A postura ereta e elegante de Thomas Mann foi perdendo a vivacidade nos últimos minutos. Deste lugar, de trás do balcão, eu aprendera a observar como um clínico as expressões faciais e corporais. Koch apertava sua caneca. Nightingale expressava surpresa. Osvaldo Cruz parecia assustado.
O gramofone girava, em volume baixo, Paganini.
Esporadicamente, eu conseguia ouvir bem as conversas à mesa. Até aprimorei a capacidade de leitura labial. Mann, Bandeira e João Manuel discorriam sobre as duas grandes guerras. O primeiro tinha uma visão política ímpar, o segundo a sensibilidade do sofrimento destilado com a ironia frente aos detentores do poder, o terceiro descrevia o sofrimento dos soldados e as atrocidades nazistas.
A lama, o fedor, a doença e a morte iminente das trincheiras da Primeira Guerra e as tecnologias de produção de morte da Segunda Guerra transformaram o ambiente.
Por alguns minutos, o silêncio imperou naquela mesa.
Não pude me conter. Coloquei a marcha fúnebre para girar no gramofone. Chopin.
Ricardo estava junto ao balcão. Às vezes ele duvidava do meu gosto musical. Falou baixinho em tom jocoso:
— Reparei que seu repertório anda particularmente... tísico.
— A ironia é a inteligência polida — respondi.
Mann olhava para o dintel das Moiras. Koch estava cabisbaixo. Florence tomava seu chá — inglês of course. Oswaldo Cruz polia sua correntinha com o guardanapo de pano. Bandeira não parava de fumar.
Eu ouvia um som que não se originava do gramofone. Abafado, contínuo, parecia um atrito de madeira.
Percebi que Ricardo não escutava.
Fiquei quieto. Não estava disposto a convencê-lo de que também ouvia o silêncio.
O silêncio dos luminares se rompeu com Koch.
Metódico, precisava entender como se comportou sua maior realização científica:
— E a tuberculose em meio de tudo isso?
— Impassível — João Manuel contraiu os lábios e enrugou a testa, demonstrando constrangimento.
Nightingale, Koch e Osvaldo Cruz estavam incrédulos. As revelações das guerras e a impassividade da doença os pegaram de surpresa. O futuro não era tão brilhante como imaginavam.
Instigaram João Manuel a contar como as coisas se desenvolveram. No início as mãos se moviam lentamente. Discorreu sobre os testes cutâneos para diagnóstico — cuja tuberculina foi a precursora. Inclinando-se sobre a mesa, discorria sobre a portabilidade radiográfica da abreugrafia, permitindo o diagnóstico em massa. Desenhando no guardanapo: cirurgias. Pneumotórax. Ao chegar à segregação de adultos e crianças, já havia esquecido do café à sua frente. Quase o derrubou.
Se, no início, estavam curiosos, novamente a incredulidade estava evidente em seus olhos, pois percebiam que nada conduzia para a cura.
— Segregavam crianças das mães? Como deixavam isso acontecer? — Nightingale deixou a colher do chá cair no chão.
— A melhor maneira de lidar com isso é rir da sentença de morte — Bandeira jogava as cinzas do cigarro no cinzeiro.
Eu continuava escutando o atrito contínuo da madeira, circular.
Dali do balcão, transformei-os em meu objeto de estudo, minha Giverny. Transmitiam-me as sensações, interpretava-as. Como um impressionista.
Interessante é que, ao descrevê-las agora, já as modifico para o leitor. Pois como aprendi, a esfera da escrita já deforma o que vemos pela superfície lisa e curva.
Ainda não entendi como ali eles foram reunidos, mas compreendia que Mann representava o tempo, Bandeira a ironia, Cruz e Souza a injustiça, Koch o método, Nightingale o cuidado e Oswaldo Cruz a organização social. Conectando todos, estava João Manuel.
Todos enfrentaram a tísica, mas ela ficou impassível perante eles, destarte seus esforços argumentativos ou científicos.
No enfrentamento à doença tentou-se modificar a expressão gênica através da influência do ambiente, os princípios sanatoriais — comida boa, farta, exercícios e ar puro. Tudo muito limitado, darwinismo continuava ditando as regras.
Investiram poder à saúde pública, segregavam, separavam crianças das mães. Império do medo.
Nada modificava o acaso que sustentava a história natural da doença.
Restava tentar domesticá-lo. Era resultado do nosso desejo de ordem face à indiferença do universo. Camusiano.
“O único conhecimento válido e real é a consciência da finitude” — como estava escrito em seu postal. Sim, ele já havia passado por aqui.
Cada um ao seu modo falhava miseravelmente frente à tísica.
Eram os melhores, mas insuficientes.
Eu reconhecia neles que esse fracasso era involuntário.
E era sombrio.
Mas havia uma centelha ali. Não pareciam resignados a tratar um paciente sabendo que não vencerão em definitivo.
A ciência era o empreendimento humano deles, seu sentido para a existência.
A tísica era o absurdo. Eles, a revolta.




