A fumaça do cinzeiro de Manuel Bandeira ascendia em uma espiral dupla.
Koch, metódico, ficara desconfortável com a ironia de Bandeira.
— Não me agrada rir da sentença de morte, isso é absurdo.
Nightingale e Osvaldo Cruz cruzaram os olhares. Concordavam.
— Preferimos manter o enfrentamento à doença, tenacidade — Osvaldo fitou Bandeira.
Nightingale assentiu.
A trindade tísica cerrava fileiras.
Bandeira sorriu para João Manuel. O sabor doce dos papos de anjo ainda lhe preenchia as papilas gustativas.
— Esse sentimento deles é a expressão da revolta.
— Sim, justamente a nossa condição humana — João Manuel juntou as mãos.
— O absurdo — Mann compreendera aonde queriam chegar.
Bandeira olhou para Koch, Nightingale e Cruz.
— A exigência humana de compreensão encontra aquilo que lhe é indiferente.
O cigarro de Bandeira, reduzido às últimas brasas, repousava no cinzeiro.
— Tentam construir um sentido — disse Mann.
— Tentam compreender o absurdo — completou João Manuel.
Os três demonstraram não compreender. Ricardo, que estava junto ao balcão, aproximou-se:
— Eles não conhecem Camus, meus caros.
Ricardo recolheu os pratos e as xícaras. O barulho da cerâmica se misturou ao atrito contínuo da madeira.
O veio de professor de João Manuel aflorou.
— Filósofo francês, de origem argelina. Um existencialista.
Com as mãos moldadas em arco, como se sustentasse uma esfera invisível, o português continuou:
— Sísifo.
Tensionou os ombros e inclinou o corpo como que se lutasse contra a gravidade.
— Vocês rolam sua pedra, a tuberculose, montanha acima. Ela rola montanha abaixo. Acima. Abaixo.
— Agora estão diante de nós, exasperados — Bandeira procurou algo no bolso do paletó.
Havia razão para a exasperação. Pouco antes, haviam tomado ciência das guerras, dos desfechos e da impassividade da tuberculose diante de tudo aquilo.
— Tentam, com a ciência, enquadrar o irredutível pela razão — Bandeira procurou algo no outro bolso do paletó.
— Tentam racionalizar o mundo — disse João Manuel. As mãos iniciaram o movimento contínuo de empurrar a pedra invisível.
— E ainda se surpreendem com o fracasso diante da tuberculose — Mann recostou-se e cruzou as pernas.
O som do atrito da madeira, contínuo, circular, chamou a atenção de todos.
— Então fracassamos? — A voz de Florence vacilou.
— A ciência tenta ordenar as coisas, mas a realidade é avessa a essa ordenação — João Manuel continuava a empurrar a pedra imaginária.
O som circular não permitia silêncio absoluto.
— A ordenação completa não é possível, pois o mundo é inesgotável — Bandeira finalmente encontrou o cigarro no bolso.
— O paradoxo da inesgotabilidade — João Manuel parecia divertir-se com a pedra imaginária.
— O absurdo.
Bandeira curvou a mão esquerda ao redor do cigarro e, com a direita, tentou acendê-lo. O isqueiro falhou.
Osvaldo Cruz hesitou:
— A razão é inútil, então?
— Irracionalidade não é irracionalismo — respondeu João Manuel, sem interromper o movimento.
— A doença é irracional porque não se enquadra, porque é misteriosa, porque é inesgotável, porque é...
João Manuel interrompeu bruscamente o movimento das mãos.
— O absurdo!
Olhou para os três.
— Não é o homem. Não é o mundo. É o confronto entre os dois.
O atrito da madeira continuava. Alguns olharam para o gramofone, agora em silêncio.
— Não diria que a razão é inútil, caro Osvaldo Cruz — Mann ajeitou o bigode. Seus olhos verdes ganharam profundidade.
— A própria irracionalidade do mundo nos exige um compromisso ainda maior...
Mann deixou a frase suspensa.
— Com a razão — completou Ricardo, enquanto folheava seu livro de bolso.
— Ao assumirmos a contradição e a solidão de nossa existência... — Bandeira finalmente conseguiu acender o cigarro.
Tragou.
— Permanecemos diante do absurdo.
Bandeira exalou lentamente a fumaça.
— Mesmo sabendo de nossa finitude — acrescentou Mann.
— E disso não há escapatória? — Koch perguntou, curioso.
— Não — respondeu João Manuel.
A trindade o encarou.
— Então?
— Aprende-se a viver dentro dele.
Bandeira fitou os três, como quem reconhecia algo que eles próprios ainda não haviam percebido.
— Vocês já fizeram isso.
— Suas obras são a denúncia do absurdo. Cansaram-se do automatismo de empurrar a pedra montanha acima. Despertaram para ele. E esse gosto diário pela ciência revela... — João Manuel deixou a conclusão no ar.
— O gosto pela existência através do conhecimento — Bandeira completou.
— A revolta — João Manuel arrematou.
A tríade agora compreendia. Davam um nome àquilo que sempre haviam feito.
— Então não fracassamos? Mesmo sem poder vencer o absurdo? — perguntou Koch.
O ruído mudou. Já não parecia apenas atrito. Havia ritmo. Algo estava sendo tecido.
Um tear entrara em funcionamento.
João Manuel deixou a pedra imaginária. Procurou a origem do som.
— 1943.
Mais um movimento do tear.
— Albert Schatz.
Outro movimento.
— Estreptomicina.
Havia algo diferente na voz de João Manuel.
— Contra o bacilo? — Koch se inclinou sobre a mesa.
Martins assentiu.
Nightingale apertou o antebraço de Cruz.
Por um momento, ninguém respirou.
O fio da vida voltava a correr pelo tear.
— A droga funcionava.
Os fios se entrelaçavam. O tecido crescia.
— Por fim, em 1968, Madras. Comprovou-se que o regime sanatorial já não era necessário.
Pela primeira vez naquela noite, a Taverna parecia sair da penumbra.
— As portas dos sanatórios foram abertas. Ali, o tempo não estava mais suspenso — disse Mann. Seus ombros relaxaram.
— Então vencemos — disse Cruz.
Os olhares da trindade se encontraram. Havia neles uma alegria quase infantil.
— Não foi bem assim — disse João Manuel.
Suas mãos voltaram, devagar, à pedra.
— A morte não se vence — Bandeira recuperara toda a sua ironia.
— A estreptomicina era eficaz. Mas o bacilo aprendeu a sobreviver a ela. Veio a resistência. O próprio Camus a experimentou.
O tear silenciou.
O português continuou a empurrar a pedra.
— Mas nem enganar a morte? — Koch insistiu.
João Manuel parou. Olhou para Koch.
— Bem, Sísifo tentou.
Esperou.
As mãos voltaram a empurrar a pedra invisível.
— E está rolando montanha acima até hoje.
O tear voltou a ser ouvido.
O capítulo inicial da Tísica pode ser encontrado aqui.
A Tísica
João Manuel Cardoso Martins se esforçava para identificar a obra que estava procurando. As prateleiras da biblioteca da Taverna não lhe eram familiares; sentia-se confortável ali, mas muito distante da sensação de comodidade de sua própria coleção. Localizar o que queria não era tarefa trivial.






