braços pendem, flácidos, ao redor do leito.
Seríamos humanos sem consciência?
Seríamos humanos, sem a consciência?
Façamos dela o nosso perfume.
Ainda pode senti-lo?
Há tantas consciências quanto perfumes de flores.
Nós somos apenas Rosas.




