— Devo chamar a polícia da Central ou interná-lo no Hospício de Alienados do Rio? — disse, lançando o olhar ao interlocutor sentado à sua frente. — Afinal, trata-se de um caso de degeneração mental ou desvio social?
O homem sustentou-lhe o olhar:
— Então é assim que um lusitano cumprimenta um desconhecido?
— Esperaria reação diversa? Qualquer cavalheiro com o mínimo de bom senso pensaria da mesma forma. Foi o que me ocorreu enquanto lia sua correspondência em minha residência no Catete há duas semanas, antes do Carnaval.
O estranho retrucou:
— Se ofendi sua dignidade, peço desculpas, mas nada além disso. O teor da carta é mais importante que a forma.
Reis apoiou lentamente a xícara sobre a porcelana.
— Um homem incapaz de assinar aquilo que escreve... como poderia confiar em suas palavras? Devo chamá-lo de Anônimo?
O homem sorriu discretamente.
O relógio marcava 16h37.
Reis continuou:
— No Rio, até o inesperado chega sambando. Não bate à porta. Senta-se à mesa e pede café.
O rapaz à sua frente, com um terno marrom fino, enquanto entregava seu chapéu ao garçom da confeitaria, comentou:
— Apenas um degrau extra de cautela, meu caro doutor.
Continuou, aproximando os cotovelos da mesa:
— Meu nome não importa. Sou o Agente. Basta que me conheça dessa forma.
Fez uma breve pausa.
— E não peço sua confiança. Ao final desta conversa, decidirá se o seu precioso tempo foi ou não... proveitoso.
Reis diminuiu a distância entre ambos.
— Da maneira que colocou, faz parecer que não tenho alternativa senão ouvi-lo. Poderia me dar por satisfeito e simplesmente partir após meu expresso.
— Alternativa sempre há. Resta saber se estamos dispostos a pagar o preço.
— A que se refere exatamente? Não devo nada a ninguém.
Naquele início de tarde, um rádio tocava baixinho um samba de Noel Rosa. O ruído da transmissão misturava-se ao tilintar de talheres e porcelanas e ao rumor distante dos bondes que cruzavam as ruas do centro.
O estranho olhou ao redor.
— Observe, doutor Reis. Todas estas pessoas desconhecidas aqui dentro da confeitaria. As ruas do Rio, em tempos de carnaval ou fora deles... o senhor lhes atribui algum valor?
Reis estreitou o olhar.
— O que quer dizer?
— Quanto espaço o humano comum ocupa em sua vida? A doce mentira que acontece no tumulto do mundo… essa hesitação preguiçosa de propósito...
Um instante de silêncio se seguiu.
Reis respondeu após posicionar os óculos:
— Justamente aí reside aquilo que considero digno. Na simplicidade das coisas — entre um momento grandioso e outro, no intervalo entre nascimento e morte — as quais, aliás, conheço muito bem.
Reis apoiou-se no braço da cadeira.
O Agente continuou:
— Ótimo. Prezas a humanidade. Foi o que imaginei.
O homem permaneceu imóvel, mas algo em sua presença pareceu avançar. Reis se afastou.
— Um paradoxo curioso. Há pessoas que passam a vida inteira tentando tornar-se mais humanas. Outras parecem nascer ultrapassando isso.
Reis ergueu uma sobrancelha.
— Somos todos humanos, não somos? Cada qual com sua sensibilidade. E por que se importa?
O Agente contraiu os lábios, formando um fina linha. Pela primeira vez, pareceu escolher as palavras com cuidado. Finalmente, afirmou:
— Porque este é o preço.
Reis hesitou entre uma garfada e outra em seu doce. Franziu o cenho.
— De quê?
O homem observou as pessoas na confeitaria.
Um casal de namorados ria próximo à entrada. Um menino passou correndo atrás de um cachorro na calçada.
Só então o rapaz respondeu, em um sussuro:
— Ainda não sei.
E depois:
— Mas suspeito que o preço seja...
— A humanidade.
Reis sentiu o doce arder na garganta. Sorriu discretamente:
— Aprecio seu senso de humor.
Voltou a pegar a xícara.
— Não controlo sequer meu próprio destino, quanto mais o da humanidade.
E então recitou, quase distraidamente:
— “O destino é calmo e inexorável. Acima de nós mesmos construímos um fado voluntário; que, quando nos oprima, nós sejamos esse que nos oprime.”
Mas o estranho continuou, imediatamente:
— “...e quando entrarmos pela noite adentro, por nosso pé entremos.”
Pela primeira vez, Reis permaneceu estático.
— Conhece profundamente meus versos, pelo jeito.
O Agente meneou a cabeça:
— Então considere o seu destino voluntário. E o de todos.
Reis observou-o longamente. A barba rente, um pouco démodé, os cabelos penteados meticulosamente para trás.
— E você, Agente sem nome, representa o destino? O fado voluntário? Convoca, através de uma carta misteriosa, um português desterrado, médico por formação e poeta por vocação, e acredita que pode decidir o papel da humanidade?
— Exato.
Reis soltou um breve riso nasal.
— E por que cargas d’água devo permanecer nesta conversa lunática? Exceto, talvez, pelo que resta do meu quindim.
— Entendo sua reacção. E esperava por ela.
O rapaz falou:
— Pássaro contra o vitral. Bandeja ao chão. Garota francesa assusta-se.
Então aconteceu.
Um pássaro bateu violentamente contra a janela.
O garçom sobressaltou-se.
A bandeja escapou-lhe das mãos.
Porcelana explodiu contra o mármore.
Uma mulher de vestido rosa levantou-se abruptamente.
— Mon Dieu! — exclamou.
Reis sentiu o sangue abandonar lentamente o rosto.
Porque ocorreu.
Exatamente.
Como ele havia dito.
Antes que Reis pudesse reagir, o Agente continuou:
— Acho incrível até onde a modernidade pode levá-los.
Apontou discretamente para o rádio sobre o balcão.
O aparelho chiava baixo entre uma música e outra, como se hesitasse antes de entregar a próxima voz. Tocava agora um sucesso recente de samba do jovem Noel Rosa.
— Posso lhe assegurar que não se trata de caso de prisão ou eletrochoque. Apenas concordo que a ignorância total sobre determinado assunto — ou, mais do que isso, o choque entre aquilo que pensamos e aquilo que realmente ocorre... aquilo que realmente é — pode nos frustrar.
Passou lentamente os dedos pela borda da xícara intocada.
— E os rótulos de ofensa ou loucura sempre serviram como disfarces convenientes.
Reis examinava-o sem interromper. Engoliu em seco e finalmente falou:
— Ora, também sou homem da ciência. Não rotulo tão facilmente quanto possa imaginar.
Levantou os olhos.
— E foi exatamente por isso que aceitei esse encontro, aliás.
Reis permaneceu imóvel.
O Agente, afastando a xícara alguns milímetros, disse:
— Não se engane. Não espero que saia daqui com mais respostas do que perguntas.
Inclinou-se ligeiramente sobre a mesa:
— Mas apesar do teor aparentemente absurdo... o senhor veio.
Do lado de fora, um bonde passou lentamente, produzindo um ruído metálico que pareceu prolongar-se, inicialmente mais estridente, aos poucos mais suave, até cessar.
Reis pousou o garfo ao lado do prato:
— Quando se recebe uma carta contendo informações que apenas alguém muito íntimo poderia conhecer, não creio que estejamos diante de um impostor.
Apoiou-se no espaldar da cadeira.
— Ou quem sabe um golpista extraordinariamente talentoso.
Uma fina chuva começou a cair, fazendo com que as pessoas na calçada cobrissem as cabeças.
— Mas não um impostor sem valor.
Reis procurou alguma explicação racional. Qualquer uma.
Não encontrou.
Isso o inquietou. Profundamente.
A desagradável sensação de ver alguém atravessar, sem permissão, uma passagem que julgava bloqueada.
Encarou o Agente.
— O que realmente pretende? O que quer de mim?
— O senhor pergunta o que quero de si, não por que o escolhi.
Reis sentiu o calor subir-lhe ao rosto.
O maxilar contraiu-se involuntariamente, desenhando, por um instante apenas, a pequena cova que tantas mulheres julgavam charme e ele considerava um acidente anatômico.
Mas não era vaidade.
Era irritação.
Ou talvez algo que se aproximasse perigosamente de inquietação. Algo raro para alguém que se julgava contido e pragmático.
— Ora, caro doutor... sabe que o poeta, capaz de mentir consciente e voluntariamente… só ele é capaz de dizer a verdade.
Reis sustentou o olhar sobre ele.
Alguns segundos transcorreram.
Então respondeu:
— Ah... Nietzsche?
O Agente inclinou a cabeça, divertindo-se discretamente.
Reis pigarreou:
— Eu diria que abomino a mentira, porque ela é uma inexatidão.
O Agente respondeu:
— Álvaro de Campos.
Reis franziu a testa, confuso.
O Agente continuou:
— Sou um fantasma ou uma fantasmagórica figura... mas uma que ainda se ofende.
Pela primeira vez desde o início da conversa, Reis sentiu uma leve hesitação.
Não pela frase.
Pela naturalidade com que ela fora dita.
Como se aquele homem passeasse entre vozes alheias sem pedir licença. Nunca havia presenciado tamanha profundidade de conhecimento.
O Agente continuou:
— Também sei, meu caro poeta, que acredita na existência dos deuses; no seu número infinito, na possibilidade deles... e também na possibilidade de o homem ascender à divindade.
Reis contraiu o rosto quase imperceptivelmente.
E respondeu:
— Crer é errar.
E após breve silêncio:
— Não crer de nada serve.
O estranho sorriu.
16h37.
Reis continuou:
— Apenas passo a minha vida... ou vejo passarem as vidas dos outros. — Inspirou profundamente. — Nada da vida humana subsiste.
Mas o estranho prosseguiu imediatamente, terminando-lhe o pensamento:
— Egoístas de um futuro que não é seu. — O sorriso desapareceu. — E o ódio e o amor igualmente nos buscam. Ambos, cada qual à sua maneira, nos oprimem.
O Agente inclinou o rosto, as feições angulares:
— Aprendi a não ter véus nos olhos nem na alma.
Reis arregalou os olhos.
Não havia como disfarçar agora.
O homem não citava apenas versos.
Recordava-os.
O silêncio estendeu-se.
Ao fundo, o rádio pareceu perder a sintonia por um instante.
Estática.
Ruído.
Depois novamente a música acima do burburinho da confeitaria, na voz de Carmen Miranda:
“Eu fiz tudo
Pra você gostar de mim...”
Reis apoiou lentamente os dedos sobre a mesa.
— Além de estranho...
Olhou-o demoradamente.
— é culto.
Fez outra pausa.
— Ao menos isso.
Estreitou os olhos.
— Você parece saber mais sobre mim do que eu autorizaria qualquer pessoa a saber.
O Agente não respondeu imediatamente.
Só então sorveu lentamente o café, já morno.
— Cognitio per causas ultimas.
Reis reagiu:
— Conhecer todas as causas, ou algo do gênero.
— E o que isso quer dizer?
O estranho apoiou-se na cadeira.
— O tempo não para.
Olhou para o movimento da rua, como se estivesse em uma conversa casual:
— Mas sempre existe uma exceção.
Voltou o rosto para Reis.
— Experiências como essa são apenas um exemplo.
Reis hesitou.
— E você? Não sei nada sobre você.
O homem não respondeu. Ergueu uma sobrancelha.
— Exilado aqui, doutor?
Reis corrigiu:
— Autoexilado, você quer dizer.
Silêncio.
Depois continuou:
— O Rio é uma capital que deseja ser elegante, mas tropeça. Uma Paris que transpira melancolia tropical.
Reis olhou pela janela.
— Literalmente, não acha?
Engoliu em seco antes de continuar:
— Gosto de contemplar o mar. Quando me perco no horizonte, deixo-me iludir pensando que estou em Portugal.
Seus olhos vagaram para além do vidro.
— As pessoas deveriam aprender a olhar o mar.
Inspirou profundamente, como se a brisa do Atlântico lhe tocasse o rosto.
— Toda filosofia está lá, em seu azul profundo.
Mais baixa a voz:
— O que somos perto dele?
O estranho observava-o.
— Essa sensação de insignificância...
Reis levantou os olhos.
— Eu a sinto aqui dentro da Confeitaria Colombo.
— Mas não olhando para o mar.
Estreitou os olhos e inclinou-se para frente:
— Há algo dentro dos seus olhos… Agente. Que não sei decifrar.
Pela primeira vez o silêncio pareceu ocupar espaço físico entre ambos.
Então o homem perguntou, como se estivesse perguntando a uma criança:
— Acha que pertence àqui...doutor?
Espelhos enormes de molduras douradas dominavam o salão. O piso de mármore claro refletia a luz que atravessava os vitrais coloridos. Ventiladores lentos disputavam inutilmente o calor úmido da tarde com lustres elegantes pendendo do teto alto.
O Agente observou os reflexos coloridos sobre a mesa.
— Curioso…
Reis relaxou os ombros e se reclinou:
— O quê?
O rapaz continuou admirando:
— Não encontro finalidade nisso.
— E ainda assim não quero deixar de olhar.
Gesticulou discretamente ao redor:
— Vê essas pessoas, doutor?
Acenou em direção às mesas vizinhas e aos pedestres da Rua do Ouvidor.
Homens de ternos claros, coletes, chapéus Panamá e gravatas finas caminhavam apressados.
Mulheres de vestidos abaixo dos joelhos e chapéus ornamentados.
— Elas acham... ou precisam sentir... que pertencem a esta cidade.
Observou a rua. A chuva de verão havia dado trégua.
— Caminham com urgência, preocupadas em parecer urgentes.
Respirou lentamente.
— Sente o perfume europeu tentando esconder o suor e a maresia distante?
Uma mosca varejeira ameaçou pousar sobre o quindim.
Reis a afastou distraidamente. Bateu o cigarro recém aceso no cinzeiro.
O agente continuou:
— Essas pessoas tentam dar sentido à inutilidade da vida anônima no murmúrio incerto da rua.
Reis levantou o olhar:
— Eu prefiro não ter pressa.
— O que não significa que meu tempo não tenha valor.
Retirou o relógio do bolso.
As iniciais RR estavam gravadas no metal.
O Agente observou.
— Paciente agendado?
Um leve sorriso.
— Os brasileiros não possuem o mesmo apreço pela pontualidade.
Reis sorriu discretamente.
— Ora, pois. O carioca é apenas um português dilatado pelo calor.
A luz dourada do início da tarde atravessava os vitrais da Colombo, espalhando manchas coloridas pelo salão.
Sobre a cadeira ao lado havia um jornal dobrado.
A manchete parcialmente visível dizia:
“Articulações no Sul inquietam meios políticos da Capital.”
Abaixo, discreta no rodapé, uma pequena fotografia.
Getúlio Vargas.
Reis observou-a por um instante.
— O autoexílio ensinou-me a ter menos urgência.
Colocou o jornal sobre a mesa. Uma folha manuscrita visível entre suas páginas.
— Afinal, o mundo continua apesar de nós.
Olhou novamente pela janela.
— Um mundo febril.
— Febril? — o Agente perguntou.
— Aqui, na capital e centro nevrálgico do Brasil, temos cortiços miseráveis ao lado de teatros e cafés luxuosos como este.
Ajeitou novamente os óculos.
— Sei observar os sinais e sintomas de alguém perigosamente confortável com o poder.
Reis dobrou o jornal escondendo a folha e colocou-o sobre o colo.
— Mas suponho que não viemos discutir a decadência da República.
O Agente postou-se lentamente à frente.
— Como bem lhe escrevi...
Molhou os lábios.
— Isto não é uma discussão.
Disse, em um estalo:
— É uma convocação.
Reis sentiu a mandíbula tensionar-se.
— E se eu recusar?
Tentou soar casual.
Não conseguiu.
— Tenho meus compromissos.
O homem sustentou-lhe o olhar.
— Então permanecerá com a eterna pergunta ao deitar a cabeça sobre seu travesseiro de plumas.
Ouvia-se apenas estática zumbindo no rádio.
— Se existe um fio de verdade naquilo que recebeu.
Reduziu mais um pouco o vazio entre eles.
— E você sabe que, se houver...
O rádio voltou a sintonizar. A voz melodiosa de Noel Rosa atravessou o salão:
“Com que roupa eu vou?”..







