Quique sui memores alios fecere merendo:
omnibus his nivea cinguntur tempora vitta.
"E aqueles que, por seu merecimento, fizeram com que outros se lembrassem deles; para todos estes, as têmporas são cingidas por uma fita branca como a neve."
Eneida (Livro VI, linhas 664-665), do poeta romano Virgílio.A tinta preta do jornal fresco tingia o dedo indicador e o polegar.
“Um govêrno antipatriótico, levado pelos conselhos egoísticos de charlatães sem clínica, pretende fazer a Pátria retrogradar para além do regime colonial, para além do tempo das feitorias, transformando o Povo em um viveiro de cobaias”.
Dobra a página. O papel ainda úmido manchava a pele.
O busto de Pasteur observava em silêncio.
O perfume dos lírios era recente.
Pega um bombom. Café.
Uma voz ao fundo: a situação piorava.
— Sim.
Dobra o jornal com cuidado.
Leva a xícara aos lábios.
Para.
O crânio sobre a escrivaninha.
Ajustou o bigode.
— Memento mori.
O café ainda quente desce pela garganta.
“Projeto de vacinação obrigatória impugnado.”
“A verdade é que os vacinados e revacinados morrem de varíola.”
“A direção sanitária, além de tirânica, é ineptíssima.”
O gosto amargo permaneceu.
Vozes.
— As criancinhas estão perdendo seus dentes de leite!
— Torquemada dos ratos!
Não havia mais biblioteca.
A multidão avançava.
Crescia nas colunas dos jornais.
Nos comícios.
Nos discursos.
A polícia dispersava — tarde.
Vidros quebravam.
Uma delegacia tomada.
A cidade cedia.
A escola militar.
Mais de duzentos alunos. Armados.
Marcham.
Um general à frente.
O Catete.
O Exército responde.
Feridos.
No carro, pela praça Tiradentes, apenas o som:
gritos, insultos, enxovalhos.
Já não se movia sem escolta.
De volta à biblioteca.
O luar.
A estátua de Minerva — a ordem, o intelecto.
Ainda ali.
Ele permanece.
Recusa a fuga.
Um som.
Outro.
Pedradas.
Tiros.
A rua.
Mais próxima.
Vozes.
A vizinhança muda.
Senhoras saem.
Crianças.
Pressa.
Ele ainda permanece.
Escuta.
Mais um disparo.
Mais perto.
Cede.
Anui com a fuga.
Não por si.
Pelos outros.
O chapéu.
Tira-o.
Vira-o nas mãos.
No forro, escreve algo.
Coloca-o de volta.
Pelos fundos.
O muro.
A noite — o perigo atenuado.
Silêncio — não por paz.
Por medo.
A dor no tronco.
Retorna.
A mesa.
A luz.
O jantar.
Ainda ali.
Nightingale observa.
A mão repousa sobre o antebraço.
— Lembranças desagradáveis?
— Algumas.
João Manuel percebe, pousa os talheres.
— Tempos difíceis?
— Não pela doença, mas pelas pessoas. Enfrentei o alarido político e social.
Silêncio. Rompido pelo próprio Osvaldo.
— A ciência estava ali, clara. Mas não chegava.
— Não sabiam ouvir? — Nightingale.
— Não sabiam entender. A razão não atravessa o medo — João Manuel repousa o guardanapo.
Bandeira ergue os olhos.
— Medo da morte.
— Sempre — completa Bandeira.
— A morte é o fim dos milagres — sentencia Bandeira.
Ricardo mantém a xícara de café de Bandeira cheia.
— É a resposta ao vazio terapêutico e à falta de esperança — afirmava João Manuel como se o íntimo transparecesse, e emenda:
— E ninguém espera.
— Ninguém quer esperar – repete Osvaldo Cruz.
— Não pelo tempo da ciência — afirma Mann.
— E quando a ciência não responde? — Ricardo inicia o recolhimento de pratos e talheres.
— Resta um tango argentino — diz um Bandeira, reconhecendo-se.
Risos.
— Mas a ciência não some, ela se ausenta — Florence retoma o pensamento.
— E na ausência, alguém ocupa o lugar. Ar dos Alpes engarrafado. Passeios de balão. Charlatanismo. Não condeno, é a necessidade cara! ¬— João Manuel mantém o ambiente leve.
— Stevenson — Florence rememora. É a síntese. Sua busca pela cura não era metafórica.
— Isso! Tentou de tudo. João Manuel balançando o indicador para Florence, que continua:
— Europa, África, América, Oceania. Durou a vida inteira. Usou qualquer coisa que indicavam como boa.
— A poção química que separava Jekyll de Mr. Hyde era a busca da cura não só da saúde, mas da essência do ser — Bandeira capturara o pensamento.
— Quando não há resposta — João Manuel —
— qualquer resposta serve.
— E cresce — completa Osvaldo Cruz.
Ricardo termina de recolher os utensílios e os leva ao balcão. Fábio interrompe o manuseio de alguns cartões postais e peças filatélicas. Pega os pratos para levá-los à cozinha e avisa que em breve as sobremesas estariam prontas.
Koch olha para Osvaldo Cruz.
— A pressão não vem de um lugar só.
Cruz se aproxima.
— Do governo?
Nenhuma resposta.
O fogo crepita.
O vento passa pelos galhos do liquidâmbar.
— Vem de todos — diz enfim.
— De quem espera, de quem sofre, de quem já não aguenta.
— E do próprio cientista — completa Mann.
Koch assente.
— Eu sabia.
— A tuberculina não estava pronta.
— Mas você anunciou — diz João Manuel, fitando a expressão grave e concentrada de Koch.
Koch respira.
— Eu não consegui conter. Não havia mais como segurá-lo.
— As pessoas vieram em massa, procuravam cura.
— E você ainda estudava — diz Florence.
— Ainda precisava — responde.
— Mas o tempo não esperou — Mann.
— Nunca espera — Bandeira.
Koch passa a mão pelo rosto.
— Usei antes do tempo.
— E depois? — Ricardo.
— Continuaram usando.
— Por anos.
— Sem eficácia — João Manuel.
— Pior — diz Koch.
— Com risco.
Pela segunda vez, Koch parece derrotado. O peso nos ombros era demais.
— Perdi a credibilidade.
— A ciência sucumbiu ao lirismo dos loucos, dos bêbados, dos clowns de Shakespeare — Bandeira não era cientista, mas entendia como artista.
— E assim a ciência perde confiança — conclui Florence.
Ricardo quebra o peso do momento.
— Mas ainda assim ela serviu.
— Para o diagnóstico, para compreender a doença — completa João Manuel.
— Tarde — Koch monossilábico.
— Mas não inútil — Mann.
— A ciência tenta corrigir. Com método e tempo.
— Veio a vacina BCG — começa João Manuel.
— Cercada de desconfiança. Fora da França, ninguém confiava —
— A confiança já estava ferida — a tez clara de Florence destacava a expressão austera, mas com ar de gentileza.
— E então vem Lübeck — João Manuel
Florence, Koch e Osvaldo Cruz expressam desconhecimento.
— Horrível. Um escândalo — Mann arrepiado.
— Setenta e sete crianças. Um erro não da vacina, mas de sua execução — João Manuel cruza seu olhar com o de todos.
— É isso — diz Osvaldo Cruz.
— A ciência carrega vida, perdas e desconfiança.
— É preciso sustentá-la.
A dor da contratura recorrente retorna.
— Mesmo quando ninguém acredita.
Ricardo já distribuindo a prataria da sobremesa, instiga.
— E quando não acreditam?
Osvaldo Cruz levanta o olhar.
— Sustenta-se assim mesmo.
— E paga-se o preço.
Fábio, do balcão, fala pela primeira vez. Os olhares se voltam a ele.
— E o chapéu? O que escreveste?
Um silêncio breve. Os olhares retornam a Osvaldo Cruz, que não hesita.
— Morto a bem do povo.






