As pedras desiguais da ladeira apresentavam em seus interstícios terra e vegetação. Caminhava praticamente roçando as casas. Baixas, simples, térreas, tinham uma porta e uma ou duas janelas. Eram implantadas no alinhamento da ladeira. Suas paredes caiadas contrastavam com o amarelo, o azul e o marrom das portas e janelas. Inequivocamente influência luso-açoriana.
Ajustei o meu boné. O sol do meio da tarde de verão não estava intenso. Eu o considerava aconchegante. As janelas abertas me permitiam ouvir um farfalhar vindo de dentro das casas e sentir o cheiro do café da tarde. A brisa fazia oscilar as cortinas de renda branca que se projetavam pelas janelas.
As rendas das cortinas possuíam diversas formas — únicas. Um mesmo fio assumia formas tão diferentes. Como a vida, pensei. Você não deixa de pensar como médico mesmo quando em férias.
A ladeira terminava a uns 40 metros acima, em um adro austero. Uma escadaria de pedra bruta levava à paróquia, Nossa Senhora da Lapa. À distância observava minha esposa, as três crianças e minha sogra. Esta última subia com mais dificuldade.
De uma casa logo à frente escutei um som:
Tac-tac.
Tac. Tac-tac-tac.
Procurei sua origem. Entre duas casas abria-se um pátio. Uma figueira imponente ao centro. Um café com algumas mesas de metal. Ao fundo, a origem do som.
Duas mulheres trabalhavam, uma na roca, outra nos bilros. Fiquei curioso. O movimento das mãos das rendeiras me parecia familiar. O cheiro do café foi determinante para eu adentrar o pátio. Sinalizei à minha esposa, nas escadarias da igreja, onde estaria. Ela assentiu.
Sentei-me em uma das cadeiras de metal. A mesa era coberta com uma toalha de renda, alva. Solicitei um café expresso.
A fiandeira possuía cabelos grisalhos repartidos ao meio, puxados para trás e presos em um coque baixo. Sobre eles, uma pequena coifa branca simples, bem ajustada à cabeça. Na borda da coifa, havia uma faixa estreita de renda artesanal.
Segurava em uma das mãos a fibra ainda informe; com a outra, colocava o fuso em rotação. As fibras de algodão se abraçavam. Entre os dedos, liberava mais ou menos matéria. O fio engrossava, afinava. Compreendi que era a rotação contínua do fuso que permitia a torção das fibras.
A mão determinava a espessura; a rotação dava a coesão.
Pensei em Cloto.
A fiandeira produzia um fio extraordinariamente comprido. Lembrou-me o DNA. Não pela matéria, mas pela continuidade. Uma longa sequência cuja ordem carregava informação.
Ao lado, a outra mulher trabalhava de maneira inteiramente diferente. Usava em sua cabeça um lenço escuro, dobrado triangularmente, cobrindo parcialmente a cabeça e amarrado de maneira simples.
Ela recebia os longos fios e os mantinha enrolados em pequenos corpos de madeira, os bilros. Aquilo me fez pensar nas histonas. Havia até uma curiosa ressonância etimológica com tecido.
A comparação não era perfeita, mas havia algo intuitivo nela. Um fio extraordinariamente comprido precisava ser organizado.
No núcleo de uma célula acontecia algo semelhante. O DNA se enrolava ao redor das histonas, formando unidades repetitivas, os nucleossomos. DNA e proteínas, assim organizados, constituíam a cromatina.
Eu parecia estar de volta aos bancos da faculdade. O café chegou. Saboroso. Perfeito. Voltei à minha imaginação.
A maneira como o longo fio era organizado me fazia pensar na cromatina. Eucromatina, heterocromatina. A primeira, mais aberta, deixava o DNA mais acessível à maquinaria que o lê. A segunda, mais compacta, tornava-o menos acessível.
Trechos expostos. Trechos escondidos. Diferentes possibilidades de leitura.
O som dos bilros era característico. Madeira batendo em madeira. A uma velocidade que tornava difícil distinguir cada movimento. Com movimentos precisos e rítmicos cruzava os fios, torcia os bilros, movimentava os alfinetes na almofada de renda. Orientava o desenho.
Determinava quanto seria tecido. Pensei em Láquesis.
Uma artesã da probabilidade. Ela não decidia o que estava escrito no fio. Decidia o que dele poderia ser lido.
Seus movimentos rápidos determinavam os nós e os adornos da renda. Um pequeno movimento de torção fazia os fios trocarem de posição. Afastava, aproximava, prendia o cruzamento com um alfinete na almofada e prosseguia.
As mãos quase nunca paravam.
Cheios e vazios. Regiões densas e abertas, nós, padrões, repetições.
Ela interrompeu o movimento. Afrouxou alguns fios. Refez três cruzamentos. Uma região antes cerrada se abriu. Outra desapareceu dentro da trama.
A mesma matéria. Outra possibilidade de leitura.
Expressão gênica, pensei.
Com os mesmos fios, produzia figuras distintas.
Rendas distintas tecidas a partir do mesmo fio.
Fígado. Cérebro. Músculo.
Ela retomou o movimento. Os pequenos corpos de madeira chocavam-se uns com os outros enquanto passavam de uma mão à outra.
Tac-tac. Tac. Tac-tac-tac.
Solicitei outro café expresso. A atendente possuía cabelos longos, grisalhos, quase brancos, muito lisos. Presos num coque baixo, muito firme, na altura da nuca, sem renda, sem fita. O coque era preso por um único grampo comprido, de metal escurecido.
Uma pequena mancha de café marcava a toalha. Em outra parte, o sol havia alterado a tonalidade das fibras.
O mundo interferia naquilo que fora tecido.
Pensei no ambiente. Tabaco, álcool, obesidade. Metabolismo. O fio podia permanecer o mesmo, enquanto mudava a maneira de utilizá-lo.
Epigenética.
Retornei minha atenção à rendeira. Tentei acompanhar um fio específico, impossível.
Finalmente consegui olhar para a peça inteira.
Inclinei-me para trás.
Uma tartaruga.
De perto, somente enxergamos fios, nós, espaços, cruzamentos. De longe, nada disso desaparece.
Mas surge a forma.
Fenótipo, pensei.
A tartaruga não estava em nenhum fio isoladamente. Tampouco em qualquer bilro. Surgia da relação entre eles.
— Vamos, amor.
A voz de minha esposa me chamava da rua.
Deixei o dinheiro na mesa.
Levantei-me. Olhei para as senhoras.
Pareciam irmãs.
Fui embora.




