O homem de bigodes fartos escutara em silêncio a reflexão de Thomas Mann sobre o intervalo de tempo que nos é concedido. Ele tinha convicção de que o seu seria menor que os 48 anos concedidos ao seu pai, e que o preencheria sem jamais ficar inativo.
Ajeitou-se na cadeira, buscando alívio para uma contratura recorrente nos músculos do tronco. Sua alimentação diária baseava-se em ovos; acreditava que ajudariam a preservar a função de seus rins, ciente de que vinha perdendo proteína pela urina. Enquanto alinhava seus bigodes, observava o alemão de ar austero que demonstrava certa irritabilidade durante a conversa, a qual ele julgava muito interessante.
Manteve-se quieto durante a contenda, a reserva e a sobriedade diante dos poderosos eram uma de suas marcas.
Analisando o alemão, pressentia que aqueles ombros curvados não eram fruto exclusivo dos anos de laboratório. Conhecia profundamente o trabalho de Koch em Berlim. Egresso do Instituto Pasteur, vivenciara de perto as contendas que opunham franceses e alemães no território da microbiologia.
— O que o aflige Koch? Estamos entre amigos, inteligências distintas, mas de coração aberto.
A ausência de ênfase nas palavras, sua suavidade, desarmava a feição séria que a fronte alta de Koch evidenciava.
— Caro Osvaldo Cruz, confesso estar com pouca paciência para essa romantização da doença.
Koch respeitava o brasileiro, não por delicadeza, mas por reconhecimento de sua fé inabalável na ciência. Sabia de sua passagem destacada pelo instituto francês. Admirava sua coragem estoica para liderar as campanhas que foram pilares da saúde pública no Brasil.
Ainda assim, a velha rivalidade franco-prussiana impunha-lhe certo tom irônico.
— Admira-me você. Enfrenta epidemias e ainda se deixa tocar por romantizações. Paris deixou-lhe marcas, meu caro. — Ele fechava e abria as mãos como um gesto de tensão.
Oswaldo Cruz olhou para os integrantes da mesa, balançando levemente a cabeça, erguendo os ombros e exibindo um sorriso que mal movia o largo bigode. Respondeu em tom leve, buscando aliviar o ambiente:
— Alguém consegue entender esse alemão?
O silêncio respondeu antes dele próprio completar:
— Nem eu!
Osvaldo Cruz ajeitou-se na cadeira, apoiando os braços sobre a mesa e deixando entrever, involuntariamente, uma pulseira de ouro da qual pendia uma pequena medalha, no pulso esquerdo. Com um movimento sutil, levantou o braço esquerdo e recolheu a pulseira com a mão direita, fazendo-a desaparecer sob a manga. Pediu a Ricardo uma taça de vinho branco francês.
Sabia que Koch era circunspecto, quase pedante. Colocava o trabalho acima de tudo — amigos e família ficavam à margem. Reconhecia, contudo, que talvez fosse aquele mesmo conjunto de traços que o levara a identificar, em 1882, o Santo Graal dos agentes etiológicos: o Mycobacterium tuberculosis.
— Nós, médicos, caro Koch, podemos perseguir obstinadamente nossos objetivos; admirar a arte não invalida esse compromisso. Sua obstinação é uma escolha.
Koch respira fundo. Ainda sob leve ironia, voltou-se para Florence Nightingale e insinuou que ela, sim, compreendia de sentimentalismo.
Nightingale não tomou aquilo como elogio. Limitou-se a ouvir.
— Reitero que algo deve estar a afligi-lo — continuou Cruz, em tom suave.
Esse comportamento é contraintuitivo para alguém tão meticuloso, tão avesso a tirar conclusões precipitadas. O senhor está se precipitando ao supor que, ao discutirmos a romantização da doença, nós diminuímos. — Osvaldo Cruz tomou um gole do vinho servido por Ricardo e prosseguiu:
— Aliás, não é apenas nessa área que o senhor se precipitou, certo?
Pela primeira vez o olhar de Osvaldo Cruz fuzilou o gênio alemão. A rivalidade franco-prussiana, antes latente, agora pulsava à flor da pele.
O baluarte alemão acusou o golpe. O semblante revelava surpresa: não esperava ser confrontado.
Não permitindo tempo para reação, Osvaldo Cruz continuou:
— O senhor, Koch, foi decisivo ao consolidar o rigor científico como pilar da prática médica. Sempre foi meticuloso, reconheço isso. Ainda assim, o anúncio público da tuberculina como promessa terapêutica não se deu antes do tempo? O que mudou naquela ocasião?
O silêncio foi a resposta do alemão. Sentiu-se acuado.
Inteligência aguda e disciplina militar fundiam-se em Florence quando desferiu, com precisão, seu primeiro golpe:
— Sua genialidade confunde sentimentalismo com fraqueza, Mr. Koch.
Ele voltou-se para Florence e, recebeu o segundo golpe:
— Seu primeiro microscópio. Sua separação ruidosa. Sentimentos. Romance...
Esse foi mais vigoroso.
A fortaleza, se antes ameaçadora, agora desmoronara.
Em vez de reagir com contundência, Koch resignou-se. Surpreendeu a todos.
Os olhos fixos de Koch no fogo da lareira revelavam que seus pensamentos já não estavam na taverna, mas em algum lugar mais distante. Após um átimo, falou em voz grave:
— Minha primeira esposa me presenteou com o primeiro microscópio. Foi ela que abriu minha visão — quem mudou a minha vida. Depois vieram a separação, o segundo casamento... um escândalo público.
O metal teutônico parecia derreter sob o calor do próprio sentimentalismo que sempre negara.
— A divulgação prematura da tuberculina...
Juntou as mãos sobre a mesa e inclinou a cabeça em negação.
— Bem... Não há o que dizer.
O silêncio que agora reinava era de respeito. Todos reconheceram que aqueles ombros curvados carregavam um fardo pesado demais — mesmo para Koch.
Ricardo estava admirado com o que presenciava. Juntos ao balcão, comentou com Fábio que a tuberculose fora capaz de lhe tirar um integrante da mesa e agora levava outro à lona.
— Ao menos não foi como da outra vez, quando um deles desmaiou — riu Fábio, acrescentando que não estava de plantão, enquanto enxugava os copos de cristal de Murano.
Enquanto conversavam, o homem de capuz cor de areia, sentado no canto da Taverna e que acompanhara tudo em silêncio, dirigiu-se ao balcão. Sua presença era familiar. Fábio, num movimento fortuito, derrubou um dos copos. O homem encapuzado ergueu discretamente a mão; o copo suspendeu-se no ar antes de tocar o chão. O objeto flutuou e pousou lentamente sobre o balcão. Ambos ficaram maravilhados — mas não surpresos.
O homem abaixou o capuz, revelando a tez bronzeada, marcada por envelhecimento precoce. A barba grisalha realçava seus olhos azuis de vigilância e fadiga.
— A Força continua particularmente forte por aqui. Essa doença é uma batalha que atravessa mais do que corpos.
Recolocou o capuz, comentou que o deserto ainda o aguardava e deixou a Taverna com agilidade inesperada.
Fábio dirige-se à cozinha e começa a trazer as iguarias para o jantar. Ricardo as posiciona gentilmente em sua bandeja e se direciona à mesa principal. A presença de uma única mulher ensejava uma exceção prevista nas regras, as damas eram privilegiadas. Destarte, aspargos e salmão foram os primeiros servidos, seguidos do restante em sentido horário.
Os anfitriões sabiam que uma refeição posta sempre eleva a qualidade do debate. A genialidade demanda energia. Em um tempo exato, Ricardo já havia anunciado solenemente a escolha gastronômica e o nome de cada um dos convidados. A solenidade era necessária.
Sendo o único que propriamente não comia, Bandeira passou a observar os integrantes enquanto saboreava seu café. Hesitou em falar, não queria criar nenhum atrito, mas não se conteve:
— Triste essa sua chuva de resignação, Koch, mas não vejo sentido nisso.
Koch reagiu com um olhar furtivo de baixo para cima, mas somente isso. Saboreava a primeira garfada do molho cremoso branco com alcaparras.
— Enquanto vocês iniciam seus respectivos jantares, criarei meu tempo narrativo. Disse Bandeira piscando para Mann.
— Sou o único nessa mesa que sentiu a doença no próprio corpo. Falou enquanto tragava um generoso gole de café e levantou-se.
Dirigiu-se para trás de Thomas Mann, repousou a mão sobre seu ombro e disse que ele soube interpretar e descrever a manipulação que a doença causava no tempo: para alguns, estendia; para outros, encurtava; mas, para todos, modificava.
Ricardo circulava a mesa com sua bandeja com as bebidas e água. Bandeira continuava:
— Achei que iria morrer mais do que completamente, que a morte, como fim de todos os milagres, me arrebataria cedo. Os jovens que tinham seu tempo esmagado pela doença eram forçados a uma reflexão mais precoce sobre a finitude.
Bandeira pegou uma taça de água da bandeja de Ricardo, seguiu para o lado de Florence e repousou o objeto à frente do prato da enfermeira. Ela agradeceu com um discreto aceno.
— E o jovem, com seu eros — desejo, amor trágico — pulsátil canalizava o sentimento de inutilidade para a arte, seja a poesia, romance, música ou pintura.
Fitou João Manuel, que saboreava o salgado característico do bacalhau com a leveza do molho provençal. Virou seu olhar para Koch, complementando:
— Como não se sentir inútil, Koch? A indesejada das gentes estava materializada para essas pessoas.
Bandeira estava em oposição a Koch. Repousou sua mão no ombro direito de Florence, que não desaprova o tocar. A face de Bandeira revelava que estava compenetrado em seu raciocínio:
— Essa moléstia não é característica de uma civilização, de uma cultura ou de uma geração. Na Inglaterra da Mademoiselle Nightingale, Charlotte Bronté havia perdido o irmão e as quatro irmãs para a tuberculose — Como isso não poderia impactar sua vida? Seu romance Jane Eyre carregava isso.
— A Britânia ainda nos brindou com a descrição universal da doença e o impacto da Revolução Industrial, nos contos de Charles Dickens. A doença como certa e inescapável. — João Manuel interveio.
— Levei muitas das novelas de Dickens aos hospitais de campanha, para que os soldados tivessem um alimento para a alma — acrescentou Florence.
— Foi Dickens um dos pioneiros a apontar as mazelas da Revolução Industrial. — complementou Osvaldo Cruz.
Bandeira se deslocou para trás de Osvaldo Cruz:
— Podemos continuar com outros conterrâneos, meu caro. Nos sertões de Euclides da Cunha, a tísica não era metáfora, era a miséria dos corpos consumidos pela poeira e pela febre. E Castro Alves — tenho muito respeito por esse homem — que declamava cônscio que a morte estava instalada no próprio peito.
Osvaldo Cruz parecia satisfeito com sua refeição comedida. Nightingale estava impressionada com a umidade perfeita de seu salmão. João Manuel pressentiu que deveria guiar uma mudança da linha de raciocínio.
— E a transformação da dor tísica, em forma, Bandeira?
Bandeira fitou João Manuel com sua expressão pensativa e olhar irônico, entendendo o objetivo do luso-brasileiro, se deslocou até ele. O repetir do toque no ombro parecia ser uma maneira de demonstrar respeito, enquanto falava:
— A febre da mãe e da irmã de Edvard Munch pintou suas telas nórdicas. Enquanto velava sua noiva, o poeta Novalis escrevia seus poemas tentando vencer a morte pela linguagem.
— Versos que atravessaram para a música de Schubert — complementou um Mann que demonstrava atenção, enquanto deliciava-se com as almôndegas bem temperadas.
Olhando para Koch, Bandeira interrogou:
—Como poderiam esquecer de Goethe? Aquele que esculpiu a elevação da língua alemã sob o jugo da doença na juventude.
— É mais fácil tentar achar quem não tenha tido ou sofrido com a doença nessa época — o garçom interveio.
Recebeu acenos concordantes com a cabeça de todos.
Bandeira acendeu um cigarro. Se afastou um pouco da mesa onde comiam, sentando-se nas banquetas ao lado do balcão do gerente. Depois de duas baforadas, continuou:
— E digo mais, não confundam a romantização com esse período em que a tuberculose era vista como uma doença refinadora da alma. A tísica atravessou gerações, construiu um fenômeno cultural duradouro. Romantizar é arte.
Percebendo que Koch ainda portava um olhar de desconfiança, Bandeira apontou a mão direita com o cigarro aceso para João Manoel, e interrogou:
— Nosso médico humanista, conhecedor do futuro mais do que todos nós, qual foi o maior legado de Koch?
— Seus postulados, sem sombra de dúvida. O organismo deve ser achado em cada lesão; deve ser capaz de ser cultivado fora do organismo por diversas gerações; essa cultura deve ser capaz de reproduzir a doença em animais de laboratório — afirmou João Manuel como em um reflexo medular.
— E por que isso é importante?
— Porque determinou que a ciência médica não era mais resultado somente da inspiração ou do acaso. Ele arquitetou o método científico. — disse João Manuel.
— É isso, Koch? Você arquitetou esse método?
Koch anuiu com a cabeça, que agora não estava mais baixa. Vinha acompanhando a discussão.
— Arquiteto, forma! Chegamos ao ponto. — Bandeira expressava realização, enquanto continuava:
— Não pude criar-me arquiteto, que era desejo de meu pai. Um poeta menor fiquei, me perdoai! — Bandeira adotava quase um tom de clamor. Esses postulados são uma obra, uma forma, a forma é literalmente a definição de arte, Koch.
Koch levanta as sobrancelhas. Osvaldo Cruz pediu a palavra.
— Em Berlim, quando anunciou sua descoberta, não o fez para glória pessoal. Falou pelo interesse da saúde pública.
— Era necessário — respondeu Koch.
— Não era metodologicamente necessário. Era moralmente necessário — acrescentou Nightingale.
Bandeira continua fumando enquanto os outros jantavam. Agora estava convencido:
— Um poeta no meio de cientistas, quanta ironia! Delicio-me com isso! Então nosso teutão não trabalha somente por verdade, trabalha por humanidade!
Fitando Koch, asseverou:
— Essa sua dor Koch, só enobrece. A dor é grande e pura. Se o amor lhe causa dor, curta esse mal que o crucia, assim ela se tornará sua alegria, sua ventura.
Após um momento e a última baforada de seu cigarro, Bandeira reflete:
— Koch é humano e cientista. Humanidade exige imaginação.
E retorna para seu lugar à mesa. A reflexão de Bandeira fez com que Ricardo consultasse animadamente seu caderno de anotações.
— Aqui! Einstein já disse que a ciência exige criatividade de pensamento, lembrando que era artista o suficiente para recorrer à sua imaginação à vontade — emendou Ricardo.
Mann, voltou-se para Koch e Nightingale, acrescentando:
— Einstein foi meu companheiro de exílio, foi um físico posterior ao seu tempo. Ele dobou o tempo sobre si.
Enquanto testava a textura da gema de seus ovos pochê, Oswaldo Cruz manifesta-se:
— És um artista, Koch. Seus ombros não carregam uma falha técnica; carregam excesso de humanidade sob pressão.
— As contradições podem reconciliar-se, somente o meio-termo e a mediocridade são irreconciliáveis — Mann imprimia um timbre baixo, enquanto degustava sua cerveja.
Koch ajeita seus óculos e direciona sua cabeça para Nightingale: — Eu sempre acreditei que a doença não deveria ser romantizada. Após uma pausa breve, fixou seus olhos nos dela.
— Desculpem-me pela grosseria.
Florence anuiu com um sorriso afável. Koch então retorna o olhar para Bandeira, sua postura já era novamente altiva:
— Talvez eu tenha esquecido que o esforço para compreendê-la também é uma criação.
As taças foram novamente preenchidas.
O vinho girava nas taças.
O jantar seguiu.






