Profunda é a sua dor e a alegria mais profunda
do que o sofrimento!
A dor diz: Passa!
Mas toda alegria quer uma profunda, profunda eternidade!
Friedrich Nietzsche – Assim falava Zaratustra.
Il découvrait qu`il avait été heureux, et qu`il ne le savait pas.
Ele descobriu que tinha sido feliz, e não sabia.
Albert Camus — Le premier Homme.
Camus encolheu-se, defendendo-se do ar frio que entrara pela porta.
— Havia dito que você viu demais, cedo demais, caro Lemaître.
O vento gélido entrou antes de ser percebido.
Ergueu os olhos instintivamente para a entrada, mas não conseguiu ver a figura que havia adentrado a Taverna.
— Mas quando não se vê — ou não se ouve — aquilo que deveria ser visto ou ouvido…
A porta maciça ainda oscilava no batente.
Soprou as mãos para aquecê-las.
— A marca pode ser ainda mais profunda.
Lemaître recolheu os braços.
O frio parecia ter vindo para permanecer.
Einstein acendeu seu cachimbo. A brasa iluminou seu rosto, acentuando os vincos da idade.
— Perdi meu pai muito cedo. — Camus esfregava as mãos. — Ele lutou na Grande Guerra, a mesma em que você lutou, Lemaître.
— Nunca voltou.
As xícaras continuavam abandonadas.
Lemaître comprimiu os lábios.
— Mas não se sente falta do que nunca se teve, não é mesmo? — Camus repousou as mãos na mesa. Segurava a borda como se a medisse.
A fumaça ascendia do cachimbo, confundindo-se com os cabelos grisalhos de Einstein:
— A vida pesa.
— Passei minha infância na pobreza extrema. — Camus pigarreou. Os dedos ainda em contato com a borda da mesa. — Minha mãe era… surda.
— Nunca aprendeu a ler. Não havia livros em casa.
Deslizou os dedos sobre a madeira.
— Mas, além do silêncio… — as mãos se encontraram à sua frente.
Uma névoa opaca começou a se acumular.
— Um absoluto silêncio…
Apenas a fumaça parecia se mover sobre a mesa.
— Havia algo mais. — Camus levantou o rosto, franzindo a testa em um esforço.
A fumaça subia sem pressa.
— Quando olhava para ela, ali, sentada num canto — acenou vagarosamente para o vazio — olhando pela janela, sentia que havia…
Voltou a olhar para a mesa.
— Luz.
A voz áspera de Camus preenchia a Taverna.
— Que não vinha de fora — arregalou os olhos — vinha… dela.
— Luz? — Nietzsche estreitou os olhos densos — Ou apenas o hábito de não olhar para o negro abismo?
— Olhei o suficiente para não precisar dele todo o tempo — disse Camus.
— Tudo o que fui, e o que sou, vem desse silêncio.
Lemaître afastou sua xícara vazia.
— A realidade não responde, muda aos nossos chamados. Você sempre afirmou isso.
Nietzsche inclinou-se levemente, erguendo o indicador:
— Ou o absurdo silêncio da tragédia da vida. — alisou o extenso bigode — Silenciosa como o fundo do meu mar… com monstros e sonhos abissais.
Camus permitiu-se um discreto sorriso.
— Descobri com ela que o silêncio pode não ser vazio.
— O perigo não é o vazio. É transformá-lo em virtude. — Sagan até agora observava Camus.
— Havia significado naquela falta. — Einstein retirou o cachimbo dos lábios.
— Mesmo que o mundo — o meu mundo — não respondesse, havia em minha mãe, surda e analfabeta, a presença plena. — Camus levou a mão espalmada ao peito — Não explicada, mas sentida.
A névoa branca produzia halos de luz ao redor das lamparinas.
Camus desviou o rosto, os olhos embaçaram.
— Definitivamente não havia vazio naquele silêncio.
A luz branda encontrou seu rosto.
Inspirou.
— Podíamos ser miseráveis, mas não estávamos reduzidos à falta. Minha mãe estava ali — simplesmente estava.
Voltou a encarar os outros.
— E isso bastava.
O ar parecia menos pesado.
Nietzsche recostou-se.
— Sorte sua ter descoberto o silêncio logo cedo, Camus. Assim o tumulto da vida não o afligiu.
Camus sorriu condescendente para o filósofo.
O garçom retirando as xícaras, recitou em voz baixa:
Aguardo, equânime, o que não conheço —
Meu futuro e o de tudo./
No fim tudo será silêncio, salvo/
Onde o mar banhar nada.
Nietzsche reverberou:
— No fim tudo será silêncio.
O filósofo inclinou o rosto, como se desvelasse um segredo:
— Por isso nosso querido Camus desvendou o enigma da realidade e o deixou nu — já o conhecia desde tenra idade.
— Nem todos suportam viver sobre o vazio — Sagan se dirigiu à Lemaître — O real, sem fuga ou… — Sagan hesitou, tamborilando os dedos.
— Ilusão — interviu imediato Nietzsche.
— Isso. Sem fuga ou ilusão; a criança exposta à realidade sem justificativa. — agora dirigia-se a Nietzsche.
— Seria seu Amor fati — amor ao destino — precoce?
— Não espere chegar ao topo da montanha com um passo apenas. — Nietzsche se acomodou à cadeira. — E Camus decobriu cedo que o silêncio que cala a verdade torna-se venenoso.
— Mas não foi isso o que fiz. — Camus respondeu.
— De modo algum, meu caro. Você não precisou preencher de sentido a falta — onipresente na sua infância. — A presença bastava.
— Talvez tenha percebido tarde demais que tinha sido feliz. — Camus apoiou o queixo na mão.
Galileu, instigado pela abertura de Camus, arriscou em tom cordial:
— Arrependimento é lamentação, não aprendizado. E pelo pouco que pude ouvir — embora não possa vê-lo — Galileu sorriu — você é o porta-voz da lucidez resignada.
— Até antes da Taverna, sentia revolta lúcida diante do absurdo da existência. — Camus suspirou — Agora… eu não rejeito mais. O absurdo torna-se habitual. Simples.
Ninguém apressava o momento.
Galileu interveio:
— Simplex sigillum veri.
— A simplicidade é a marca da verdade. — Lemaître traduziu.
Nietzsche percutiu a mesa, como um tambor:
— Tudo o que é simples é falso. — fez uma pausa e sorriu — Não é isso duplamente falso?
— Nietzsche, você fala por enigmas. — exasperou-se Sagan.
— A língua germânica esclarece: Einfache é um, simples. Zwiefache, o duplo, usado para mentira. Alles Einfache ist falsch.
— Nietzsche e seu jogo de palavras. — Sagan balançou a cabeça. — Concordo que ao tentar tornar algo claro, inevitavelmente simplificamos — e talvez traímos o próprio sentido.
Einstein piscou para Nietzsche:
— Também sei jogar. A verdade não está na simplificação. O que não quer dizer que não busco a verdade na simplicidade.
Sagan concordou.
— Falta-lhe o derradeiro passo para o eterno retorno, Camus — Nietzsche franziu a testa.
— Só espero que não pise no seu abismo particular. — Sagan cruzou os braços.
— Olho para ele em silêncio, não fujo dele. A felicidade não está nos momentos grandiosos, nem nas escolhas decisivas. — Camus manteve-se ereto — Está lá, acanhada, no que passa despercebido.
O rumor da Taverna voltou, baixo.
Os olhos de Camus percorreram a mesa.
— Na luz da manhã que entra pela janela.
Respirou.
— Na ausência de palavras, mas não de compreensão.
Abriu um sorriso.
— Na simples continuidade dos dias. É ali que a vida acontece.
Já não sentia mais frio.
— Podemos ser felizes olhando para o passado?
Einstein terminou de tragar seu cachimbo:
— Não há uma tragédia aí?
— Não tive consciência da minha felicidade, mas o valor já estava lá. — Camus dirigiu-se ao garçom:
— Não se compreende o mundo só com a inteligência, não é mesmo, Ricardo?
— Se não há sentido construído, devemos viver antes disso. — Ricardo inclinou-se.
— E como Camus não recebeu quase nada além da sobrevivência... — Lemaître continuou.
— Viveu apenas com a presença. Pôde ver a luz mesmo na ausência de significado.
O garçom recolheu a última xícara.
— Resta somente a vida.
— Um começo.
E retirou-se.
Mais tarde, solitário, escreveria para abrandar a sua angústia:
Somos estrangeiros
Onde quer que moremos.//
Onde esconder-nos, tímidos do insulto
Do tumulto do mundo.
Rasgou a folha, amassou-a e a jogou no lixo.
Como quem diz: Passa!
Estava satisfeito. Ou aliviado, não sabia.
Aliás, sabia muito pouco sobre tudo e sobre si mesmo.
No canto da página, suas iniciais se despediam:
RReis
--- ---






