— Então, Agente, você é um político. Nunca se sabe quando mente ou fala a verdade.
Reis olhou novamente para o relógio dourado de bolso.
16h37.
Percutiu com o indicador na lateral e franziu levemente a testa.
O homem sorriu com os olhos:
— A diferença é que não estou aqui para convencê-lo.
Reis pestanejou, incrédulo.
O Agente continuou:
— Ao final desta conversa, você me implorará para me seguir. Como uma criança perdida na multidão frenética.
“Arrogante. Mais odioso por ser eloquente.” — Reis pensou por um segundo em levantar-se.
Ir embora.
Deixá-lo sozinho com seus insultos e suas certezas.
— Já lhe aviso que dentro de vinte minutos tenho um compromisso.
O homem elevou discretamente as sobrancelhas:
— Terminaremos antes desse tempo. Precisamos terminar.
— E sabe por que não foi embora, doutor?
Silêncio entre uma música e outra da rádio.
Reis comprimiu os lábios.
O Agente observou-o.
— Faltam palavras ao poeta?
Reis respondeu sem alterar o tom:
— Prefiro calar-me a produzir imprompérios.
O homem inclinou ligeiramente a cabeça.
— Você permanece, Reis, porque de alguma forma sente que deve. E porque atiçei sua curiosidade ao lhe revelar aquilo que sempre suspeitou sobre si mesmo.
Reis estreitou os olhos.
— E por que me ameaçou?
— Não foi ameaça.
O Agente respirou fundo:
— Não atire no mensageiro, meu caro.
Reis soltou uma risada curta:
— Reconfortante saber disso.
O Agente acenou com as mãos em direção à saída.
— De nada adiantará fugir.
— É inevitável o que ocorrerá aqui.
Olhou-o diretamente.
— Tão inevitável quanto as ondas do seu mar, doutor, cheio de sua filosofia.
Reis recostou-se lentamente. Sentiu a superfície dura e gelada em suas costas.
— E você quer me convencer de que é amistoso? Para isso escreve-me colocando meu mundo de pernas para o ar?
O Agente sorriu.
Sorriu?
— Não tive escolha.
Reis esperou.
— Ou seria eu a entrar em contato…
Fez uma pausa, franzindo a testa.
— Ou algo, quero dizer, ou alguém que não se importaria em realmente pendurá-lo de ponta-cabeça.
Reis ficou imóvel. Doíam-lhe as costas.
— Reconfortante. Devo lhe agradecer, então, admirável estranho?
Acomodou-se à cadeira.
— Você tem mais algum truque além de observar pombos batendo em vidraças?
O Agente ergueu os olhos.
— E quanto à garota francesa, doutor Reis? Apenas observação minha também, doutor?
— Ora, senhor. Olhe ao redor. O que mais há são franceses.
Reis abriu um sorriso pequeno. Trêmulo.
— E se há alguém com sensibilidade à flor da pele, são as francesas.
O Agente ficou sério. Duro como rocha. Não tinha muito tempo.
— Os poetas são todos avessos ao convencimento?
Reis não respondeu.
O homem insistiu:
— Você não acredita que sua existência… e a da humanidade…
Recuou levemente.
— Ah. Você não é um poeta abstracionista. Esses conceitos não lhe pertencem. Incomodam a sua visão de mundo material.
Reis ajeitou os óculos.
— Sou avesso a generalizações, Agente.
Olhou para o salão.
Para o garçom que conhecia. Miguel.
Para os outros clientes, desconhecidos.
— Porque vêem uma parte do mundo e acreditam ter visto o todo.
O Agente ficou em silêncio.
Reis continuou:
— Olhas para um garçom e vês apenas alguém que te serves café.
Apontou discretamente.
— Observas mais de perto e verás o Miguel.
Respirou.
— Um pai. Que acorda às quatro da madrugada para chegar aqui às seis. Primeiro emprego. Deixa a filha doente em casa. Quando volta à noite, a pequena já dorme.
Silêncio à mesa. A confeitaria parece acompanhar o ritmo da conversa entre os dois.
O Agente o observou:
— Mesmo escrevendo sobre deuses antigos, mitológicos… você ainda consegue enxergar Miguel e sua vida concreta.
Reis apenas sorriu:
— E a religião não seria justamente a tentativa de tornar palpável aquilo que ultrapassa o real?
Olhou para o próprio quindim.
— Se escrevo sobre Apolo, Apolo existe.
Ou aquilo que restava do doce amarelo gema.
— A religião de hoje é a mitologia de amanhã.
Respirou. O ar quente e úmido do Rio finalmente penetrou até o fundo dos seus pulmões.
O Agente contraiu o queixo:
— Mesmo que possa não ser assim para mim…
Reis interrompeu:
— Os deuses, assim como os versos, estão aqui independentes do nosso querer.
Olhou para fora.
— São-nos indiferentes. Existem mais do que nós.
Baixou a voz.
— Somos feitos do mesmo material dos sonhos.
Fez uma pausa. Tentou controlar a respiração.
— Só calhamos de conviver na mesma realidade.
Olhou para o Agente.
— A realidade, esta cela infinita a que estamos condenados.
O Agente alisou o cabelo meticulosamente para trás:
— As palavras dizem que o mundo existe…
…então ele existe.
Silenciou, apreciando os clientes distintos da confeitaria, circulando aqui e ali entre as mesas.
Leu o cartaz de uma bebida gaseificada, novidade dos jovens, a garrafa curvilínea ao lado de uma rapariga.
“Primeiro estranha-se.
Depois entranha-se.”
O rádio atrás do balcão chiou em estática.
Um anúncio qualquer de alguma magazine.
Uma cadeira arrastou ali perto.
O Agente acompanhou o som estridente por um instante. Não o incomodava.
Então voltou os olhos para Reis.
— Mas ainda assim vocês, escritores, procuram validação.
Reis franziu a testa.
— Validação?
— Algum tipo de confirmação externa. — o homem dedilhou a madeira da mesa com as unhas, como se testasse a sua resistência.
— Que só pode vir de fora. Dos outros. Estranhos à sua obra, ou ao que quer que vocês produzam.
Reis palpou o relógio no bolso. Sentia o alto-relevo:
— Não apenas sou dono de mim mesmo como faço-o de chapéu bem postado.
O homem sorriu.
— Talvez porque assuma que é cônscio… completamente consciente daquilo que escreve. E de si mesmo, portanto.
— Você, Agente, insiste em acreditar que sabe mais sobre minha própria obra… do que eu mesmo. Desagradável.
Reis inclinou o corpo para trás, contraindo o canto dos lábios.
— Quem é seu informante, afinal?
Engoliu em seco.
— Mestre Caeiro está fora de cogitação. Alguma antiga amante? Não acredito que Lídia…
O Agente demorou alguns segundos.
Então respondeu:
— O que sei de ti não poderia ter vindo do amor involuntário. Da paixão.
Olhou-o.
— Nem da amizade, o amor voluntário.
— Entenda, doutor Reis, sei sem querer saber, como se o que soubesse fosse uma lembrança. Lembra-te de tua infância na África? Pois é o mesmo que se passa em mim.
Reis ficou imóvel.
O Agente continuou:
— Sei como autor.
Silêncio.
— E você…
Olhou diretamente para ele.
— Como se fosse…
— Personagem.
Reis permaneceu imóvel.
O homem completou:
— Protagonista de um livro ainda inacabado. Vasculho fundo, escavo o teu íntimo, o pensamento mais interior e vexaminoso, escondido no beco do inconsciente. Pecaminoso? Que importa! Conheço-o mais do que você se conhece.
E pela primeira vez…
Ricardo Reis não respondeu imediatamente.
— Impossível… — murmurou. — Eu mesmo tento conhecer os personagens que brotam da minha imaginação tanto quanto conheço a mim mesmo. Mas — oh! — comprimiu os olhos, depois contraiu todo o rosto — como é difícil e duro conhecer suas íntimas consciências; qualquer escritor que valha um vintém sabe disso.
Os olhos do Agente não deixavam de fixar-se em Reis. Captavam a menor expressão.
— Tão impossível quanto existirem deuses, e vivermos em versos e frases imaginadas.
Fez uma pausa. Deixou Reis absorver, deu-lhe tempo, para, então, continuar:
— Pense Reis. Como há de sabermos se existem leitores de nossas vidas? De sua vida? E se não passamos todos de tinta e papel?
Reis vagava o olhar de uma mesa à outra, de uma dama à outra, comensais grã-finos aos pares ou trios, mas nenhum detalhe seu cérebro retinha. Apenas os sons, o tumulto...
Sorriu.
— Sendo assim…
Reis ergueu os olhos:
— Esses leitores também poderiam ser…
Interrompeu-se.
Não por hesitação.
Por método. Voltou a encarar o homem à sua frente, que inevitavelmente completou:
— Informação.
Reis franziu levemente o cenho.
O Agente continuou:
— Quanto tudo o que há. Desde o seu quindim que já foi tocado, até o garçom com a filha doente. O vitral, o pássaro… tudo organizado de alguma forma.
Fez um gesto pequeno com a mão.
— Informação.
Reis permaneceu imóvel.
— E para onde isso nos leva? Ao problema insolúvel da realidade...
O Agente inclinou-se sobre a mesa, aproximando-se:
— Não da realidade.
— Da consciência.
Reis o observou. Estava louco?
O homem baixou um pouco a voz:
— Daquilo que habita.
— Daquilo que se sabe.
— Daquilo que se reconhece, doutor.
O tumulto cessou naquele instante.
O rádio parecia mais distante.
O ruído das xícaras também.
O Agente continuou:
— E que pode escolher.
Reis esperou. A boca seca.
Apertava o relógio no bolso.
— Escolher o quê?
O homem respondeu sem desviar o olhar:
— Entre apagar a informação…
Não piscou.
— Ou deixá-la intacta.
Reis permaneceu quieto, suspendeu a respiração.
Então o Agente terminou:
— E isso, meu caro…
Sorriu.
— Só depende de você.
Ouviu-se a melodia tocando no rádio, que ainda um dia haveria de ser escrita:
“Quando eu morrer, não quero choro, nem vela...”
O capítulo inicial do Banquete dos Pensadores pode ser encontrado aqui:
O Banquete dos Pensadores - Capítulo 1
We are the three sisters. We have our blind eyes on you since your very beginning, we will last until the humankind’s fall without meaning. Clotho, Lachesis and Atropos. We spin, measure and cut the thread of mortals and gods We are the Fates of all, inexorable Behold the landscape in your placid eyes. Beware the insidious, unreasonable minds. Doesn’t…






