The internal dialogue that is thought is the war between competing personalities, in the theater of the imagination, and the death of the losers.
Jordan B. Peterson
Um dia, num restaurante, fora do espaço e do tempo
Serviram-me o amor como dobrada fria.
Álvaro de Campos. Heterônimo de Fernando Pessoa.
As sobremesas foram escolhidas não apenas pela época dos convidados. O sabor revelava o temperamento de cada um. O garçom não trazia pratos; trazia retratos:
— Panna cotta com figos e melato, tradição mediterrânea, suave… quase austera, para Galileu. — anunciou Ricardo — Delicado, mas firme; seu sabor resiste quando julgado. Do Piemonte — mas o mel é raro e escuro, melato de bracatinga.
— Apfelstrudel, complexo sob aparência caseira. Para Einstein — camadas sobre camadas, como o espaço-tempo curvo. — O garçom depositou o prato retangular. — O gênio escondido sob a simplicidade. Dizem que é possível ler uma carta de amor através da finíssima camada da massa folhada.
— Crème brûlée — Ricardo utilizava o maçarico — Crosta rígida produzida pelo fogo, mas interior cremoso. Para Sagan. Razão luminosa sobre um coração humano. — Cobriu o doce com morangos e mirtilos da Serra Catarinense.
— Tarte de amêndoas com laranja amarga, também mediterrânea, doce com leve amargor. Para Camus. — Sabor solar, lúcido, porém sóbrio.
— Tarte Tatin, caramelo profundo, confeccionada invertida que, ao virar, revela harmonia com as frutas no topo. Para Lemaître, nosso sacerdote e físico. A ordem que emerge da inversão.
— Para Nietzsche, chocolate amargo com cerejas escuras. Dispensa explicações.
— Espero que apreciem!
— Um doce para poucos — emendou Einstein, os olhos matreiros.
— O prazer e a dor estão indissociáveis, caro amigo. — Nietzsche já apreciava a iguaria.
— Você afirmou que a ciência é herdeira da religião. — Sagan partiu a crosta caramelizada para atingir o creme. — Que ela não nasce da admiração pelo universo, mas da vontade de poder. O cientista, Nietzsche, quer ver o mundo com objetividade, como ele é, com…
— Com uma castidade intelectual — cortou o filósofo — Você busca a pureza cognitiva, assim como o sacerdote se martiriza contra o impulso sexual.
— Não é uma imposição. É uma escolha. — Lemaître repartiu a torta.
— O corpo se torna objeto de culpa; o instinto, de vigilância. Como no mito da queda do paraíso. Sentem vergonha ao perceberem o corpo nu. — Nietzsche se deliciava com seu chocolate — O homem e a mulher voltam-se contra si, suprimindo os instintos.
— Uma escolha consciente, assim como a busca do cientista pela verdade. — Lemaître pousou a colher na borda do prato — Mas de que forma a ciência sucede a religião? Tratam de campos distintos da necessidade humana. É o como e o porquê.
— A ciência é a teologia sem Deus — Nietzsche inclinou a cabeça.
— Entretanto — e sem ofensa, — Einstein contraiu o cenho — acho desagradável a atitude do ateu arrogante que deprecia quem crê em Deus — o físico fatiou o Strudel, revelando as linhas de um vórtice. — Esses ateus fanáticos, frequentes entre os cientistas, são escravos que ainda sentem o peso das correntes das quais se livraram a duras penas.
— Os grilhões são apertados, e a liberdade de pensamento é a chave mestra. — Sagan saboreava um mirtilo. — Séculos de perseguição podem provocar certo rancor...
— Que os impede de ouvir a música do cosmo. Fico furioso quando me citam para corroborar opiniões ateístas — Einstein levantou o garfo.
Sagan anuiu com um discreto sorriso:
— Então o senhor acredita em Deus?
— Acredito no Deus que se revela na legítima harmonia de tudo que existe, que se mostra nas leis do universo. — Einstein repousou o garfo. — Creio em um espírito imensamente superior ao do homem. Tenho um sentimento de humildade e reverência diante dos segredos incompreensíveis do cosmo.
— Nem todos os seus colegas da academia entenderam essa sua… atitude, não é mesmo? — pigarreou Lemaître.
— De fato. Para mim, a atividade científica leva a uma sensação religiosa especial, totalmente diferente daquela ingênua que acredita em um ser superior com interesse pelo destino. Ou intrometido em nossas ações.
— Então Einstein é religioso. Estou surpreso — Camus sorriu.
— Sou um descrente profundamente religioso, Camus — riu-se Einstein — Venero essa força racional para além de qualquer coisa que possamos compreender, de uma grandiosidade que só chega a nós de modo indireto.
— Será isso a que você se refere, Nietzsche, quando fala que a ciência é filha do cristianismo? — Camus saboreava a sobremesa.
— O cientista é o novo sacerdote da Verdade, com “V” maiúsculo. Assim como temo o padre que ama, desconfio do cientista que é obcecado pela Verdade. Paixão e obsessão andam de mãos dadas… só quem já amou alguém sabe.
O olhar de Nietzsche ficou suspenso por alguns segundos.
— A verdade a qualquer custo nega a estética do viver tanto quanto a moral cristã.
— E porque o cristianismo nega a vida, Nietzsche? — Galileu inclinou-se para frente.
— A religião é hostil à vida, Galileu. O sacerdote ilude com a vida simples, em pobreza e jejum, mas reinterpreta o sofrimento como culpa, o desejo como pecado. — Nietzsche usou o guardanapo — Esta maneira pela qual somos domesticados chamo de ascetismo. E você sentiu na pele a negação da potência, do corpo e do instinto — do mundo, enfim. — Dobrou o linho com traços marrons em seu colo. — O ascetismo religioso é a vontade do Nada travestida de transcendência. Por acaso não o obrigaram a se curvar e a negar a verdade?
— Toda a ciência se ajoelhou perante o clero naquele tribunal — Sagan serviu-se do morango. — Você rompeu o casca da crença e mostrou pelas rachaduras um novo mundo. Foi punido pelo conhecimento como Adão foi castigado pelo Deus irado.
Galileu expirou profundamente.
— Diferente de Adão, não tive escolha. Não se pode obrigar surdos a ouvir sua canção.
— Mas não havia como realmente condená-lo, Galileu — Camus mordiscava uma amêndoa. — Porque no fundo os religiosos sabiam que você se tornou autor, não apenas obra. Passou de criatura a criador. E eles o temeram por isso.
— Porque você despertou. — Nietzsche alisou o bigode. — Comer o fruto do conhecimento é aumentar o domínio sobre o mundo, mesmo que desobedeça à tutela divina para afirmar a própria medida. Seus algozes sabiam que era irreversível. — O filósofo estreitou os olhos. — A Igreja transforma em pecado o gesto de potência, de autossuperação. Você é testemunha disso.
— O caso de Galileu comprova que a ciência finalmente superou — e não herdou — a religião. — Sagan franziu a testa.
— É tentador pensar assim, mas devo dizer que não. — respondeu Nietzsche. — Agora, o nó da questão. — O filósofo conseguiu sorrir — Vocês pensam que esse ascetismo é somente religioso?
Sagan e Lemaître cruzaram os olhares.
— Meus caros, ele não é monopólio da religião.
Lemaître encarou Nietzsche por alguns segundos, e o seu imóvel sorriso calou o filósofo.
— Nietzsche, a ascese no sentido cristão é disciplina para dominar a si, seu corpo e seu desejo. É renunciar a algo com uma finalidade superior. — O sacerdote levou os dedos à boca. — O jejum. Não é castigo; é liberdade interior. O sacrifício que nos aproxima do sofrimento de Cristo.
Lemaître levou as mãos ao peito.
— Abre espaço dentro de nós — para Deus e para o outro. Não é odiar o mundo, Nietzsche. É amá-lo corretamente
— Nem só de pão vive o homem — Ricardo se aproximou.
— A fé busca sentido para o nosso sofrimento. Traz significado para a simples e mundana condição humana. — Lemaître desfez o sorriso — É uma resposta existencial ao mistério. Porque, mesmo sendo filho do Altíssimo, Cristo sofreu como nós sofremos a dor da carne… e o fez por nós.
Os olhos de Lemaître embaçaram. O pescoço pulsava.
— Você — o cientista da origem do Universo — ainda precisa de sentido — Nietzsche se mexeu na cadeira.
Lemaître inspirou. Retirou os óculos.
— Não preciso de sentido. Preciso de rigor. Minha batina não me impede de aceitar um universo indiferente. — Limpou as lentes com um lenço. — Mas ainda assim brutal, onde a fé me suporta.
Os lábios de Nietzsche formaram uma linha reta:
— Sua teoria foi um ato de fé disfarçado?
— A ciência não prova — nem refuta —Deus. A origem cósmica é questão física, não metafísica, nem teológica.
Nietzsche voltou a comer.
Lemaître recolocou os óculos redondos:
— Não tento dar sentido ao universo pela ciência. Mas também não abandono o transcendente.
— Dualismo conveniente — Nietzsche lambeu os lábios.
— O universo material não resolve a fome humana de sentido — nem precisa resolvê-la. — o sacerdote sorriu para o garçom — Nem só de pão...
— Mas a ciência não ultrapassa o dogma religioso quando exige evidências frias e imparciais? — Sagan tamborilava a mesa.
— A ciência também necessita de criatividade, não se esqueçam. Como as artes. — Einstein se serviu do último pedaço do Strudel — Sou artista o suficiente para recorrer à minha imaginação à vontade.
— Ora, então temos um Einstein religioso e artista. — brincou Camus.
— A imaginação é mais importante que o conhecimento. Este é limitado. A imaginação abarca o mundo — Einstein abriu os braços. — Se admirar e ficar enlevado e pasmado está no berço de toda verdadeira arte e ciência. Por mais que tenha nascida da vontade de Poder — piscou para Nietzsche — aquele que desconhece essa emoção já está morto… é uma vela apagada.
— De acordo — Nietzsche pousou a colher — porém o pensamento criativo busca a verdade objetiva; a razão pura almeja o cosmos ordenado.
— A busca pela verdade é mais preciosa do que a posse dela. — Einstein apoiou os braços à mesa.
Sagan anuiu.
— Vocês têm a Verdade pela razão como substituto de Deus. — Nietzsche juntou as mãos como se estivesse rezando. — A causalidade no lugar da previdência. O erro ao invés do pecado. O conhecimento definitivo é a salvação. O cientista é o novo sacerdote. — fez o sinal da cruz com a colher.
Einstein ajeitou o guardanapo sobre seu colo, mas não respondeu.
Lemaître evitou olhar para Nietzsche, que devolveu a colher ao prato.
— No altar, o monge laico calcula o sentido matemático do mundo, abençoado pelo Espírito Santo da neutralidade total.
Sagan começou a falar, mas interrompeu-se e molhou os lábios com água. Forçou a voz:
— E qual o problema, Nietzsche, dessa evolução do pensamento, substituindo dogmas por provas?
— A questão é que isso não emancipa o ser humano. São projetos absolutos com nova roupagem.
Einstein afastou o prato alguns milímetros.
Nietzsche olhou para as cerejas em sua sobremesa amarga:
— Sempre que a vida é sacrificada em nome de um valor “superior”, nasce o ascetismo. No caso do sacerdote — apontou para Lemaître com a colher — o valor é Deus. No caso do cientista — indicou Sagan, Einstein e Galileu — o valor é a Verdade. Mas poderia ser o Estado, a Humanidade, ou a Moral, tanto faz. — olhou para Camus — Ascetismo político, filantrópico, ou filosófico, o resultado será sempre o mesmo.
Camus endireitou a gola, mas não respondeu.
— Em nome da Humanidade, de uma Utopia revolucionária, quantas pessoas foram descartadas?
Agora se ouvia apenas o crepitar baixo da lareira. Todos olhavam para Nietzsche.
— Um cientista que ignora consequências humanas por mais evidências.
Sagan cerrou o lábios. Permaneceu em silêncio.
— O homem asceta que nega a vida é mais perigoso que sua besta primordial, Lemaître.
O padre afrouxou seu colarinho. Os demais se entreolharam.
— Vocês descobriram a fonte da energia… — Nietzsche acenou para Einstein, que completou, continuando a mastigar:
— Atômica.
— Desejam café? — o garçom perguntou.
Nietzsche manteve o tom:
— Isso, mas não controlam as consequências, porque não comandam a vontade de Poder. A ciência gera poder que o cientista-sacerdote finge não assumir.
— A ciência não é inocente. Ela é poder.
E se virou para o garçom:
— Preto, sem açúcar.
O som de uma colher raspando o prato ecoou alto.
— Antes queimavam hereges. Agora incineram cidades inteiras. — O filósofo apreciava seu reflexo deformado na colher. — Meu impulso levou-me muito longe no futuro… um estremecimento de horror apoderou-se de mim — disse e olhou para Ricardo. — Vêem como o resultado é o mesmo, porém amplificado?
Silêncio.
Nietzsche provou as cerejas. Estalou os lábios.
— Cinzas.
Ricardo se aproximou retirando alguns talheres:
— “Tornei-me a morte, o destruidor de mundos.”
Einstein olhou fixamente para a mesa:
— Não foi para isso...— mas não completou a frase. Baixou o olhar.
Lemaître limpou cuidadosamente o canto da boca.
Nietzsche, o rosto duro, continuou fitando um a um:
— Por isso, sentes culpa pela ciência, Einstein.
— Tens fé que culpa, Lemaître.
A lareira estalou.
— Queres neutralidade sem limite, Sagan.
— Tens moral que limita, Camus.
— E o teu julgamento, Galileu, foi o batismo da ciência moderna.
— Todos vocês estão no mesmo drama herdado. É o rio em que todos navegam, ele é o ideal ascético.
Ninguém respondeu.
Nietzsche examinou a última cereja em seu prato.
— É a interpretação de todos os tempos, povos e homens para um único objetivo. É ele que dá sentido ao sofrimento e molda valores, todos como meros meios para seu fim.
Ergueu a cereja. Colocou-a sobre a língua.
— Sacrificam a vida — concreta, rica, contraditória, repleta de ilusões, paixões e erros… em nome de um absoluto.
— Ontem, Deus. Hoje, Verdade. Amanhã, outro ídolo.
— E estão presos, sem conseguir conciliar, entre o ascetismo da Verdade e as explosões de potência. É o retorno da moral no coração da ciência.
Esmagou a cereja entre os dentes. Um pequeno jato escarlate sujou a mesa.
— Vocês carregam culpa, esse insuportável peso esmagando seus ombros, todos vocês. Em uma torrente, são afogados pela vida concreta que ainda amam. Desesperados se agarram à neutralidade da verdade absoluta, somente para afundar novamente.
Repousou a colher e afastou o prato.
— A vida cobra caro sua negação.
A lareira se apagou.






