Dialogue is the battle between the personality of various ideas.
Jordan B. PetersonQuando entrou na Taverna, armou-se do seu vasto conhecimento científico e teológico.
Agora, amparava-se em suas crenças. Não sabia se seriam suficientes para o que estava enfrentando.
Os braços de Lemaître pesavam; a cabeça latejava.
Ferido em seu credo, mas inteiro, ergueu os olhos e falou à mesa. Havia feito sua escolha:
— Nietzsche fala em pagar o preço verdadeiro. O custo de se viver — ou padecer — pelo que se acredita.
O padre estreitou os olhos. Evocava memórias enterradas.
A lareira estalou como tiros distantes.
— Eu vi esse preço ser cobrado muitas vezes — mais do que suportaria sem minha fé — murmurou Lemaître, de cabeça baixa.
— Vi homens enlouquecerem ao tentar viver sem chão.
Nietzsche congelou.
O pequeno sorriso se esvaiu. Os olhos esmaeceram.
O filósofo encolheu-se na cadeira como papel queimando.
Lemaître levou os dedos à boca na busca de palavras para descrever o horror da guerra.
— O que eu sei é que nem todos suportam viver sobre o vazio. Não os sentencio ou absolvo. Apenas tento, através da minha fé e da minha imperfeita Igreja, salvar o frágil sem destruir o abismo inevitável. E vejo o reflexo do abismo em você, Nietzsche.
O discreto tilintar dos últimos talheres recolhidos quebrou o silêncio.
Ricardo repousou a mão direita sobre o ombro do filósofo como quem conforta um irmão. Se fosse preciso iria resgatá-lo de si mesmo:
— A fé e a razão extremas — ou a falta delas — abrem precipícios. Alguns sobrevivem; outros, não. Não há erro lógico, mas visões incompatíveis sobre a responsabilidade pelo indivíduo.
Einstein retirou do lábio o cachimbo.
— Temo que nenhuma equação possa resolver este conflito. Presenciei esse… abismo de uma forma diferente — o físico tragou a fumaça. — Desmontei as noções de tempo e espaço absolutos, destruí os pilares da física clássica. À medida que o conhecimento avançava, fiquei desamparado daquilo que prezo: a beleza da causalidade das leis da natureza, da magnífica ordem cósmica.
— Pois na nova física das partículas subatômicas a incerteza é rainha — acrescentou Sagan.
— Esse é meu abismo. A aleatoridade da realidade. Não deixei de acreditar na fina sintonia das leis do universo. Não acredito em livre-arbítrio. Tudo está determinado, do início ao fim, tanto para um inseto minúsculo quanto para as estrelas grandiosas — retomou Einstein.
— Fui testemunha involuntária de que a verdade pode ser insuportável. Perseguirei até o fim uma síntese. Não para provar-me certo, mas para recuperar a ordem que vi desmoronar.
— A busca por uma teoria para unir as leis as fundamentais da física já dura décadas. — Sagan complementou.
— Ainda não me dei por vencido, caro amigo. Sou casmurro.
Sagan anuiu:
— Certamente! Diria persistente...
O garçom sorriu para o físico já idoso, e o sorriso contido não lhe passou despercebido. Einstein arqueou a sobrancelha, intrigado com a reação do atendente à menção do Santo Graal da física.
Lemaître já estava mais altivo, o semblante recuperado:
— Mesmo que a razão e a fé possam nos destruir, o futuro está em nossas mãos — levou a mão à fronte suada. — Se somos justos ou injustos não se deve a Deus, mas a nós mesmos.
O garçom, ao lado de Nietzsche, folheava sua caderneta:
— Torturamos nossos irmãos com ódio, rancor e maldade; e depois dizemos: “o mundo é mau.” Palavras dignas de reflexão. Quem, então, é o autor do mal?
Sagan inclinou-se, incisivo:
— Mas, como testemunhado por Galileu, ideologias fanáticas não toleram multiplicidade de ideias. Você o ouviu em primeira mão! — Sagan elevou o tom — Todas as religiões proclamam-se a interpretação verdadeira de seu Deus — inclusive a sua, padre. Um monopólio da verdade. — Sagan mostrou as mãos espalmadas, abarcando todos. — Justificam assim o massacre dos que não se dobram.
Galilei suspirou:
— O céu não se moveu por conta disso… mas os homens sim.
Nietzsche ergueu o dedo, golpeando o ar a cada sílaba:
— Em tempos de paz, a religião é poesia; em tempos de guerra, espada. Então, caro sacerdote, sua justiça é instrumento divino contra quem não merece seu céu.
Sagan coçou o queixo, grave:
— O mesmo Tribunal que julgou Galileu matou muitos.
— Ainda assim, pouparam-me a vida. Sou mais útil como herege vivo e calado do que como mártir morto eloquente —Galileu levou as mãos aos lábios.
Lemaître respondeu, rápido e calmo, expressão de fé e lucidez.
— E quantos, meus caros, foram salvos pela religião? — acentuou — Ao apontar o amor ao próximo e a vida como sagrados, quantos não encontraram abrigo, sentido? Vocês acusam a instituição humana, não o sagrado. Confundem a palavra divina com a interpretação de mortais falíveis. Por acaso a ciência — ou melhor, os cientistas — não são também? Meus caros, não posso culpar a ciência pelas bombas.
Einstein que observava com olhos pacíficos, assentiu:
— É em se questionar metódica e constantemente que reside, paradoxalmente, a força da ciência. Uma defesa natural contra falhas pela auto-correção.
Lemaître olhou de soslaio para Sagan.
— A ciência descreve; a fé dá sentido. Eis o conflito.
Camus inspirou descontente:
— Se a fé promove sentido, o faz fabricando-o onde não há… um consolo por não suportar a realidade. Uma venda nos olhos.
Galileu encostou-se ao espaldar, os ombros pesavam:
— Quando filósofos e teólogos disputavam meu telescópio, pouco lhes importava a verdade. Procuravam somente o veredicto conveniente.
Sagan repousou a taça vazia.
— E ainda assim, Lemaître, a Igreja teme o relativismo da ciência; e a ciência combate qualquer absolutismo, inclusive da religião. Rejeita o dogma porque ele cala perguntas.
Einstein concordou:
— A ciência não aceita um Deus intrometido em sua criação.
Lemaître, em rígida postura:
— A imaginação científica também é um ato de fé, só que em hipóteses. Não somos tão diferentes. A ciência não é imune ao mito. O cientista também sonha, se deslumbra.
Nietzsche bufou, alisando o maciço bigode.
Camus ponderou, preciso:
— Se ambos forem humildes, pode haver salvação. A ciência, falível, explica e não nos consola. A religião, misteriosa, acolhe o desconhecido e não promete respostas, apenas caminhos. Pergunto: em qual das duas a soberba prevalecerá?
Einstein pôs o cachimbo de lado:
— A ciência floresce na dúvida, o antídoto para a soberba; a curiosidade tem uma razão muito própria para existir. A ciência sem religião é cega; a religião sem ciência é manca. Ambas nascem do deslumbramento com o universo.
Sagan completou, meneando a cabeça:
— Mesmo assim, a ciência é neutra. O problema somos nós.
Nietzsche arregalou os olhos, bigode eriçado, voz sibilante:
— Neutra?...
Sagan continuou:
— A energia nuclear... pode iluminar cidades ou devorá-las com bombas.
Einstein baixou a cabeça.
Lemaître continuou, a testa franzida:
— E até que ponto, Sagan, somos culpados pelas consequências do que nunca pretendemos criar? Será essa a nossa trágica punição?
Sagan se mexeu na cadeira.
Lemaître manteve o tom.
— O ser humano, em sua arrogância, cria coisas que não consegue controlar. Devemos nos abster de pensar e criar, Camus?
Um silêncio caiu, porque as palavras abriam novos abismos.
Sagan afrouxou a gola da blusa:
— Se assim fosse, abdicaríamos de nossa humanidade.
Camus interviu, com sua contumaz elegância:
— As criaturas teimam em não obedecer aos seus criadores…
Lemaître tomou a palavra, com um meio sorriso, segurando a taça como se sacramental:
— Ou ao seu Criador. A queda do paraíso se inicia ao provarem do fruto do conhecimento — os demais se entreolharam. — Se quiserem uma interpretação mais moderna — enfatizou, com um sorriso completo — quando Deus reconheceu que a consciência surgiu em suas criações.
O sacerdote continuou:
— O ser separou-se da natureza e do outro, motivando tanto a vergonha quanto o sofrimento em ambiente agora hostil.
Einstein tragou satisfeito a fumaça do seu cachimbo.
— Descrevem este momento da... — pigarreou — consciência como “os olhos foram abertos”. Há quem diga que foi por orgulho ou soberba. Prefiro acreditar que tenha sido por curiosidade. Pois não é o mesmo que ocorre com a perda da inocência pelas crianças, quando amadurecem e compreendem que há um mundo inteiro para explorar? Deixam para trás o paraíso da infância.
Galileu inclinou o rosto à meia-luz:
— Nenhum Deus me puniu por olhar para Júpiter e descobrir suas luas; só homens de batina escarlate receosos do que eu poderia ver.
Camus entrecruzou os dedos:
— Quando descobrimos o mundo, nos vemos insignificantes. Isso, senhores, é muito mais doloroso do que qualquer nudez bíblica.
Sagan anuiu, gesticulando:
— Concordo que o conhecimento possa trazer sofrimento, mas prefiro sofrer pela compreensão consciente do que pela mera existência, cega às maravilhas do universo. Pois não é o que fazem os demais animais do paraíso, que não comeram do fruto? — Sagan arqueou as sobrancelhas, devolvendo a pergunta à Lemaître.
O padre retirou os óculos; pendeu-os entre os lábios antes de falar:
— Questiono se o que estava em disputa entre a proibição divina e a tentação da serpente seria o conhecimento puro e simples. Paraíso significa “jardim cercado”. Pairi daeza. É o arquétipo do abrigo, do santuário protegido — murado — contra o caos e o mal. Não um vale de ignorância.
Camus olhou para o clérigo:
— Seu paraíso é aconchegante, Lemaître. Mas prefiro a aridez do real ao conforto do mito. Vivo em um mundo com muros invisíveis.
— Custa-me acreditar que a nova autoconsciência — Sagan tocava os dedos na testa — seja julgada como algo mau, a tal ponto que na sua história foi motivo para expulsá-los e lançá-los abaixo para sofrer na terra. E aqui vai uma provocação, Lemaître.
— Pois não, Sagan?
— Ao meu ver, o ser humano obter o conhecimento foi motivo de punição não por ser mau ou por trazer sofrimento, mas por igualar o homem a Deus em poder.
— Não há poder maior — e mais perigoso — que o conhecimento.
Lemaître recolocou os óculos.
— Isso é precisamente o que a serpente sugere, caro Sagan, quando implica à proibição um sentimento de orgulho ou inveja. “Vocês serão como Deus, conhecedores do bem e do mal.” E foi assim que o astuto animal despertou o desejo.
Sagan cruzou os braços, pensativo.
— Permitam-me um aparte — Nietzsche bateu no tampo da mesa, sobressaltando todos — Sagan disse que abdicaríamos da nossa humanidade se não pensássemos e criássemos, pelo medo das consequências imprevisíveis do fruto amargo do conhecimento.
— Sim, sugeri isso.
— E também entende a ciência como uma ferramenta neutra.
— Exato.
— E Einstein sugeriu a curiosidade como força motriz para o avanço da ciência, que se origina pelo deslumbramento.
Einstein anuiu.
O fogo na lareira se intensificou, iluminando seu rosto severo.
— Pois bem, e Lemaître em sua alegoria religiosa sugere que o conhecimento causou a ira de Deus e severa punição. Portanto, qualifica-o como algo reservado a Deus — ou aos deuses, escolha a mitologia que preferir.
— De acordo.
— Meus caros… vocês todos não poderiam estar mais equivocados.







