A vida, embora nada mais seja do que um repositório de misérias, me é muito cara, e eu a defenderei.
Mary Shelley. Frankenstein.
A ele, leitor dedicado, a quem concedeste, ainda vivendo e sentindo, a honra que raros poetas possuem após as cinzas.
Marco Valério Marcial – Epigrammata – Roma antiga
O garçom depositou as xícaras de porcelana uma a uma sobre a mesa. Logo o aroma quente de café se infiltrou na Taverna como um sussurro convidativo. Primeiro discreto, depois inevitável.
Mesclava-se aos resquícios almiscarados e cítricos das sobremesas abandonadas.
Havia uma mudança no ar.
Selava-se uma intimidade caseira entre os convidados sem que percebessem.
O calor do café dissolvia a distância entre eles.
E com a proximidade surge a franqueza.
A etiqueta, ainda presente entre os cavalheiros, já não governava mais a mesa.
Intencional ou não, os aromas e a luz acolhedora das lamparinas aliviavam a tensão entre visões de mundo separadas por séculos e por valores.
As ideias estavam sendo testadas como forças vivas, não como meros argumentos abstratos.
Consciências rivais digladiavam-se naquela simples e pequena Taverna.
Olhar no fundo dos olhos do seu contraditório expunha fissuras nas armaduras intelectuais envernizadas.
Mas havia mais do que isso.
Algo muito maior estava em disputa.
O que acontecia ali ultrapassava o comum. A menos que o destino de toda humanidade não fosse relevante. E não somente a humanidade atual. A de todas as épocas, de todos os tempos.
Os convidados, é claro, suspeitavam de um elemento subjacente, além do debate entre personalidades que marcaram a história.
Algo invisível e monumental.
Por que reuni-los em uma arena intelectual — e a que preço?
O que realmente estava em jogo ali não sabiam ao certo.
Aos gladiadores vencedores premiava-se a liberdade. E a eles, o que sucederia?
— Radical, Nietzsche. Suas ideias viram de cabeça para baixo nossa visão de mundo. — Camus saboreava seu café.
— Apenas revelo os cordéis que movem as marionetes. — Nietzsche franziu a testa. — Radical seria se, ao me dar conta do palco ascético em que estou, não quisera eu olhar para cima e encarar o titereiro oculto.
— Vivemos em uma Opera dei Pupi — suspirou Galileu.
— Continuo pensando que a ciência deva ser neutra em seus métodos. Assim produzimos evidências com rigor… — Sagan interviu.
— Rigor mortis moral. — Nietzsche esboçou um sorriso — A neutralidade é apenas técnica, Sagan, nunca moral. — bebeu o café amargo — E toda técnica é vontade.
Einstein completou:
— A ciência foi meu mosteiro. Já a política, o carrasco do meu cálculo.
— Então devemos nos abster de criar e descobrir, oras! — Sagan desafiou balançando a cabeça.
— O erro de vocês não foi descobrir. — Nietzsche pousou a xícara. — Foi acreditar que descobrir salva.
— O conhecimento nunca é neutro. É expressão de força.
Ele voltou a olhar para Einstein.
— A bomba atômica não foi um acidente.
— Foi a vontade de poder concretizada.
Os ombros do cientista baixaram.
— O títere se movimenta em uma ilusão de vontade própria. E eventualmente enrosca-se nos fios e se enforca. — Nietzsche fitou o breu do café.
— Você tem um coração muito duro, amigo. — Lemaître franziu o cenho.
O aroma do café de Minas recém-servido espalhou-se intenso pela mesa.
A discussão cessou por um instante.
— Então a ciência é falsa? — questionou Camus.
O olhar de Nietzsche estava fixo.
— Não, tampouco a religião. Mas ambas carregam as mesmas estruturas emocionais e morais.
— Prossiga — afirmou Lemaître.
— A razão é parte do jogo de forças. E vocês, sacerdotes, criaram um sistema de sentido para domesticar o forte. A moral é estratégia. Dos fracos.
Einstein alisou o bigode, acanhado em relação ao do filósofo. Girou a xícara lentamente:
— O esforço humano mais importante é a luta pela moralidade em todos os nossos atos. Somente assim conferimos beleza e dignidade à vida.
Nietzsche elevou o olhar.
— Os cordéis podem ser invisíveis, Einstein.
— Não aprovo a atitude positivista de “ser é ser percebido” de Berkeley…
— Esse est percipi — completou Nietzsche.
— Sim, só porque não vejo uma árvore na floresta não quer dizer que ela não exista, não é mesmo? — Einstein disse com um olhar amável.
Passou o dedo pela borda da xícara, distraído, como se procurasse ali uma fórmula:
— Mas todo o conhecimento da realidade tem seu início e término nela própria. A existência de um ideal despercebido que nos manipula me arrepia.
Nietzsche observou o tênue vapor em sua xícara.
O cientista prosseguiu:
— Senti na pele o perigo de um valor absoluto que se dizia acima de qualquer outro, inclusive da vida. Esse ascetismo ideológico é bem palpável nos governos nocivos que trazem dentro de si o germe da tirania.
— Do nazismo ao Stalinismo — Sagan apoiou a colher na borda do pires.
— E Macarthismo, na América, não se esqueça. — Einstein passou a mão sobre os cabelos revoltos — Quando jovem, vi os soldados da Prússia marchando em cadência e sincronia perfeitas. Aquilo me eriçou.
Einstein adoçou seu café com leite.
— Sinto minha liberdade tolhida em sua realidade moldada pelo seu ascetismo, Nietzsche. Preciso de liberdade como força vital para fazer florescer a criatividade. Liberdade como independência do pensamento. Por isso admiro Galileu, aqui ao nosso lado…
— Pela sua luta apaixonada contra qualquer tipo de dogma baseado na autoridade. — completou Sagan. — E eu disse qualquer, inclusive científico.
Einstein sorriu. Assim como Galileu:
— Não creio que o mesmo Deus que nos dotou de sentidos, razão e intelecto tenha pretendido que renunciássemos ao seu uso. — Galileu virou o rosto, os olhos opacos, em direção à Einstein — Investigar a realidade e decifrar sua matemática é desvendar o livro da natureza, escrito por Deus assim como a Escritura.
Einstein provou o café adoçado.
— E uma mente livre deve ser tolerante. E a tolerância só pode ser sustentada pela humildade. — o físico estalou os lábios. — O bom cientista é um rebelde nato.
— Oh! — Galileu se sobressaltou — Perdoe-me discordar. Não me considero um rebelde. Estou a favor d’Ele — o oposto do que os cardeais me acusam. Coopero com a obra divina ao usar os dons que me foram concedidos pelo Altíssimo.
— O cientista é uma mistura de humilde reverência diante do universo e repugnância visceral às autoridades. — disse Sagan.
— E um pouco perturbado também — Einstein riu e levou a xícara aos lábios.
— Perturbado? — Lemaître olhou curioso para o amigo.
— Claro, devemos questionar até mesmo os conceitos mais familiares que nunca chegam a perturbar a cabeça do homem comum!
— Ah! — Lemaître suspirou.
— Como busca a verdade pela ciência, Einstein? — perguntou Sagan, esvaziando sua xícara.
A colher de Einstein tocou a porcelana com um leve tinido.
— De início, ocorre um enorme salto adiante da imaginação. — seu olhar assumiu um novo brilho.
— É… uma iluminação súbita, sabe? Quase um arrebatamento. Tempos depois, a inteligência sem dúvida analisa, e os experimentos confirmam ou não a intuição.
— Da mesma forma surge a ideia para o poeta. — o garçom aproximou-se, servindo mais café, como um metrônomo silencioso da discussão.
— Diferente dos artistas, não tenho nenhum talento especial. Só uma curiosidade irresistível — Einstein agradeceu ao garçom.
Ricardo, após deixar cair a última gota do café, recitou:
Nasci sujeito como os outros a erros e a defeitos,/
Mas nunca ao erro de querer compreender demais,/
Nunca ao erro de querer compreender só com a inteligência,/
Nunca ao defeito de exigir do Mundo/
Que fosse qualquer cousa que não fosse o Mundo.
Os versos fizeram Nietzsche suspirar.
O vapor da bebida dissipou-se languidamente no ar morno da Taverna, enquanto as palavras continuavam a se acumular sobre a mesa.
— Cousa? — estranhou Camus, escritor experiente e curioso literário.
Ricardo emendou:
— Ai dos que não podem compreender que o oiro é brilhante e o ouro baço!
— A língua de Camões me impressiona. — afirmou Camus com sorriso jovial.
— E o conhecimento… — Sagan interviu.
— É uma racionalização da moral. — Nietzsche sentia o aroma do café, sem levantar o rosto — Não é uma forma de descobrir a verdade pura, caro Sagan, mas de expandir potência. Por isso, não é contemplativo, é interpretativo.
Nietzsche sorveu o café sem açúcar.
Como se aprovasse o amargor.
— Não é desinteressado, é funcional. Nem espelho do real é. Apenas é um meio... de dominar.
Einstein mexeu lentamente seu café com leite. A colher descrevia círculos tranquilos, enquanto a conversa girava em torno de questões muito mais perigosas.
— Para Nietzsche, a ciência não espelha a realidade. Para Einstein, o conhecimento começa e termina na realidade. — Camus afastou satisfeito a xícara. — Como resolvemos esse impasse?
— A natureza não admite o supérfluo. — Einstein bebericou seu café.
— Essa contenda traz à memória versos sobre Prisco e Vero — Galileu arqueou as sobrancelhas.
Notando o silêncio, continuou:
— Dois gladiadores que lutaram na inauguração do Anfiteatro Flávio, sob o Imperador Titus. Creio que o conheçam como Colosseum.
— O Coliseu de Roma — Sagan sobressaltou-se.
Galileu fechou os olhos e inspirou, recitando:
— Pugnauere pares, subcubuere pares.
— Lutaram iguais, cederem iguais. — Lemaître traduziu — São palavras do poeta Marcial, que presenciou a abertura do Coliseu.
— Mesmo tendo durado apenas alguns versos, é o combate de gladiadores mais famoso da história — Einstein falou com um assovio.
— Mas crê que nossos sentidos nos iludem, Nietzsche? — instigou Sagan. — Pois é tudo com que temos para trabalhar em ciência. Não posso acreditar no que vejo?
— Os sentidos não mentem, Sagan.
Nietzsche ergueu a sobrancelha. Deixou cair a colher no pires.
— Quem mente é a interpretação que fazemos deles.
O filósofo inspirou lentamente.
— A mentira da materialidade, da duração, da unidade… somos falsificadores do testemunho dos sentidos.
— Realmente, o conceito de tempo e de espaço como não absolutos e elásticos causaria um choque de sentido para os antigos. — Einstein pousou a xícara.
Nietzsche observou o vapor subir lentamente do café, como se a questão ainda estivesse procurando forma no ar.
O garçom reapareceu silenciosamente. Substituiu a xícara vazia de Camus por outra cheia:
— Pensar é estar doente dos olhos. — Essa é outra do meu mestre Alberto Caeiro.
Nietzsche soltou uma gargalhada, assustando a todos. O garçom tropeçou e por pouco louças não voaram.
— Bravo! Os filósofos e religiosos, assim como os loucos, querem criar um mundo abstrato, superior. Nosso mundo “verdadeiro” acabou por tornar-se uma fábula.
— Não sabia que você seria capaz de gargalhar, Nietzsche — provocou Camus.
— Não sou frívolo. Uma pessoa severa pode rir facilmente quando o momento permite... — Nietzsche relaxou a postura — mas essas ocasiões me são raras, infelizmente. Seria um prazer conhecer esse mestre Caeiro. — O filósofo olhou para o garçom.
Ricardo já havia recuperado o equilíbrio, e não pôde evitar de olhar para o gerente no balcão, que sorriu em resposta.
— Sem dúvida, uma verdadeira… personalidade. — pigarreou o garçom, que não encontrou palavra melhor para descrever apenas uma das várias outras personagens vívidas — os heterônimos — do poeta Fernando Pessoa.
Sagan soprou o vapor e voltou à carga:
— Para a ciência, só há fatos, que acesso pela razão e meus sentidos. Assim chego à verdade.
— O que chamam de verdade nada mais é do que aquilo que nos permite tornar previsível o caos e, portanto, dominá-lo. — Nietzsche se recostou — Sempre servindo à vida em sua vontade de poder.
— Não pode haver o conhecimento por ele mesmo, desinteressado? — Einstein pousou a xícara.
— Negativo. Nem razão sem instinto. A pura busca pela verdade é ficção metafísica. Uma autoilusão moral.
O cientista passou os dedos circularmente sobre a borda da xícara. Nietzsche se voltou para Sagan.
— Esse instinto de domínio impregna todo conhecimento, por isso não há fatos, só interpretações.
Sagan e Einstein se entreolharam. Por alguns segundos ninguém falou. Apenas o leve tilintar de uma colher contra o pires parecia lembrar que havia o mundo fora das ideias.
— Agora entendem minha reação à frase de Caeiro? — o filósofo apoiou os cotovelos — Ele resolveu com aparente simplicidade uma questão que atormenta os filósofos há dois milênios! — Nietzsche arregalou os olhos. — Ele é quase o anti-Platão perfeito!
— Se pensar distorce o real, — o garçom se aproximou — não há nada além das aparências. E elas bastam?
— Como disse, de uma simplicidade quase infantil de se ver o mundo, com uma inocência que desarma. Nada de intelectualismo ou metafísica… apenas física desprovida do supérfluo. — Nietzsche voltou-se para Einstein.
— Como afirmar a vida sem sentido transcendente? — Lemaître ajeitou os óculos. O café já esfriava, esquecido, enquanto o embate aquecia — O materialismo é a danação do homem.
— Aprenda a amar o destino, padre. — Nietzsche bebeu o café de um só gole — Amor fati.
— O homem se resigna, fatalista, ou encontra o sentido pela fé. Prefiro o segundo — insistiu Lemaître.
— Que reprime impulsos vitais em favor de um mundo metafísico, não da vida em potência criadora, expansiva.
Camus comentou:
— Posso aceitar lucidamente o absurdo da vida concreta sem resignação, Lemaître. Vivo com a consciência de que não há finalidade última. Encontro minha dignidade na revolta lúcida.
Nietzsche observou a fina película na superfície da xícara que denunciava o tempo despercebido:
— Não me resigno, Lemaître. O amor fati é afirmação total da vida.
— Apenas desejo que tudo tenha acontecido exatamente assim como foi.
O tilintar da colher de Sagan ressoou:
— Galileu, sacie minha curiosidade. Afinal, qual dos gladiadores venceu o duelo? Prisco ou Vero?
Galileu novamente cerrou os olhos:
— Cum duo pugnarent, victor uterque fuit.
— Quando dois lutaram, ambos foram vencedores. — Lemaître acompanhou — Assim termina o epigrama de Marcial sobre os jogos inaugurais do Coliseu.
— Um feito inédito. Os dois receberam a rudis — espada de madeira símbolo da liberdade. — Galileu inclinou-se para Sagan.
O garçom de imediato encheu novamente a xícara do filósofo. O aroma fresco retornou como se nada tivesse ocorrido:
— Nada querer diferente, nem para trás, nem para frente, nem por toda a eternidade.
Nietzsche ficou alguns segundos em silêncio, estático.
Depois ergueu os olhos:
— Uma entidade lhes propõe o teste final da existência humana…
Confesso que, ao ouvir a pergunta de Nietzsche, senti um leve desconforto.
Pois percebi que talvez aquela entidade já tivesse passado por minha mesa antes.






