A súbita ausência de Cruz e Sousa os apanhara de surpresa, o que corroborava o alerta de João Manuel, segundo o qual a urgência clínica irremediavelmente esmaga o tempo. O silêncio que agora dominava a taverna não era de constrangimento, mas reflexivo.
Ele dimanava da imagem crua da hemoptise — da materialização abrupta da urgência — e do remorso de terem transmitido, ainda que sem intenção, uma ideia de insensibilidade.
Ricardo recolhera os copos e passava o pano na mesa onde antes conversavam. Rompendo o silêncio, murmurou: “Essa doença é antiga. O sangue naquele lenço não era apenas de Cruz e Sousa.”
João Manuel prolonga a reflexão sem elevar a voz. Aquela doença vinha de longe. Muito antes dos sanatórios, das fábricas e da própria ideia de romantização.
Lesões já marcavam esqueletos pré-históricos. Múmias egípcias guardavam seus vestígios.
Os gregos a chamaram de tísica.
Alexandrinos e romanos já descreviam a febre intermitente, sudorese, lassidão, alegria tola.
Atravessou séculos. Escapou às guerras. Sobreviveu ao apogeu e declínio de civilizações. Moldou mudanças comportamentais, econômicas e sociais.
Infiltrou-se nas artes: presente no Renascimento, avassaladora na Revolução Industrial.
Ricardo surgiu do balcão trazendo uma bandeja que anunciava uma nova rodada de Kulmbacher, vinho do Porto, weisswurst e pica-pau. Convidou-os a sentarem-se à mesa principal. Enquanto se acomodavam, recitou, quase como um mantra clínico:
— “Toda adenopatia persistente, todo derrame pleural inexplicado, toda massa pulmonar em paciente jovem ou emagrecido, toda febre prolongada… pense em tuberculose até provar o contrário.”
Olhou para João Manuel, que respondeu de imediato:
— A grande imitadora.
A observação de Ricardo soou para João Manuel como um eco de sua vida intelectual. Este fora um grande clínico, na mais clássica acepção do termo: aliava rigor técnico à perspicácia do exame físico, temperados por um espírito humanista.
O som da aldrava convoca o garçom a abrir a porta. Assim, entram na taverna um homem mais velho, de barba grisalha e óculos apoiados na ponta do nariz; depois, a uma mulher de vestido longo e touca branca de babados; por fim, um homem de bigode farto e olhar inquieto.
Eles penduram casacos, avental e chapéus e dirigiram-se à mesa principal. Manuel Bandeira, João Manuel e Thomas Mann levantam-se em deferência à presença da mulher: alta, magra, bem proporcionada. A tez clara era realçada pela touca; o sorriso, radiante e cativante, transmitia a impressão de plena naturalidade naquele ambiente masculino.
Inicialmente acomodando a mulher e depois os outros, Ricardo esclarece a ausência de um dos convidados: precisara pegar o trem, estava sofrendo por tuberculose. A simples nomeação da doença capturou a atenção dos recém-chegados.
Aproveitando a atenção de todos, continua: — Meus caros, se, do ponto de vista clínico, são múltiplas as formas de apresentação, não poderia ser diferente suas formas de impacto nas vidas das pessoas. A urgência de Cruz e Sousa reflete sua condição individual ou familiar, assim como a de muitos outros que romantizaram a tuberculose. Mas não devemos esquecer os silenciosos, pessoas comuns, que foram os responsáveis por empurrar o progresso à custa de milhões de vidas.
— Sem a romantização, a história dos milhões de mortos não ressoaria. Foi esse conjunto que forçou novas descobertas científicas e a aurora da saúde pública como algo relevante na vida coletiva — disse João Manuel.
O homem de bigodes fartos ajustou-se na cadeira; seus olhos, até então distantes, tornaram-se atentos. Em silêncio acompanhou a fala de Bandeira:
— Eu próprio cheguei a pensar que a fatalidade e as atribulações da vida de Cruz e Sousa pesavam mais do que a arte que ele produziu, chegando a enxergar ali deficiências. Hoje percebo que estava errado– expirou e relaxou os ombros em sinal de resignação. Também enfrentei o sofrimento de perto, dia após dia, por décadas. A ironia e o humor seco foram minha arma — minha arte — para não enlouquecer.
Coçando a barba cheia e grisalha, sentindo-se como um microscópio usado para observar um elefante, o homem alto, ajeitou seus óculos e falou com desdém:
— Arte. Quatsch! Isso sim é perda de tempo. Tuberculose é identificar o agente etiológico, buscar tratamento e eliminá-lo. Arte... — o ar de superioridade dominava-lhe a voz. — O que estou fazendo aqui, Herr Ricardo? — indagou, fitando diretamente o garçom.
— Bitte beruhigen Sie sich, Sr Robert Koch — respondeu Ricardo, firme, sem elevar a voz, recorrendo ao alemão aprendido na escola primária. Entregou-lhe uma caneca de Kulmbacher, indicando que bebesse e se acalmasse. Os demais integrantes se olharam, surpresos com a assertividade germânica.
A fisionomia serena da mulher transmitia autoridade tranquila. Ajeitou a sua touca e dirigiu seus olhos finos e expressivos para Koch: — Identificar o bacilo é essencial. Mas aprendi, entre soldados febris e corredores saturados, que o ar fresco, ventilação e cuidado humano salvam tanto quanto o microscópio.
— Cuidado humano... sentimentalismo. — Koch, áspero como uma grosa, levou a caneca aos lábios e bebeu profundamente.
Ricardo ia se manifestar novamente quando sentiu a mão longa e alva da mulher repousar sobre seu antebraço. — Perdoe-o, Srta Nightingale, Koch parece especialmente perturbado hoje.
— Fique tranquilo. Ela respondeu sem elevar a voz. A postura ereta, vitoriana, revelava liderança serena. Foram anos entre soldados na Guerra da Crimeia; nada ali lhe parecia excessivo.
Koch esperava contestação. Encontrou contenção.
Confiando os dados ao seu caderno e procurando acalmar o ambiente, Ricardo passava um a um anotando os pedidos para o jantar. Contente em integrar a mesa principal, João Manuel solicitara um bacalhau a provençal. Bandeira recusou o jantar. Pediu apenas um café. O senhor de bigodes fartos escolheu ovos pochê. Mann pediu, para si e para Koch, Königsberger Klopse. Nightingale optou por crème d’asperges e salmão pochê.
Comentários sobre as iguarias culinárias pareciam desanuviar o ambiente. João Manuel se dirige a Koch: — Caro Koch. Romantizar não é anestesiar, é metabolizar. A escolha do verbo não era casual.
— Continuo achando a arte perda de tempo. Koch insistia, mas agora de maneira mais cordial.
— A tuberculose não é perda de tempo; ela manipula o tempo – disse Thomas Mann, recostando-se na cadeira, mãos entrelaçadas sobre a barriga, transmitindo a segurança de falar sobre um assunto que dominava.
Seus olhos pousaram no baixo-relevo do dintel: três figuras femininas, dispensou atenção maior àquela com um cetro. Moveu seu bigode fino, posicionou o polegar sob o queixo e dedo indicador na lateral do nariz. Por alguns segundos, como se preparasse mentalmente, ou estivesse sendo hipnotizado, deixou a todos em suspense, até quando rompeu o silêncio, mantendo seus olhos fixos na porta:
— Entendemos a cronologia como algo que avança, acumula anos, se mede em duração. Confunde-se longevidade com plenitude — interrompe-se para mais um gole como um legítimo alemão, e continua: — Entretanto, a extensão do tempo não garante significado. Quantas vidas longas mal se realizam, e quantas breves se esgotam no campo do possível que lhes coube. E isso não quer dizer que exaltamos a brevidade, mas de asseverar que a medida da vida não se esgota no calendário.
Como se voltasse de um lapso temporal, ajusta sua gravata ao colarinho e percorre com seus olhos cinza-esverdeados todos os integrantes da mesa:
Foi justamente nesse intervalo — entre o tempo vivido e o tempo prometido — que a tuberculose encontrou terreno fértil para ser romantizada.






