O ar pesado da Taverna envolvia os convidados. Sombras de séculos diferentes dividiam a mesma mesa. Figuras improváveis reunidas em um ponto impossível do espaço-tempo.
A lembrança do julgamento de Galileu pairava sobre a mesa como um odor antigo de fumaça e ferro queimado.
Era difícil não se afeiçoar a Galileu.
Velho, cego, as mãos tateando a borda da mesa —
aqueles olhos que já haviam lido nos céus o despertar da ciência agora não viam nada.
Carl Sagan cerrava os punhos havia algum tempo:
— Eles não quiseram olhar pelo telescópio — esmurrando a mesa. — Preferiram o fogo. E quando viam, estavam todos cegos pela crença.
Galileu tateava a borda da mesa, os olhos perdidos no nada:
— Ainda ouço a multidão nas ruas enlameadas… esperando o veredito.
Engoliu em seco.
— Mostraram-me os instrumentos de… tortura.
Os dedos pararam.
Ninguém falou.
Só a lareira respirava.
Galileu levou a mão aos olhos cegos.
Sagan inclinou-se:
— Sua confissão foi arrancada — a voz cortando o ar como uma lâmina que não queria ferir, mas revelar.
Galileu fechou os olhos:
— Ainda escuto as cordas estalando. Chamavam aquilo de justiça.
A lareira crepitou.
Galileu estremeceu.
Levou a mão ao rosto vazio de luz — talvez para enxugar algo que não admitia ser lágrima.
O garçom pousou o vinho na mesa, quase sem ruído, como quem oferece silêncio. A voz dele veio como uma sopro:
— Fé não deveria temer a razão, Galileu.
Camus recostou-se, sorrindo de lado.
— A razão precisa ser inimiga da fé?
Girava a taça devagar. Continuou a sorrir, mas seus olhos se desviaram, como se temessem a própria resposta.
— Palavras mentem. Atos não.
Fez uma breve pausa, os olhos fixos na taça que girava em seus dedos, fitando o movimento do vinho
— Chamam de justiça… mas o jogo já começa decidido.
Seus olhos brilharam na penumbra.
— Pelo menos o verniz de civilidade é mantido. O disfarce elegante do absurdo.
A lareira respirou.
Sagan não hesitou. Ergueu os olhos:
— E Copérnico, antes de Galileu? Acham que ele também não teve medo? — o cientista comprimiu os lábios.
— Ele recorreu ao estratagema da prudência. Meus caros, ele só publicou sua obra já em seu leito de morte.
Silêncio.
— E, pasmem, ainda escreveram na sua própria obra — num enxerto apócrifo — que era “só cálculo”, mero exercício de imaginação.
Fez-se outro silêncio. Longo. A lareira rugiu.
Prosseguiu com meio sorriso:
— Como se dissesse que nem mesmo Copérnico acreditava realmente no que havia descoberto! — completou Sagan— Um mero exercício de cálculo abstrato que, ainda por cima, não deveria refutar a doutrina estabelecida. Este era o espírito de muitos teólogos daquela época — e isso não pode ser ignorado.
Galileu respirou fundo, com semblante grave e voz que trazia amargas lembranças:
— No meu caso, tentaram espalhar entre as pessoas comuns que as minhas ideias eram contrárias à Escritura Sagrada e, consequentemente, sujeitas à danação.
As mãos envelhecidas se comprimiam, os lábios constritos, e continuou:
— A natureza humana é tal que se inclina à opressão dos outros, mesmo injustamente.—murmurou — Esperavam que a semente plantada na mente insincera crescesse como árvore e alcançasse o céu — espalhando o rumor de que minhas ideias seriam declaradas heréticas pela autoridade suprema.
Galileu fez uma pausa, cansado.
O som próximo do crepitar da lareira pareceu pontuar o silêncio. O velho cientista sobressaltou-se na cadeira, assustando a todos, as mãos vacilantes procurando por apoio.
O garçom recostou cuidadosamente suas mãos nos ombros da figura abatida, sussurrando-lhe:
— Nada temas aqui, caro Galileu... estás entre amigos e longe de qualquer perigo. Na Taverna, teus pensamentos são protegidos de tudo e de todos, inclusive da Inquisição.
Galileu suspirou, agradecendo com um sorriso contido, e continuou:
— Por isso enfrentei, com as forças de que dispunha, o tribunal. Se aceitasse calado, condenariam todas as outras observações astronômicas que dependiam das minhas.
Ergueu o olhar, mais firme:
— O problema em si está na interpretação literal da Bíblia.
Sagan cruzou as mãos sobre a mesa, o olhar faiscando. Por um instante parecia um réu reconhecendo um cúmplice.
— Você escreveu esses seus argumentos antes, não é mesmo? A famosa carta à Grã-Duquesa Cristina...
— Sim — respondeu Galileu com serenidade, segurando a borda da mesa. — Em 1615. Disse que descobrira coisas novas no céu. Coisas que antes ninguém havia visto. — Elevou delicadamente as mãos ao alto. — Particularidades que estavam invisíveis até o nosso tempo. E então…ergueram-se contra mim alguns opositores que agiam como se eu mesmo tivesse colocado essas coisas com minhas próprias mãos no firmamento, apenas para confundir a natureza e as ciências.
Galileu acrescentou, inclinando-se levemente para frente, com aquele ar entre ternura e ironia:
— As pessoas esquecem que uma multidão de verdades contribui para o questionamento, e este, por sua vez, fortalece as disciplinas — em vez de destruí-las ou diminuí-las. Ao mesmo tempo, estas mesmas pessoas mostram maior afeição às suas próprias opiniões do que à verdade.
Um leve humor brilhou no rosto enrugado, logo tomado pela gravidade.
— Assim, meus opositores procuram negar as novidades e, para isso, publicam textos cheios de discursos inúteis, salpicados de citações das Escrituras.
Sagan assentiu, a voz soando como um tilintar de uma experiência bem-polida:
— No seu tempo, dominado por uma instituição religiosa poderosa, você sofreu de forma drástica o que hoje experimentamos de modo diferente. — disse com suavidade — Mas a resistência — seja religiosa, política ou mesmo científica — ainda existe... só mudou de roupa.
— Aqui... — disse Galileu com esforço, como quem mede o peso da própria história antes de responder. — Creio que aqui, na Taverna, me sinto em segurança para poder declarar, sem receio de punição: em disputas sobre fenômenos naturais, devemos começar não pela autoridade de passagens da Escritura — ou, em vosso caso, de autoridades políticas ou acadêmicas —, mas pela experiência sensorial e pelas demonstrações necessárias.
Seria medo ou sofrimento o que aqueles velhos olhos cegos exprimiam?
Voltou o rosto aos demais, com o brilho do velho mestre em seus olhos:
— Uma vez que a Escritura Sagrada e a Natureza derivam igualmente da mente de Deus — a primeira, como o ditado do Espírito Santo; a segunda, como a mais obediente executora das ordens divinas —, é natural que ambas falem a Sua verdade.
Pousou a mão sobre o peito.
— A Escritura fala à alma simples... por isso, às vezes, pode dizer algo que não corresponde à verdade literal — é por misericórdia para com os mais humildes.
— De qualquer modo — continuou Galileu, a voz mais confiante —, a Natureza é inexorável e imutável.
— E o homem, Galileu?— cortou Camus, com voz quase amarga.— Quando foi que ele se tornou mais cruel do que a própria Natureza?
Galileu recuou um pouco, tocado pela pergunta, surpreso:
— A Natureza nunca viola as leis que lhe foram impostas, e não se importa se suas razões recônditas e modos de operar são acessíveis ou não ao entendimento humano. Não se preocupa se a entendemos ou não.
Lemaître que ouvira tudo em silêncio quase reverente, finalmente interveio com polidez:
— Recordo-me de algo que citou certa vez..: “Deus deve primeiro ser entendido pela Natureza, depois, pela doutrina.”
— Sim. — confirmou Galileu, mais à vontade, e fez um leve gesto com a mão — Agostinho dizia que os autores sagrados não buscavam ensinar a forma do céu ou da Terra...pois isso não é essencial à salvação de ninguém.
Lemaître o cumprimentou com um leve aceno:
— Ou seja, a intenção do Espírito Santo é ensinar-nos como alguém pode alcançar o céu — e não como o céu está.
Einstein tirou o cachimbo dos lábios e soprou a fumaça devagar, como quem pensa em voz alta:
— Então podemos concluir que a interpretação literal de qualquer texto — seja religioso, político ou científico — e a confiança excessiva em argumentos de autoridade, quaisquer que sejam, são nocivas ao conhecimento humano.
A fumaça espiralou enquanto ascendia, confundindo-se com seus cabelos brancos desgrenhados:
— Meus caros, a única conclusão possível é que independência do pensamento é condição essencial para o avanço da ciência, e, portanto, da humanidade.
E acrescentando mais tabaco ao fornilho do cachimbo, disse, com uma voz sombria que parecia não pertencer ao próprio Einstein: — E se não pudermos controlar nossa própria mente, alguém —ou algo— desejará fazê-lo por nós. Sejamos donos de nós mesmos, meus amigos,
O garçom disse, parcialmente iluminado pelo brilho amarelado da lareira distante: — De Oscar Wilde, que já nos brindou com sua presença: “Sabedoria está em todo lugar/ Embora o mar tempestuoso não a possua,/ E a imensa e profunda resposta/ Não esteja em mim.”
As palavras pairavam no ar, como se também esperassem resposta.
E por um instante, ninguém na Taverna ousou respirar.
...continua.







