O violinista acorda em sobressalto e nota um zumbido, persistente e claramente audível.
Nunca percebemos exatamente quando adormecemos. Será o mesmo quando morremos?
Ontem fora dormir pensando no dia de sua inexistência. Agora, um tinido o assusta. Logo pensa no pior, hipocondríaco que é.
Metódico, prepara-se sempre para o pior: para o infortúnio. Assim justifica aos outros e a si mesmo a rotina de um punhado de vitaminas, exercícios e exames.
Obceca-se pela perfeição dos seus acordes, assim como pela do seu corpo. Sua vida se resume à busca pela precisão. O talento lapidado. A beleza repousa na perfeição, acredita.
E agora um incômodo no ouvido, irritante como um violino desafinado.
Desgostoso, pressiona com os indicadores os... como os médicos chamam mesmo?... trágus, aquela pequena cartilagem junto ao conduto auditivo.
Silêncio total, exceto pelo ruído à esquerda, que não consegue desligar.
Quem sabe, se ficasse surdo, sem zumbido algum, fosse melhor — amargura-se.
Descobre-se do lençol cuidadosamente, para não acordar a esposa ao seu lado. Pode ouvir a respiração dela, ainda pesada. As semanas anteriores haviam sido complicadas e finalmente ela pudera descansar um pouco.
Permite-se sentar, apoiando-se na borda do colchão, sentindo o piso gelado sob seus pés. Respira fundo três vezes, como faz toda manhã. Isso o ajuda a se adaptar à vertigem que a idade lhe impõe sempre que se levanta da cama.
Afasta a cortina de tecido do quarto, alcançando-a com a ponta dos dedos. Apenas levemente faz surgir uma fenda para observar lá fora, sem iluminar demasiado o quarto.
Mesmo assim, a luz o ofusca através do vidro. As pupilas dos seus olhos castanhos contraem-se em reflexo, permitindo-lhe olhar para o amanhecer.
Não há nada melhor que o sol da manhã para ajustar os níveis de cortisol.
Além disso, sente-se mais vivo, pertencendo ao espetáculo do mundo.
Apreciava as nuvens iluminadas como dançarinas no palco alaranjado, mudando suas formas delicadas em suaves movimentos, em um ballet silencioso. Mesmo com os olhos fechados, sente-os iluminados, o tênue calor cobrindo seu rosto.
Aguarda alguns segundos.
Ao levantar as pálpebras, as bailarinas aéreas repousam em outro movimento, em uma coreografia exclusiva para quem ousa imaginar.
É sua maneira própria de perceber o mundo.
Um casal de sabiás chama-lhe a atenção logo abaixo do beiral, tão indiferentes a ele quanto as nuvens. A fêmea, menor, foge de sua linha de visão saltitando, logo seguida pelo parceiro atento, que acompanha seu sumiço.
A paisagem volta a ficar estática, ausentes os personagens animados. Não contam as bailarinas etéreas acima; delas ninguém, exceto ele, conhece a existência.
O pensamento lhe traz novamente o zumbido.
Ao canto dos sabiás acrescentara, para sempre, uma nota indesejada, desafinada.
De súbito, aqueles pássaros e seu canto o incomodam.
Sente raiva.
Nunca mais os escutará em sua plenitude.
O canto dos sabiás será a lembrança amarga do que fora capaz de ouvir e agora é, para sempre, defeituoso. Maculado pelo tinido insuportável. Lindo, até não ser mais, e acabar-se sem aviso.
Uma nota que não podia ser corrigida, não importava o quanto se esforçasse.
Um leve movimento no colchão o desperta dos seus pensamentos. Distraído, não havia percebido que sua esposa o fitava na penumbra, o rosto repousado de lado no travesseiro macio.
O violinista faz menção de fechar a cortina, mas a mulher, com as ruivas sobrancelhas, agora rarefeitas, apenas sorri.
Um sorriso doce e discreto, como as nuvens.
A luz da manhã acentua sua pele clara e suas sardas. Talvez por isso ele amasse tanto o amanhecer.
Com seus finos dedos, ela alisa o lençol onde o marido estivera há pouco, como se sentisse o calor ainda presente, como se procurasse por ele e ainda o quisesse, apesar de tudo pelo que enfrentavam.
Deita-se novamente, cobrindo-se com o lençol.
Aqueles profundos olhos verdes o fitam, e nada mais importa.
Leva suas mãos hábeis ao rosto delicado da esposa, sentindo o ar quente que sai do nariz perfeito dela. Brinca com as sardas da mulher, levando os dedos a acariciar seu rosto até onde antes havia seus longos cachos ruivos, aqueles que o haviam conquistado, e agora resta apenas a pele macia e corajosamente desnuda.
Não importa mais o zumbido, a raiva, as bailarinas, os sabiás. Nada mais importa enquanto ela ainda está ali.
E já sentia sua falta.
Aproxima-se lentamente. As testas se encontram, como sempre fazem em todos esses anos.
Fecha novamente os olhos e agora imagina o mesmo ballet, agora acompanhado pela música perfeita.
Não por ser precisamente afinada e executada, mas por lembrá-lo do dia em que a conheceu.
A moça de longos cachos ruivos assistia à apresentação na plateia e, ao vê-la de soslaio, ele, o virtuoso, errou uma nota.
Errou perfeitamente.
O acorde da sua vida.




