Não sou nada.
Nunca serei nada.
Não posso querer ser nada.
À parte disso, tenho em mim todos os sonhos do mundo.
Fernando Pessoa.
Um rápido olhar nada revelaria de extraordinário.
A madeira marcada. O calor ainda emanava da lareira extinta. As xícaras, algumas cheias, outras esquecidas.
Tudo permanecia no seu lugar.
Ainda assim, o exame minucioso dos convidados revelaria estranheza e perplexidade — exceto em um dos cavalheiros. Havia uma hesitação quase imperceptível, como se algo inesperado tivesse acontecido — e que nunca mais poderia ser repetido.
Nietzsche lançara a pergunta. Não como curiosidade casual. Como desafio. Havia uma premência, uma fome inquiridora naqueles inevitáveis olhos negros.
— Uma entidade lhes propõe o limite da experiência humana…
A pausa, um ator que testa a plateia, esticando a expectativa antes do final do ato.
— Se tivessem que viver esta mesma vida, infinitas vezes, exatamente como é... aceitariam o eterno retorno?
Soprou o vapor da xícara recém servida, formando redemoinhos.
O gesto era calmo, quase indiferente.
O olhar percorreu a mesa até repousar no sacerdote e seu crucifixo.
— Chamariam essa entidade de Anjo... ou Demônio?
Lemaître percebeu, e levou a mão ao peito. Por instinto.
— Não exijo respostas imediatas. Pensar produz vertigem nos ossos e náuseas no estômago.
Nietzsche levou a xícara aos lábios.
— Eu…
A palavra do sacerdote não veio inteira. O crucifixo girava entre os dedos.
— Eu vi homens morrerem sem entender por quê.
Lemaître olhava para a mesa sem vê-la.
— Éramos apenas jovens. Enviados para matar outros jovens no inferno das trincheiras.
Parou.
O ar falhou por um instante.
Os lábios se contraíram.
— Como posso, Nietzsche, querer viver isso outra vez?
O filósofo não se moveu. A voz saiu rouca.
— É disso que se trata, padre. Do que passa…
— E mesmo assim, afirma.
As brasas ardiam na lareira.
A face de Lemaître tornou-se carmesim, a cor ampliada pela lente dos seus óculos.
Nietzsche limpou a garganta.
— É necessário, Lemaître. É necessário — arregalou os olhos negros como carvão — que haja muitas mortes amargas em vossas vidas.
Lemaître contraiu as pálpebras, os vincos do seu rosto acentuados pela luz avermelhada.
— Por que, Nietzsche? — Camus cruzou os braços.
— Assim defenderemos o efêmero com unhas e dentes. — Nietzsche agitou o café — Criar é a emancipação da dor e o alívio da vida.
Lemaître bateu com o punho na mesa.
— Qual, dentre todas, é a tragédia mais amarga? Querem saber? — Lemaître atropelou as palavras. — Pois eu sei!
— É aquela que ocorre com o melhor possível do ser humano, nos olhos carregados de paixão de sua esposa e no abraço de sua filha.
Fitou Nietzsche.
— Acontece quando essa vida é interrompida sem qualquer aviso.
Virou para a lareira, encarou a cor rutilante das brasas.
— Do rosto cheio de saudade, é arrancado aquilo que nos torna humanos! — As mãos trêmulas de Lemaître sequer conseguiam segurar a xícara.
— Mas não, a vida não se esvai antes de murmurar… em meus braços encharcados do seu sangue, que as ama.
Engoliu em seco.
— Tentou dizer o nome da filha…
— Não conseguiu.
Ao fundo, um banco arrastou no chão — o som áspero durou mais do que devia.
— Você chama isso de teste? Eu chamo de condenação.
Lemaître pela primeira vez sustentou o olhar de Nietzsche.
— Vamos, me fale! Muitas mortes, é o que você diz. Viver a absoluta loucura humana, infinitas vezes?
Os dedos apertaram o crucifixo.
— Se isso retorna… nada é redimido.
Repousou as mãos na mesa.
— E eu não posso aceitar um mundo onde não haja redenção.
Nietzsche inclinou levemente a cabeça.
— Então você ainda espera.
O silêncio permaneceu.
— Não sei se espero.
A chama da lamparina vacilou brevemente.
— Eu não aceito que isso seja tudo.
— Sangue e lama misturados, padre? — perguntou o garçom.
No balcão, o som cortante do atrito entre metal e louça demorou a cessar.
Lemaître suspendeu a fala.
O vapor já não subia da xícara.
As rubras brasas aquiesciam. As cores transmutaram-se em tons de violeta, curiosamente refletidos no cristal ao centro da mesa.
— A vida pesa. — Nietzsche pousou a colher — Não se curve tanto. Somos todos asnos de carga.
A colher tocou o pires. O som permaneceu um instante além do gesto.
O contorno da porcelana branca tingia-se violeta.
Lemaître virou-se. O garçom ainda o observava. Sem piscar.
O olhar era o mesmo. Já o tinha visto antes.
Ricardo não estava servindo ou anotando. Estava examinando a reação de Lemaître às suas palavras:
— Todo esse horror... ele continua. Quanto sangue ainda à lama sedenta?
Um copo foi erguido no balcão. Ninguém brindou.
O padre se mexeu na cadeira.
Desviou o rosto.
Veio-lhe a imagem — não sabia se memória. Ou outra coisa.
Um rosto suspenso, os braços abertos. Olhava para baixo; a tempestade assomava acima do monte.
Não havia julgamento nele.
Tampouco acusação.
Apenas um pedido — mas não para si. Não para si.
Piscou.
Outro rosto. Mais próximo. Aninhado nos seus braços.
Sentia a respiração falhar.
Tentando falar.
Os lábios pálidos.
Sem raiva. Sem ressentimento.
Sangue.
E lama.
— As amo…
Só isso.
Tudo isso.
Antes de se apagar.
Uma gota escorreu pela lateral da xícara, lenta.
Nenhuma raiva.
O mesmo olhar.
Sagan inclinou-se levemente.
— O sofrimento é bom, então?
Ninguém respondeu de imediato.
— Não, Sagan, não. — disse Lemaître.
Respirou fundo.
— Mas pode revelar.
— E transformar — ousou o garçom.
A chama manteve-se firme.
— Talvez você tenha visto demais, cedo demais. — sugeriu Camus, suavemente. Passou o polegar pela borda da xícara, sem olhar para ela.
— Se tentar compreender o sofrimento, fracassará. Uma experiência aberta ao sentido, ou sem sentido?
— Nenhuma ciência ou teologia vale a lágrima de uma criança — Sagan acenou para Camus.
Um pano foi torcido atrás do balcão. O som sufocado quebrou o ar por um instante.
As brasas na lareira quase cederam, e a luz dourada das lamparinas dominou a ambiente.
— Aceito o real como ele é. — Lemaître permaneceu imóvel — Não o transformo em ilusão. Não há como ignorá-lo, mas também não o justifico.
— O mundo não responde — Camus insistiu. — Ele continua. A dor existe à nossa revelia.
Uma cadeira rangeu ao fundo.
— Eu sei.
Lemaître alinhou os ombros.
— Mas isso não esgota o ser humano. Ele vai além da dor; ela não o define nem o limita.
Nietzsche ergueu ligeiramente a sobrancelha:
— Então você aceitaria?
O silêncio voltou. Mais denso.
— Não é isso.
Lemaître passou a mão pela testa. Uma marca de suor ficou na pele.
— É um teste… talvez o maior deles.
Fez uma pausa.
— Mas não é sobre repetir.
— Não? — Nietzsche estreitou os olhos por um segundo.
Procurou as palavras. Sem pressa.
— É sobre não perder.
Uma gota caiu da borda da xícara.
— Nada.
Camus o observava com atenção.
— Nem isso? Nem a dor?
Lemaître sustentou o olhar. As mandíbulas contraídas.
— Nem isso.
O pano voltou a deslizar sobre a madeira em círculos amplos.
— Somente assim o que é vivido pode ser plenamente assumido. E transformado.
Ricardo abriu o caderno. Leu, hesitante:
Habito por trás dos olhos cegos/ Nada, senão o instante, me conhece./
A voz quase falhou.
Quanto pouco falta para o fim do futuro./
Parou.
Depois:
Ínvito apresso/ O moribundo passo.
— Então você não revive. — disse Nietzsche.
— Eu atravesso. — Lemaître expirou.
A resposta veio sem esforço.
Ricardo retirou o lápis detrás da orelha e riscou os últimos versos.
Ínvito apresso/ O moribundo passo.
— Mesmo que o horror não tenha sentido em si, e não me defina, — Lemaître se voltou a Camus — a dor é inescapável e precisa ser atravessada.
Voltou-se para Nietzsche.
— E eu disse atravessada, não revivida.
— Sem ressentimento? — Sagan inclinou-se em direção ao padre, quase um sussurro. — Nenhuma raiva?
A colher girou no fundo da xícara vazia.
— Permanecer nisso é ficar…
Tocou o crucifixo.
— Ficar preso. É repetir.
As brasas cederam de vez.
A luz vinha das lamparinas. Firme e dourada nas lentes de Lemaître.
— Em um eterno retorno. Não enfrentaria o sofrimento, apenas o congelaria como definitivo.
— Já chamaram suas ideias de radicais — continuou, voltando-se para Nietzsche. — Mas há algo ainda mais difícil. O verdadeiro sobre-humano, superado.
Nietzsche havia terminado seu café amargo. Lemaître levantou a cabeça:
— Não deixar a dor se tornar veneno.
Camus assentiu, quase imperceptível:
— O maior abismo está em nós.
— O perdão? — perguntou Ricardo.
Lemaître negou.
— Mais que isso.
O silêncio se alongou.
— Amar.
Levantou os olhos.
— O inimigo.
Um copo foi pousado no balcão. Ninguém olhou.
— Essa é a ideia mais radical de todas. E o seu amor fati — não querer que nada seja diferente… também é um sim.
— “Seja feita a tua vontade” — Galileu sorriu.
— Ele se recusou a fugir. Não rejeitou o sofrimento.
Nietzsche apoiou os dedos no pires.
— Não há redenção na dor, padre. Amor fati sem metafísica.
— Mas eu não estou sozinho nisso. — Lemaître esboçou um sorriso.
Por um instante seus olhos buscaram o garçom.
— A dor pode ser atravessada.
Mais lamparinas foram acesas, iluminando a mesa.
— E não precisa voltar intacta.
Nietzsche levantou o indicador do pires.
— Sem redenção.
— Sem negação. — Lemaître disse quase em uníssono.
A chama manteve-se firme.
— Então você não repetiria — o filósofo insistiu.
— Eu responderia.
Galileu alisou a longa barba branca com os dedos nodosos.
— Se tudo se repete, nada é resolvido. Somos responsáveis pela... transcendência de nós mesmos — atravessamos o deserto com nossos próprios pés.
Camus contraiu o queixo.
— Ambos são radicalmente honestos.
Einstein, em um sobressalto — quase um pensamento em voz alta de alguém que parecia adormecido:
— Ambos afirmam o eterno!
Afirmou com os olhos joviais:
— Há algo que permanece, enfim.
Nietzsche tocou o pires.
Nada disse.
A unha bateu levemente na porcelana — uma, duas vezes.
Seco.
Lemaître não desviou o olhar.
Ninguém cedeu.
Não foi preciso.
Einstein se inclinou para Camus, como em uma confidência:
— Afirmam o real sem reduzi-lo.
Ao fundo, a porta abriu. Ar frio entrou. E cessou.
Galileu novamente recitou:
— Cum duo pugnarent, victor uterque fuit.
— Quando dois lutaram… — Ricardo guardou seu caderno.
A chama não vacilou.
O vapor não voltou.
Por algum tempo ninguém falou.
Tudo permanecia no seu lugar.
E, ainda assim, algo não podia mais ser repetido da mesma forma.
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Você viveu de tal modo
que nada precise ser repetido
para ter sido pleno?
— atrás do balcão, o gerente anotou discretamente no verso de um cartão postal amarelado.






