Florence não se sentiu intimidada com a grosseria de Koch; desde sua adolescência, frequentava círculos masculinos, e seu pai permitia que acompanhasse discussões políticas e financeiras em sua casa na Inglaterra. Considerou de bom grado o pedido de desculpas.
Sentia-se cansada, mas estava satisfeita, pois ao menos hoje seus enjôos frequentes não estavam presentes e, portanto, estava aproveitando o delicioso sabor de seu prato de salmão.
Florence pousou a taça com cuidado. O leve tremor em suas mãos não passou despercebido. Era o mesmo que a acompanhava ao longo dos anos, seja nos relatórios intermináveis, nos cálculos meticulosos que poucos compreendiam, seja nas rondas noturnas nas enfermarias com suas lamparinas. Noites mal dormidas, mas recompensadoras.
— Turquia... — repetiu, como se a palavra ainda carregasse um odor próprio. Aquilo não era um hospital; era um depósito lotado de soldados a se perder de vista. Feridos em camas, inúmeros ao chão, entre pulgas, percevejos e piolhos. Um odor nauseante.
João Manuel inclinou-se levemente, como quem reconhece o início de um fio que precisa ser seguido até o fim.
— Scutari — completou ele.
Florence assentiu.
— Morriam mais depois de internados do que no campo de batalha. Não por ferimentos. Por infecção, por sujeira, por abandono. — pausou — O esgoto corria ao lado dos leitos. A água era imprópria. O ar… — hesitou — eu o chamava de impuro.
Koch, agora mais contido, não interrompeu. Continuava a saborear suas almôndegas, parecia faminto.
— E então limpamos — continuou ela. — Ventilação. Água limpa. Drenagem. Organização.
João Manuel sorriu discretamente.
— E números.
Florence o olhou com reconhecimento.
— Sim. Números. Eu não confiava apenas no que via. Eu precisava provar. Registrar. Comparar. Reduzir a experiência ao que pudesse ser entendido por aqueles que nunca pisaram ali.
Levantou seu guardanapo como se fosse um de seus gráficos.
— A mortalidade caiu. Por método, por obstinação.
Koch reconhecia ali valor — método — e então interveio, após um gole de sua Kulmbacher.
— Seu método salvou vidas antes que compreendêssemos plenamente o porquê.
Florence voltou-se a ele.
— E o seu explicou aquilo que eu apenas intuía.
— Sim, sua teoria miasmática inicial era… imprecisa — continuou Koch, mantendo a polidez. Doenças não são causadas por ‘odor’, mas por organismos específicos.
— A descoberta dos germes mudou meu entendimento mas, após sua descoberta do vibrião da cólera, revisei os princípios de minhas ideias.
Foi João Manuel quem o atravessou:
— Aqui está o ponto — disse, olhando para todos. — Antes de Koch, tínhamos eficácia sem etiologia. Depois de Koch, passamos a ter etiologia sem terapêutica.
Mann apoiou o queixo na mão.
— E é nesse intervalo que nascem os sanatórios.
Osvaldo Cruz, até agora em silêncio, falou enquanto brinca com o resto da gema em seu prato.
— É nesse momento que algo maior acontece. O combate da tísica por meio das causas determinantes. Levantou os olhos para Koch.
— Deste o nome ao invisível; isolou-o, determinou-o. Sabíamos o que combater.
Voltou os olhos para Florence.
— Sistematizaste as causas predisponentes. Arejamento, iluminação, aglomeração de pessoas na habitação, deficiência da alimentação, esgotamento físico e moral.
Fez uma pausa breve enquanto olhava para todos. Comovo-me diante dessas grandes vidas humanas.
Levantou as mãos, balançou a direita – causa determinante olhando para Koch. Balançou a esquerda, expondo sua corrente de ouro — causa predisponente olhando para Florence. Juntou as mãos firmemente.
— A saúde pública moderna nasce aqui. Quando a intervenção ambiental encontra a explicação microbiológica.
Florence inclinou a cabeça.
— Então meus “ares impuros” ganharam forma.
— E meus bacilos ganharam contexto — completou Koch.
João Manuel então retomou o fio:
— E os sanatórios… — disse — tornam-se um elo dessa transição. Inicialmente higienistas na forma; posteriormente, microbiológicos na consciência.
Mann completou, quase em tom literário, olhando para o exemplar da Montanha Mágica que permanecia sobre a mesa:
— Refúgios de ar puro… que se tornam espaços de contenção.
— Homo sanatorialis — disse Bandeira — não apenas tratado, mas separado. Passei a viver... esperando. Entre o desalento e o desencanto.
— Não existia recurso farmacológico específico. Nem antes, nem por muito tempo depois de Koch, depois de Florence, depois de Osvaldo Cruz. Foi assim que a tísica e os sanatórios se transformaram em um refúgio climatérico, utópico e de controle social — continuava João Manuel.
Bandeira falava, exalando essa vivência íntima.
— E o corpo deixava de ser apenas enfermo. Passa a ser regulado. Horários, repouso, ar, alimentação. Não tratamos a doença. Tratamos o modo de viver. Mas nossa mente queria fugir, ir embora para Passárgada.
Osvaldo Cruz assentiu.
— O que começou como cuidado ambiental transforma-se em política de saúde. E, inevitavelmente, em controle social.
João Manuel asseverou:
— E como controle social o modelo sanatorial se espalhou pelo mundo. Nas montanhas, no litoral, nas cidades ou no campo. Cada local adaptou seus princípios a seus costumes e crenças. Mas os fundamentos proporcionados por Koch e Florence estavam em todos eles.
E, pela primeira vez naquela noite, não havia contenda; apenas a percepção desconfortável de que nenhum deles, isoladamente, teria sido suficiente.
Suficiente... a que custo?









