O latejar da têmpora era a precisa recordação do esforço daquela tosse pútrida, produtiva. A fraqueza de seu agora esquálido, cálido e pálido corpo em nada parecia com seu auge físico em Desterro. Ao menos o vinho do Porto trazia boas lembranças dos costumes açorianos.
Sentiu o apoio confortador em seu ombro por uma das mãos de Ricardo, enquanto a outra lhe oferecia um copo de água.
— Sente-se melhor, Cruz e Sousa? Há algo que possamos ajudar?
Cruz e Sousa agradece com um leve aceno de cabeça, enquanto, com a mão direita, demonstrando certa hesitação e ainda algum esforço, repousa-a sobre a Antologia Poética. O gesto, como uma jura solene, é carregado de silêncio, então interrompido por uma voz trêmula:
através do véu da arte e o estudo
acreditei na igualdade, nunca concedida
carne, espírito, orgulho castigado
minha tez, nada alba, virou alvo
Cruz e Sousa respira lenta e profundamente, como que tentando evitar uma nova crise de tosse. Retira seu lenço branco do bolso e o aproxima da boca com gestos frágeis.
— O tempo reflexivo, caros Bandeira e Mann, é incompatível com a urgência clínica; disse João Manuel, que percebia a palidez da pele de Cruz e Sousa e a umidade febril.
Este, mesmo assim, sentado de lado na cadeira, com as pernas abertas em busca de apoio, mantinha o olhar cabisbaixo, fitando o chão, como quem se encontra à beira de um precipício, e continuava:
paredes, paredes, emparedado
egoísmo, estigma, ignorância, impotência
o labor insalubre, sem ar
este mundo que me condenou à peste branca
Os quatro, ali à volta de Cruz e Sousa, conseguiam escutar um assobio desagradável, oco, em crescendo e decrescendo ao ritmo da respiração daquele homem. Segue-se mais uma crise de tosse, profunda, gutural, horrível. Dessa vez, o lenço se colore de escarlate.
Cruz e Sousa, com suas mãos ainda mais trêmulas, dobra o lenço para esconder o sangue e limpa a boca. Não percebe que, mesmo assim, o canto dela ainda permanece sujo. Levanta a cabeça e fita os olhos de Mann e Bandeira, nada confortáveis com o que estavam vivenciando. Respira fundo e persiste:
corpo crivado de chagas
escrófulos imunes ao toque real
a pobreza não tem ar puro
A troca de olhares entre Mann e Bandeira demonstrava, sem a necessidade de palavras, o definhar e o sofrimento final de uma pessoa com tuberculose. Sofrimento que, em regra, era ocultado nos sanatórios, tanto visual como verbalmente.
Segue-se uma tosse menor, uma breve toalete traqueal. Sua aparência, agora menos pálida, revelava uma fácies mais serena, preenchida por conformidade. Somente pelo contato visual era possível perceber o agradecimento por aquele encontro. Enxuga a umidade da testa, ajeita a gravata, e transmite agora uma voz firme:
os sonhos velhos e vagos eram ilusões
o tempo acabou
os horrores de minha vida se tornaram belos em meus poemas
Olha para o livro e o segura junto ao corpo. Como que juntando forças, põe-se de pé e vai à busca do chapéu. Ricardo o acompanha, escutando algumas palavras, inaudíveis para os outros. Abre a porta, e, cordialmente, agradece a todos com um movimento do chapéu e sai da Taverna.
Os outros percebem que tinham algo relevante para dizer, mas, mesmo naquele ambiente, já não havia tempo — estavam esmagados. O silêncio era constrangido. João Manuel gostaria de poder ajudar mais. Mann e Bandeira, ali, não foram poupados.
Ainda atordoado, Ricardo relata aos outros que ele comentara que tinha um trem para pegar, e que este não o esperaria.
Comentários do autor:
Nas últimas semanas de vida, Cruz e Sousa partiu de trem em direção a Minas Gerais, em busca de tratamento para a tuberculose. Morreu pouco depois de chegar ao destino.
As escrófulas, forma ganglionar da tuberculose, foram historicamente associadas à crença de cura pelo “toque real”, prerrogativa atribuída a reis europeus desde a Idade Média.







