A imagem mitológica de Sísifo é bastante reconhecida. Condenado a empurrar uma rocha montanha acima, que constantemente tombava montanha abaixo.
Esse castigo fora imposto por Zeus. Mas por quê?
Sísifo era muito inteligente, astuto. Quando Thanatos, a Morte, veio buscá-lo, acorrentou-a. Imagine o problema que gerou para Hades, o manda-chuva do submundo. Seu negócio não estava mais prosperando, parara de receber novas almas.
Até o barqueiro Caronte estava reclamando.
Hades foi a Zeus. Esse, reconhecendo que Sísifo havia desafiado a ordem divina e a própria morte, o condenou ao castigo eterno no Tártaro.
Foi visto por Ulisses, na Odisseia, como traduzido por Manuel Odorico Mendes:
Vi Sísifo, anelante e afadigado, em pés e mãos firmar-se, pedra ingente para um monte empurrando, e lá do cume galgado [...] rolar de novo o pertinaz penedo; ei-lo persiste, suor escorre e a testa se empoeira.
Ali aparece o esforço muscular, o suor, a pedra que sempre volta.
Tornou-se símbolo de um esforço perpétuo, contínuo e sem sentido.
Não vencemos e não venceremos a morte. Sabemos disso. A medicina sabe disso, mas nós a desafiamos.
Continuamente.
A face de Thanatos é encarada pela medicina. Não como o Sísifo clássico, mas como o Sísifo camusiano.
A inevitabilidade da morte não tem sentido, não tem explicação existencial; é, portanto uma das faces do absurdo. O médico escolhe racionalmente viver a revolta contra o absurdo. Conscientemente enfrenta a morte mesmo sabendo que é impossível vencê-la. Cuida de alguém cuja existência é finita.
Empurramos a rocha montanha acima, invariavelmente ela rola montanha abaixo.
De maneira lúcida, iniciamos o processo novamente. Racionalmente. E, principalmente, realizando-nos com esse trabalho.
Por ser inevitável, a morte vem. Na ausência de explicação, surge a tentação de apontar para a falta de sorte.
“Que falta de sorte!” Pode ser um escape fácil diante da ausência de explicação perante o absurdo. Ou uma maneira de evitar a pergunta incômoda: nosso esforço poderia ter sido maior, melhor?
Não devemos ceder espaço para a sorte, mesmo reconhecendo ser impossível evitar a contingência. O esforço deve ser contínuo para levar melhor a pedra montanha acima.
Melhor com mais estudo, mais dedicação, mais experiência. De maneira racional.
A sorte não pode servir como justificativa; reconhecer a contingência é admitir a impossibilidade do controle absoluto. É o reconhecimento de que não vencemos o absurdo, somente o encaramos.
E devemos encará-lo racionalmente.
Fazer o nosso melhor expande o campo do possível, reduzindo o espaço para a contingência.
O campo do possível é o quanto melhor empurramos a pedra.
A lucidez do ato impede a presunção do domínio absoluto sobre os resultados, mas também evita que a sorte seja responsabilizada pelo infortúnio de nosso paciente, ou por sua morte.
Enfrentamos como médicos a mortalidade inevitável, mas podemos transformar profundamente a vida que a antecede.
E, como dizia Camus, ‘é preciso imaginar Sísifo feliz’.
Seria Sísifo um médico?




