A sensação de frio obriga Cruz e Sousa a ajeitar o chapéu e proteger as mãos por dentro do casaco. A penumbra da noite era aliviada por um poste de luz falha, em intermitência. O frio não era intenso, mas desconfortável.
Não precisava olhar para o relógio. Sabia que havia deixado a Taverna no tempo correto.
Embora próxima, já sentia o cansaço do corpo sofrido, o edifício iluminado da estação de trem parecia deserta. Uma voz estranha e fria, não reconhecida como interna ou externa, indaga:
— Dentro da vida que lhe coube, não da que lhe foi prometida, você a estendeu até onde podia?
Ele não sabia o porquê, mas sentia segurança na conversa, como na chama ideal que sustenta os mistérios. Mantendo o olhar fixo na porta de entrada da estação, falava, em tom baixo, os lábios quase imóveis: viera de origem modesta; a educação que tivera não lhe fora concedida, mas conquistada por esforço contínuo, paciente, disciplinado.
— O erro não estava no método — a voz era monótona, ausente de emoção.
Cruz e Souza subiu os cinco degraus do prédio principal da estação, tossiu um pouco e se dirigiu ao guichê de bilhetes. Pouco depois estava com o bilhete em mãos, mas, como que em um lapso temporal, não se recordava do momento exato, do valor, da forma de pagamento nem do rosto do funcionário. Sacudiu a cabeça, como querendo reorganizar o pensamento, e se dirigiu à plataforma.
Ao se dirigir a um dos bancos, murmurou de maneira grave que nada poderia ser mais platônico do que confundir seu esforço com a justiça externa.
— Veja onde você conseguiu agir apesar disso, e onde não. A voz sentenciava, apesar de forma vaga e fluida, era cristalina.
Sentou-se contra a madeira resistente do assento, levemente inclinado para trás. Sentiu-se amparado sobre a estrutura de ferro fundido, cujos arabescos simples proporcionavam àquele banco um contraste bonito entre a madeira quente e o metal frio.
Seis bancos estavam dispostos em série ao longo da plataforma, sob um telheiro metálico longo e estreito. Todos vazios; não havia sinal de ninguém nem de nada.
Ajeitou o casaco para obter mais conforto durante a espera. Continuou sua fala baixa:
a variável era o limite da cor da pele, repetido, padronizado,
e as limitações do tempo em que vivi.
— O cálculo era correto, exceto pela variável — a voz era fria.
O tilintar dos ferros no horizonte anunciava a chegada do trem. Cruz e Souza olhou para o relógio da estação, mas a penumbra da imagem não permitia a visualização das horas. Sentia os ombros pesados e uma cólica abdominal desconfortável. Aproveitando a solidão, falou em um tom um pouco mais firme e alto: sentira-se emparedado, pouco espaço, labor enclausurado, doença da esposa; ficara exposto à tuberculose, com a possibilidade de escolha se estreitando.
— Nem tudo o que doeu foi escolha. Nem tudo o que foi escolha precisou doer assim. — a voz não tinha direção.
O som agudo do frenar do trem se juntou à fumaça da locomotiva. Um estalo metálico anunciou a abertura das portas do trem. Cruz e Souza observou três figuras descerem.
A primeira, um homem mais velho, barba branca, óculos apoiados na ponta do nariz.
Depois, uma mulher de vestido longo e touca branca de babados.
Por fim, um homem de bigode farto e olhar inquieto.
Indiferentes ao entorno, seguiram à saída da estação.
— Adoeci rápido — disse, sentindo novamente uma cólica abdominal, seguida de uma tosse, que reforçou o escarlate do lenço, já sem a antiga forma alva, branca, clara.
— O que você fez com a vida que podia ter vivido?
— Fiz até onde o intervalo permitiu, e até onde suportei — disse, com uma expiração exasperada e de resignada paz.
Como que se lembrasse dos tempos de mocidade, quando recitava seus versos para a alta classe de Desterro, abriu o exemplar de sua Antologia Poética, escolheu “Assim Seja!” e recitou em plenos pulmões:
“Fecha os olhos e morre calmamente!
Morre sereno do dever cumprido!
Nem o mais leve, nem um só gemido
Traia, sequer, o teu sentir latente.
Morre com a alma leal, clarividente,
Da crença errando no vergel florido
E o pensamento pelos céus brandido
Como um gládio soberbo e refulgente.
Vai abrindo sacrário por sacrário
Do teu sonho no templo imaginário,
Na hora glacial da negra morte imensa.
Morre com o teu dever! Na alta confiança
De quem triunfou e sabe que descansa,
Desdenhando de toda a recompensa!”
Recuperou o fôlego; o silêncio agora só era rompido por um baixo assobio da locomotiva. Aguardou uma eventual manifestação daquela voz.
Nada.
— Todos a bordo! Próxima parada, Estação de Sítio, Minas Gerais.
Cruz e Sousa fechou o livro, segurou o bilhete e subiu no vagão sem pressa.
Com sua última escolha — sem revolta, com dignidade e lucidez — a vida que lhe coubera estava completa.






