Um ser pequeno, de pés peludos, que saiu em uma aventura épica para destruir um anel, em um mundo fantástico, com elfos, anões e magia, enfrentando um inimigo poderoso. A Terra Média como uma fantasia épica, um mundo secundário de escala grandiosa, internamente coerente, em intersecção com o romance heroico, com foco em uma jornada de amizade e sacrifício.
Minha recordação da leitura na adolescência era de uma jornada fantástica, uma aventura sem igual. Já adulto, à época do lançamento da trilogia cinematográfica, a grandiosidade da Terra Média ganhava destaque, assim como a capacidade criativa de alguém que conseguira criar algo tão fantástico. Eu via essa grandiosidade como produto de um ato de invenção quase puro, mas recentemente descobri que estava errado.
O processo de criação de Tolkien não foi de invenção total, mas também foi influenciado por raízes biográficas e históricas de sua própria vida. Isso pode não ser novidade para seus fãs mais atentos, mas modificou minha visão sobre a obra.
O Condado não é somente um lugar idílico povoado de hobbits, mas também a memória do paraíso rural de sua infância. A desolação de Mordor não era somente um cenário de vilania, mas também evoca a memória concreta da destruição da guerra. A fragilidade do lar e a necessidade de um esforço quase mítico para mantê-lo podem refletir a experiência da perda precoce de seus pais. A Sociedade do Anel e sua camaradagem fazem lembrar sua própria experiência de vida com seus clubes de leitura, incluindo aqueles amigos que não voltaram da guerra e os que retornaram transformados para sempre. A pousada Pônei Saltitante evoca a atmosfera de convivência dos encontros literários que Tolkien mantinha com seus colegas. A história de amor de Beren e Lúthien, inspirada em sua relação com a esposa, atravessa obstáculos e se tornava mítica. E, permeando esse universo, sua visão católica da graça, da humildade e da redenção.
Tolkien rejeitava a interpretação de sua obra como alegoria direta de acontecimentos reais, mas o ponto que me chamou a atenção não é esse tipo de caracterização.
A história da Terra Média não foi puramente abstrata. Ele transformou experiências pessoais, traumas, amores e sua sólida formação intelectual e religiosa, reelaborando-os dentro de uma mitologia maior, com línguas, histórias e regras próprias.
Foi o conhecimento dessa intersecção entre a memória factual e a imaginação na obra de Tolkien que me arrebatou. Sua ímpar capacidade de relembrar lugares e experiências vividas, de retrabalhá-los mentalmente e de criar paisagens e atmosferas verossímeis em um mundo secundário coerente é fascinante.
Sua obra foi escrita durante mais de uma década, mas alimentava-se de memórias e sentimentos de toda a sua vida. Essa elaboração revela não apenas uma memória visual e emocional duradoura, mas a extraordinária capacidade de transformar essas experiências pela imaginação. Suas experiências reais não somente se encaixavam em seu mundo secundário, mas essas mesmas experiências moldavam a própria maneira como partes desse mundo eram imaginadas. Esse é o ponto que considero crucial.
Ele não preenchia seu mundo imaginário com a memória, utilizava-a em sua construção, transformando-a.
Ele ancorou sua obra no real e no humano. Por esse motivo, acredito que os leitores encontram nela algo que reconhecem, mesmo em um mundo fantástico, tão distante do seu: algo humano. É isso que confere, para muitos, credibilidade à Terra Média, pois não acreditam em sua existência, mas na autenticidade das experiências humanas que a habitam.
Tolkien não inventou lugares vazios para depois preenchê-los com suas memórias. Suas memórias permeavam, coloriam e densificavam sua obra, conferindo-lhe uma profundidade que ultrapassa a própria biografia do autor.
Talvez esteja aí uma das características dos clássicos: obras que atravessam gerações e que possuem a capacidade de, quando relidas pela mesma pessoa, transmitir significados diferentes nas mais diversas etapas da vida. Afinal, a obra é a mesma, mas aquele que a lê é diferente.
Se na adolescência eu me identificava com aquele hobbit, tão distante do mundo real, atualmente a vida me parece mais próxima da de um cavaleiro de Rohan — não por minhas habilidades sobre um cavalo, mas pela acumulação de experiências profundamente humanas. Antes, era um deslumbramento com a obra pela distância da realidade; hoje, o deslumbramento é pela proximidade com ela.
Nota do autor: a reflexão do presente ensaio surgiu após assistir o documentário “Em busca de Tolkien: Uma odisseia criativa” de Érico Borgo e Lais Almeida, que também tomou a forma de livro. Certamente vale a apreciação.




