A caixa de madeira repousava sobre uma prateleira do balcão principal da taverna. Pesada. Densa. Em sua tampa lia-se:
“Verba volant, scripta manent.”
No interior acolchoado, três canetas-tinteiro e colunas de postais organizados para fácil manuseio.
Não era um arquivo histórico comum. A caixa guardava fragmentos de perguntas essenciais surgidas nos banquetes da Taverna.
Fábio a havia recebido do gerente anterior. Toda vez que a abria, havia a certeza da degranulação mastocitária em sua mucosa nasal, seguida de um ou mais espirros, coriza aquosa e prurido. O incômodo não impedia seu manuseio frequente.
“Morto a bem do povo”.
A inscrição no chapéu de Osvaldo Cruz foi um convite à análise.
Interpretou-a como uma mistura de altruísmo, convicção e dever.
Sabia que Osvaldo Cruz era um homem da ciência. Fora o primeiro brasileiro a ser recebido no Instituto Pasteur — e muito bem recebido. Dom Pedro II havia sido importante financiador da construção.
Não duvidava de seu rigor científico.
Todavia identificou ali um risco de cegueira potencial, um caminho para intolerância.
Precisava aprofundar essa reflexão.
Com agilidade e precisão cirúrgica, abriu a caixa de postais e pegou um que trazia uma imagem iconográfica feminina, loira, de cabelos soltos e selvagens, de olhos brilhantes e ardentes. Agarrada a uma estátua de Atena, possuía uma fácies de desespero. No dorso do cartão amarelado — revelando o tempo já inscrito nele — lia-se:
Há quem morra pela verdade.
E há quem mate acreditando tê-la encontrado.
Colocou o postal junto à bandeja de sobremesas. Orientou Ricardo a entregá-lo a Osvaldo Cruz.
E espirrou, espirrou.
Os convidados estavam à vontade. A troca de ideias fluía livremente.
— Zuppa Inglese e Zuccotto para Mademoiselle Nightingale.
— Zabaglione para Herr Mann.
— Papos de Anjo para Sr Bandeira.
As três, acompanhadas por delicadas colheres de prata. Sobremesas de colher por excelência.
— Papos de Anjo! Sabia que valeria a pena não jantar. Aproveitou para acender mais um cigarro.
Osvaldo Cruz recebeu o postal. Seus olhos repousaram inicialmente na iconografia e depois em seu escrito. Olhou para Ricardo e então ergueu os olhos em direção ao gerente.
Calmamente, respondeu:
— Estava ao lado da verdade científica. As evidências eram de que a vacina era benéfica à população, estava convicto de que agia em nome do dever coletivo.
Fábio espirrou. Limpou seu nariz com um lenço descartável, e, com voz nasalada, questionou:
— Entendo… mas — hesitação de respeito — e se for uma espécie de nostalgia autoritária da verdade única?
A bomba intelectual estava armada.
— De jeito nenhum — respondeu Osvaldo Cruz, de maneira enfática.
— Isso é campo da evidência, do método, da verificabilidade — apoiou Koch.
Eram dois cientistas — dos grandes — cerrando fileiras.
Ambos cruzaram os braços. Era uma linguagem corporal de resistência.
João Manuel observava. A longa carreira na cátedra moldara sua capacidade não de servir como guia, mas como alerta — um farol. Entendera que a questão ali não era científica. Aproveitou o momento:
— Então por que a população o observava como ameaça, Oswaldo?
Cruz ajeitou-se na cadeira enquanto pensava. Não procurando uma posição de retórica agressiva — a calma era uma de suas marcas — mas para aguardar a sua sobremesa.
— Eu possuía a convicção, mas não controlava o imaginário social.
A cor viva do licor que ensopava o pão de ló de sua sobremesa era um convite para a apreciação silenciosa. Mas Nightingale entendeu que o momento não permitia contenção:
— Não podemos cair na tentação de caricaturar a população. Eles têm medo, não são compreendidos, estão ansiosos.
Koch olhava por sobre todos, em direção ao balcão. Sua atitude pedante já havia ficado no passado. Comentou, revelando certo desconforto:
— Meu erro foi não ter conseguido sustentar a verdade como Osvaldo. O admiro por isso.
Cruz agradeceu a gentileza com um leve balançar da cabeça.
Ambos se entenderam com o olhar e repetiram quase em uníssono:
— Também quero minha sobremesa.
Risos tomaram conta da mesa.
Ao fundo, escutavam-se sons de piano vindos da biblioteca. Aqui e ali, alguma algazarra infantil.
Bandeira bate seu cigarro no cinzeiro. As cinzas flutuam em movimentos circulares antes de cair.
Ricardo se aproxima da mesa com as sobremesas. O odor da erva-doce e da canela suplanta o do cigarro modernista.
— Bombons de frutas tropicais com chocolate de Bayonne para Cruz.
— Figos secos recheados com nozes e castanhas cozidas com erva-doce para João Manuel.
— Grießbrei com Rote Grütz para Koch.
Todos passaram a saborear suas sobremesas.
Bandeira era o mais glutão, tendo o prato constantemente reabastecido por Ricardo.
Por alguns minutos, a conversa suspendeu-se.
Bandeira novamente percebeu o movimento circular das cinzas de seu cigarro. Havia algo estranho naquilo.
Osvaldo Cruz, como se não quisesse cortar o fio errado da bomba armada por Fábio, retomou:
— Refletindo... tudo era muito novo em matéria de Saúde Pública. Parece-me que o âmago da questão é este: o que é a verdade?
Fábio corroborou com o semblante.
Osvaldo Cruz engoliu um bombom.
— Que delícia. Cupuaçu! — prosseguiu, como se energizado pelo sabor exótico. — No laboratório as evidências não são equivalentes, há hierarquia.
Engoliu mais um bombom. Maracujá!
— Mas como apontado por Nightingale, a vida real não é um laboratório. Fora do laboratório as opiniões tendem a competir como equivalentes.
— O imaginário social é turvado pela divulgação dos fatos, pelos filtros culturais, emocionais e simbólicos. — comentou um Bandeira que mantinha a avidez pelos papos de anjo.
Mann era o mais contido frente as sobremesas. Sua contenção física não refletia a liberdade imaginativa. O creme dourado, morno e licoroso do zabaglione despertou a lembrança de Veneza. A cobertura doce de framboesas era sua conexão com a infância em Lübeck.
A dualidade de sabores era sincrônica à de sua alma.
Sabia que sua dualidade não era única: todos possuem suas divisões e distrações. Sentiu-se impelido a comentar:
— Se a população tem suas distrações, isso também vale para os cientistas — Mann comentou enquanto pedia um café a Ricardo.
Koch limpou a boca com o guardanapo.
— Revisão. Correção. Falseabilidade.
Koch parecia quase recitar um ritual antigo.
— A ciência tenta disciplinar o filtro humano. Errático... inevitavelmente errático.
— Mesmo assim, a verdade científica não é pura — João Manuel ainda não havia tocado nas sobremesas. Somente apreciava o aroma.
Koch voltou a cabeça em direção a João Manuel.
— És preciso. Não é pura. Eu cedi ao desejo social e político da salvação imediata. O milagre romântico alemão. Paguei o preço.
Após entregar o café de Mann, Ricardo completou a xícara de Bandeira. Aproveitou para complementar:
— A tuberculina acabou sendo um dos primeiros casos de tensão de saúde pública na história.
— Certamente. Foi uma das primeiras vezes que a ciência saiu do laboratório para as ruas. O conflito deixou de ser técnico e sanitário. Passou para o território político e epistemológico — Nightingale falava com segurança.
Florence contara com o prestígio da Rainha Vitória por muitos anos na discussão de reformas sanitárias. Agora, demonstrava satisfação ao finalizar sua zuppa.
— Nesse território a verdade não é mais científica. Aparece como discurso, posições, interesses, moral, poder.
Pediu a Ricardo uma dose do licor italiano Alchermes e passou ao zucotto.
Ouvir sobre a manipulação da verdade em razão do poder fez com que Mann tivesse um arrepio. Foi obrigado a tomar a palavra:
— Em uma época de irracionalidade romântica, escrevi contra o racionalismo literário francês e inglês. Essas minhas ideias saíram do ambiente acadêmico e — deturpadas — gozaram de prestígio intelectual entre conservadores, nacionalistas e setores da direita de minha terra.
O semblante de Mann carregou traços de tristeza.
— E acabaram… servindo às ideias ignominiosas do nazismo.
Aquela era uma palavra de ímpar impacto. Bandeira, João Manuel e o próprio Mann se calaram.
Koch, Nightingale e Cruz perguntaram o que significava.
— Uma mancha na história.
A voz de Mann tornou-se mais baixa.
— Mundo em guerra. Milhões morreram acreditando servir a uma verdade superior.
Mann entendia o peso do assunto. Quase em tom de desculpas, continuou:
— As ideias deixam de nos pertencer quando entram no mundo.
Um gole de café. Brasileiro. Lembrou da mãe.
— O que é bom, pois há o debate aberto, conflito de ideias, diversidade de perspectivas.
Exalou lentamente o ar antes de inspirar profundamente.
— Mas com o risco de degeneração para o pluralismo indiferenciado. Um mercado de opiniões sem critérios de verdade, coerência ou consequência.
Osvaldo Cruz percebeu o problema. Comeu mais um bombom, agora de abacaxi.
— No ambiente público não existem métodos de contenção e verificação.
O acidez do abacaxi contrastava com o chocolate.
O odor intenso da erva-doce se esvaiu. João Manuel, que agora saboreava as castanhas, continuou:
— E múltiplas opiniões resultam em fragmentação extrema. O debate público vira guerra tribal, sem possiblidade de persuasão racional.
João Manuel pegou o postal da mesa, observou a figura feminina. Sorriu, como se entendesse algo ali oculto. O entregou a Ricardo e retomou:
— A deslegitimação última da verdade resulta em revoluções, revoltas, assassinatos em massa, fanatismo.
— Foi o que vivi – Osvaldo.
— E o que combati no exílio – Mann.
Todos ali perceberam a relação perigosa da humanidade com a verdade.
O degustar dos papos de anjo intercalado com o café e cigarro não impedia Bandeira de continuar:
— Mas por que a ciência não dá a resposta que a população espera? A verdade científica é transitória?
— Absolutamente. Koch dobrou o guardanapo e o acomodou sobre a mesa. E continuou:
— É anti-dogmática por excelência. É um contínuo estado de provisoriedade.
Florence — com tremor mínimo — bebeu com delicadeza o licor escarlate, tomando a palavra:
— Ciência madura entrega probabilidades, intervalos, revisões, margens de erro.
Ricardo repousou o postal no balcão.
— A população não deseja a incerteza. Ela tem uma busca existencial por segurança — Mann ofereceu um pedaço de seu zabaglione para Bandeira.
— Mas qual seria a solução? — Bandeira aceita de bom grado um pedaço do doce.
— Comunicação — interveio João Manuel. É o único caminho. E precisa ser realizada por meio de certezas simples, respostas definitivas, segurança emocional.
Koch percebeu a ausência de solução fácil, e apontou com uma leve ironia germânica:
— Comunicando incertezas científicas em certezas operacionais... provisórias.
Florence, com sua sensibilidade única, compreendeu e desvelou:
— É essa a tragédia da saúde pública. Não basta produzir a verdade científica, deve sustentar a autoridade da verdade em um ambiente de relativização, inclusive da autoridade.
Osvaldo Cruz se reconheceu:
— Foi meu drama: não possuíamos a certeza absoluta, mas eu estava convicto. Convicto de que a ação era melhor que a omissão.
E fitando o gerente, emendou:
— Não fui intolerante.
Voltando o olhar aos seus colegas:
— O morto a bem do povo foi o tênue, imperfeito — e talvez inatingível — equilíbrio entre duas éticas: convicção e responsabilidade.
Fábio pegou o postal. A iconografia era de Cassandra. A princesa troiana condenada a proferir profecias verdadeiras, mas jamais ser acreditada.
Pegou uma das canetas da caixa, virou o cartão amarelado pelo tempo e escreveu:
“Os homens preferem verdades emocionalmente habitáveis”.
Guardou o postal.
Recolocou a caneta.
Fechou a caixa.
Vida que segue.






