O supérfluo essencial
Música e Medicina. Um breve ensaio.
Só existe o silêncio imenso e amortalhado.
A impassível aquosa e límpida amplidão.
Goethe – Quietude no Oceano.
Ouso uma provocação. Arte é algo desnecessariamente fundamental. Aquilo que é futilmente essencial. Que transborda de uma sociedade fisiologicamente saudável.
Desnecessária e fútil, porque não há utilidade última para a arte. Se for útil, não é arte.
É a expressão daquilo que é belo, que é bom em nós. Que nos eleva. Se não for belo ou bom, e não nos elevar, não é arte. Não é música. É ruído. É barulho.
Também é sobre conexão entre seres humanos. E isso é importante em uma era digital, ou a de silício. É necessário ser sobre o contato, sobre a conexão, mais ou menos profunda, entre duas ou mais pessoas. Que lida com a emoção, claro, mas também com a lógica, no sentido de técnica.
Porque fazer arte é trabalhoso, muito trabalhoso. Requer esforço tanto de quem produz a arte, ou música no caso, quanto de quem a recebe, o ouvinte, a plateia. Para que haja emoção transmitida de um para o outro, para que haja prazer, há de ser trabalhoso, esforçado, porque a arte é delicada no sentido de produzi-la. Quantos ensaios e mais ensaios e anos de prática e tempo para se produzir as Bachianas de Villa-Lobos. Pense também não somente na execução, na regência, mas também na composição.
Esse trabalho também ocorre no ouvinte, no espectador, de forma diferente, que de expectador, afinal, nada tem. Ele participa ativamente, nunca passivamente, na produção do momento musical.
É uma troca, sempre uma conexão, de um lado para o outro e vice-versa.
Não confunda com necessidade de movimento, é um trabalho de percepção e interpretação daquela arte, a música que ele recebeu, mesmo que de modo inconsciente. Mesmo que ao apreciar uma música como Experience, de Ludovico Einaudi, com seus poucos acordes, mesmo que haja primeiramente a ativação de um centro emocional primitivo antes da própria consciência plena, a música irá evocar memórias, sentimentos e experiências do íntimo daquele indivíduo de um modo bastante complexo. Quem sabe até ajudar a elaborar algum conflito interno.
Portanto, contribui para o autoconhecimento, construindo. É, portanto, um prazer complexo, que demanda esforço, por isso edifica, diferente do prazer simples e mundano, imediato, das drogas. Vícios desmedidos, imediatos e fruidos sem esforços, que assim degeneram. E, no fim das contas, é também por isso que a música, embora possa ser uma paixão intensa, não nos torna escravos dela, pois não é o vício, é uma virtude.
Porém, não quer dizer que será reconhecida, porque as pessoas comumente confundem utilidade com importância.
Vincent van Gogh vendeu apenas uma obra em toda a sua vida, apesar dos esforços do seu irmão Theo.
E vejo a interface entre a música e a arte como um todo, com a medicina no sentido da conexão. Porque a medicina também só ocorre genuinamente com a profunda e essencial conexão entre dois seres humanos. Sem isso, tornar-se-ia tecnicismo frio e distante. O compromisso do médico com o enfermo é aliviar sempre, curar quando possível. Essa missão somente pode ser levada a cabo, necessariamente, se houver a conexão humana.
A cura ou alívio vem pela palavra, inicialmente pela palavra, não pelo remédio, ou não somente pelo remédio.
Não por acaso, a poesia e a música são irmãs gêmeas. E não é por ato fortuito que a palavra falada é o melhor meio de que dispomos, com variações de tonalidade, entonações, ritmos e timbres. Algumas das características podem ser encontradas na música, não é mesmo? E também não é coincidência, pois podemos transmitir emoção, segurança, propósito. Podemos acalentar ou confortar quando necessário.
Porque não se enganem, a verdade não está contida na mera informação. Não somos apenas receptáculos de dados.
Para que a ciência da medicina possa ser usada em benefício do paciente, aplicada em benefício do paciente, seus costumes, hábitos, crenças, histórias de vida, enfim, devem ser levados em consideração.
Não incomumente, uma crença religiosa ou não, que custou muito para o indivíduo, resiste às informações ou evidências científicas, torna-se, reiteradamente, mais forte à medida que é confrontada. Informação não é conhecimento. E conhecimento não é sabedoria.
Ou melhor, a informação pode ser verdadeira sem ser suficiente para transformar aquele que a recebe. Quando ela ameaça uma crença profundamente arraigada, o paciente pode não suportar a dor ou desconforto da mudança. Toda mudança gera desgaste.
Por isso, o médico não trata a doença, mas sim o doente, uma pessoa que possui uma história sobre sua própria doença.
De certa forma, por isso também que o sentir da música é profundamente único e depende da bagagem individual de memórias e experiências. Cada um, paradoxalmente, torna aquela mesma música feita sob medida para si. A obra, composta, executada e regida, é a mesma para todos, é compartilhada. Todavia, a experiência é singular.
Isso é inestimável.
Antes que me acusem, o inverso: a presença sem técnica é charlatanismo. Portanto, insuficiente e perigosa, tão disseminada, inclusive entre os ditos profissionais.
Nem sempre compreendemos o impacto que temos sobre a vida do outro. Nem sempre o médico saberá ou terá consciência da profunda influência de uma palavra que pode selar o destino de uma vida inteira.
O músico nem sempre saberá quem será transformado pela sua arte e de que maneira.
E assim também a sociedade, este complexo sistema de convivência de costumes e indivíduos, também pode não perceber imediatamente o valor daquilo que está se apresentando diante dela.
Não há retorno material útil imediato — para a sociedade — da arte que se apresenta pela orquestra. Mas devemos lembrar que as principais e mais significativas mudanças são graduais e, paradoxalmente, no caso da música, silenciosas.
Ambas, a música e a medicina, podem traduzir a dimensão mais elevada da humanidade.
A compaixão e amor pelo outro em sofrimento na medicina, e o reconhecimento compartilhado do sentimento na música, revelam a ponte entre essas duas, que só existe se houver empatia.
Fazer algo sobre o outro e com o outro.
Logo, o reconhecemos como nosso semelhante. E assim, não estamos mais sozinhos. Podemos dar significado à nossa vida.
A música possui valor estético. E ela, assim como a medicina, possui também valor humano. De certa forma, ambas possuem valores éticos, porque nos espelham.
Ambas reverberam, como escreveu Goethe, a impassível, aquosa e límpida amplidão do oceano, que na verdade somos nós mesmos.
Onde o supérfluo e o essencial se confundem, pois ambos nos são vitais. Ambos nos significam.
É mais do que técnica com humanidade. Superam-se o cuidado e a delicadeza.
É a expressão e a realização máxima da humanidade, da própria humanidade, por meio da técnica.
E, assim, tanto a medicina como a música são éticas, não porque transmitem uma moral, mas porque ambas revelam como nos relacionamos com o outro.
É sobre você e com você, porque você deixa de se tornar apenas objeto de ação e passa a ser reconhecido em sua individualidade e subjetividade.
Por isso, cada ouvinte acrescenta à música a sua própria biografia, como se dissesse:
“Revele-se”
Para, em seguida, sentir:
“Revele-me.”
Uma paixão que, apesar de intensa, não nos submete e domina.
Pelo contrário, nos torna mais livres, porque nos deixa mais compreensivos, reflexivos, criativos. Mais capazes de amar. Amplia-nos.
Assim nos revelamos.
A maneira como fazemos a música e a sentimos revela quem somos.
A maneira como cuidamos de um doente revela quem somos.
No fim, é tudo sobre conexão humana, profunda e extraordinariamente humana.
Tornamos habitável a distância eterna e intransponível entre duas consciências.
Transcendemos.




