The first stood dazzled by the bending heavens
and dwelt within the faith of reason till his death.
The second beheld the cosmos in awe;
high reigned his sovereign science.
The third, stirred by the divine breath,
kept steadfast the holy faith.
The fourth walked bereft of all these lights,
and named the reality absurd — yet clear of sight.
The fifth suffered, torn by reason against radical faith;
in silence paid the price in the dark.
The sixth laid bare the faith of science itself;
yet neither faith nor science held the vital spark.
High over all, there shone one sober truth:
the lucid bounds of humankind.
— — —
O primeiro deslumbrou-se ante o universo curvo
e habitou a fé da razão até sua ausência.
O segundo admirou o cosmos profundo;
alta reinava a ciência, sua paixão.
O terceiro, inspirado pelo divino com a criação desvelada,
preservou a fé da religião intocada.
O quarto caminhou só, ferino.
o absurdo aplacado pela lucidez.
O quinto sofreu pela razão contra a fé radical;
o silêncio foi seu preço, com sensatez.
O sexto desnudou a fé da ciência;
nem fé nem ciência apreende a vital potência.
E acima de todos restou a verdade sóbria:
o limite lúcido humano.
RT Schulz— — —
— Você está impossível, Nietzsche — Lemaître apoiou os cotovelos na mesa e suspirou — Que um ou outro esteja equivocado, aceito; mas todos? — olhou ao redor e franziu a testa.
Nietzsche não reagiu.
— O problema não está aqui — o filósofo apontou o peito — nem aqui — tocou a têmpora com o indicador. — Colocarei o dedo na ferida, de modo heróico porém não agressivo — doce como Wagner antes do último acorde.
Silêncio.
— Ousado, resta saber se será tão bom quanto ele — interveio Camus.
— Não queira provocar outro desmaio, Nietzsche, tenha sensibilidade. Nossos corações não resistiriam… — sorriu Einstein.
— Isso depende do quanto vocês estão dispostos a me ouvir.
As taças ficaram imóveis no ar. Ninguém bebeu.
— Não os culpo. Quem nasce no barco chama a correnteza de chão. Vocês ainda são crianças no fluxo da civilização.
A brasa na lareira chiou. Ninguém respirou.
— Você, sacerdote — Nietzsche apontou para Lemaître — e vocês, cientistas — indicou Sagan, Galileu e Einstein — iludem-se da mesma forma. Sobre a terrível consequência que Sagan mencionou, e que tanto os afligem…— Nietzsche inclinou o tronco.
— Do que se trata essa energia nuclear? Essas... bombas?
A lareira assoviou.
— Energia do núcleo do átomo — disse Lemaître. — Uma besta primordial, acorrentada, agora liberta.
Galileu estremeceu e empalideceu:
— Mais potente que a pólvora negra? Percebo que a humanidade não estará livre da violência e ignorância! Ao mesmo tempo belo e terrível.
Einstein soltou uma baforada lenta de fumaça trêmula.
— Não sei como será travada a Terceira Guerra Mundial, mas posso lhes dizer o que usarão na quarta: pedras.
A lareira respondeu com um estalo seco.
Einstein continuou, os olhos vermelhos de vigília. Ele retirou a mão da mesa.
— No final, resta a aniquilação. Não mais confio na benevolência humana — prosseguiu, sem erguer o olhar.
Lemaître apoiou as mãos na mesa, firme:
— O mal está na ciência? Ou em nós?
Sagan respirou pesadamente.
— A ferramenta é neutra. A mão, não.
Einstein fechou os olhos.
— Todos sabem que sou pacifista e me oponho severamente ao uso da arma atômica. Cometi um grande erro em minha vida... assinei a carta ao presidente Roosevelt avisando que os nazistas poderiam desenvolver essas armas. — Ele baixou a cabeça.
Ergueu a mão. Não tocou na taça.
— Esse perigo era real. Se eu soubesse de antemão que os alemães não teriam sucesso em desenvolver a bomba atômica, eu nunca teria feito nada.
— Os alemães…? — Nietzsche franziu a testa.
Lemaître disse com delicadeza:
— A omissão também é uma escolha, meu amigo. E às vezes é a pior delas. Essa é a nossa obrigação paradoxal: ser livre para escolher. O que você fez, Einstein… não havia outra forma de ser feito.
— O Reich participou dessa guerra? — insistiu Nietzsche.
— Sim, o partido nacional-socialista dos trabalhadores — os nazistas —, assumiu o poder e provocou uma guerra mundial para instaurar o III Reich — respondeu Camus.
Nietzsche levou a mão ao queixo e suspirou.
— Por isso sempre desprezei o patriotismo exacerbado. O nacionalismo é a decadência psicológica da Europa. Cria massas cheias de gente pequena, orgulhosas por procuração. — bufou — É o ressentimento coletivo com provincianismo cultural. É a moral do fraco, disfarçada de orgulho.
— E o fizeram exterminando sistemática e maciçamente os judeus, alemães ou não — completou Einstein, segurando o cachimbo — Chamamos de Holocausto.
— Repugna-me o antissemitismo. Prefiro me considerar sem pátria a ser cúmplice desses canalhas — disse Nietzsche, os lábios comprimidos. — O Estado é o mais frio de todos os monstros frios.
— E na corrida belicosa, nós, os americanos, bombardeamos e incineramos duas cidades inteiras. — Sagan falou, a mandíbula contraída.
Einstein correspondeu dizendo, cabisbaixo:
— Nem toda a ciência do mundo me consola.
Lemaître fez uma breve pausa antes de prosseguir:
— As sociedades oscilam como pêndulos. Prosperam. Declinam. Quando perdem seus valores, apodrecem. Onde tudo é permitido, nada floresce. As ervas daninhas tomam o jardim.
Nietzsche complementou alisando o vasto bigode:
— Trocam o amanhã pelo agora. O espírito degenerado.
Galileu arregalou os olhos opacos:
— Observei pêndulos quando jovem, ainda acadêmico na minha carreira frustrada em Medicina.— Galileu sorriu — Tudo oscila. As sociedades também. As forças que as movem determinam para qual lado será movimento. Mas ele é inevitável — e fez um gesto de ascensão com as mãos.
Sagan refletiu:
— A ciência e a tecnologia são neutras… elas precisam ser — a voz falhou. — Nem boas, nem más. Tecnologia sempre houve, desde que atritamos duas pedras.
— Nada humano é neutro — cortou Nietzsche.
— Então devemos parar?
— Devemos assumir o custo. Está disposto a pagar o preço?
Sagan se mexeu na cadeira.
— E posso provar, Sagan. Nada melhor do que escavar as raízes, por mais profundas que se enterrem. E nenhum mito as expõe tanto quanto o do pecado original — disse Nietzsche. — Nele, Lemaître e o cristianismo interpretam o conhecimento como soberba. O ato inaugural de uma era de culpa.
Agora quem se recostou à cadeira foi o sacerdote.
— A criação desafiou e usurpou algo antes reservado ao divino — disse Galileu.
— Ao comer do fruto mágico em sua mitologia…— Nietzsche continuou.
Galileu franziu a testa.
— ...adquirimos não um conhecimento qualquer — aliás, como bem sugeriu Lemaître — mas o conhecimento moral, do bem e do mal. — Nietzsche gesticulou — Ou seja, consciência. Essa autonomia lúcida é então punida exemplarmente. Nos coloca de joelhos.
Lemaître inclinou a cabeça.
Nietzsche continuou:
— E, de maneira muito engenhosa, Lemaître e sua religião não transfiguram vinho em sangue, mas conhecimento em moralidade, autonegando a vida.
— Continue — disse Lemaître.
— O pecado subordina, ajoelha o humano perante o divino, impede a sua auto-criação. Uma moral dos escravos para suplantar os fortes, os nobres. Da mesma forma que o Estado subjugou moralmente o indivíduo na sua guerra mundial. — Nietzsche umedeceu os lábios. — A busca por um “bem maior” coletivo, absoluto, resultou em tragédia.
— E relacionando com a religião… — interveio Ricardo.
— A religião também impôs uma estrutura de poder moral, que glorifica a obediência, que captura a nossa natural e vital vontade de poder e coloca-a como coleira para nos domesticar e culpar.
— Uma tradição cultural milenar… — iniciou Galileu.
— Uma degeneração cultural milenar — interrompeu Nietzsche, levantando o canto dos lábios. — Que foi inaugurada pelo pecado original em seu Gênesis.
— E porque havia dito que me iludi? — indagou Sagan, coçando a nuca.
— Vocês se incomodam com as consequências da sua ciência como um pai desaprova um filho desobediente. Mas o conhecimento não é bem supremo, tampouco mal supremo.
Sagan estreitou os olhos.
— Reconheceram, afinal, as suas teorias como instrumentos, por isso independentes de vossas vontades. — Nietzsche continuou, os olhos arregalados. — Mas o conhecimento não é neutro. Jamais foi, caro Sagan!
Sagan recostou-se.
Um odor adocicado invadiu o ambiente.
— Nasce, bem acabado e a termo, berrando a plenos pulmões a vontade de poder! Nasceria prematuro, fraco, se o fizesse pela vontade de descobrir uma verdade “pura”, desinteressada, como Einstein pensa. — Nietzsche elevou a voz.
O fogo na lareira se intensificou.
— Falta-lhes o saber primordial da ciência: entender que ela não nasce da ingênua curiosidade ou admiração pelo cosmo, mas é parida da vontade de Poder! Poder!
Sagan estava boquiaberto. Einstein quase deixou cair o cachimbo. Galileu apoiou as mãos na mesa.
Nietzsche, os olhos negros e profundos, finalizou:
— A ciência não é a nêmesis da religião. É sua herdeira.






