O clima era de choque. Nunca se sabe como a mente reagirá à realização do impossível. Não havia como evitar o sentimento de absoluto respeito — que beirava à veneração — pela figura histórica ali presente. Pouquíssimas personalidades deixaram um legado tão vasto, e a dissonância cognitiva inicial era inevitável até mesmo para algumas das maiores mentes da humanidade.
Mas para o astrônomo, filósofo e matemático Galileu Galilei — considerado o pai da ciência moderna —, não havia choque algum. Agia naturalmente, como se estivesse na sala de sua casa. Talvez a falta da visão tornasse mais fácil filtrar os sentimentos e estímulos que a ocasião suscitava. Era ele, e somente ele, em sua própria escuridão.
Se a cegueira o deixava mais à vontade, permitia aos outros absorver a imagem completa e serena daquele senhor idoso. De expressão receptiva, cabelos e barba alvos, parecia a personificação da sapiência.
E foi o próprio Galileu quem rompeu a formalidade e iniciou a conversa:
— Agradeço imensamente a oportunidade de me juntar a tão ilustres colegas e pensadores.
Então virou o rosto levemente para o lado, como se se referisse ao atendente que o havia conduzido à sua cadeira.
— Ricardo e eu já tivemos a oportunidade de conversar previamente — esclareceu —, ocasião em que me foram explicadas as circunstâncias atuais, bem como a importância intelectual de todos vocês. Por isso, dispenso-vos das apresentações.
O garçom retribuiu, respeitoso:
— Um privilégio todo nosso, Galileu.
— O que não quer dizer que eu não esteja ansioso por debater e conversar com todos vocês, pensadores. Pois meu tempo é o mais limitado dentre todos e, infelizmente, não poderei partilhar da refeição com os senhores.
Einstein aproveitou a deixa:
— Maravilha-me a sua aparição, Galileu. Não somente pela presença de um dos grandes da ciência...
Galileu reagiu com um leve gesto das mãos. Einstein continuou:
— Sim, sim, um dos gigantes... mas também porque tive a confirmação física de algumas implicações matemáticas formuladas por Kurt Gödel. Durante uma de nossas caminhadas até o Instituto de Estudos Avançados, ele expôs-me que poderíamos embaralhar a relação entre o espaço e o tempo — e que a realidade consistiria, na verdade, em uma infinita pilha de cartas do “agora”, que são retiradas, ou entram em existência, sucessivamente.
Einstein fez um gesto como quem distribui cartas à mesa.
— Acontece que cada observador teria o seu próprio baralho de “agoras”, e nenhuma dessas cartas poderia representar o verdadeiro intervalo de tempo objetivo. Ou seja, questiona-se se o tempo realmente existe.
Sagan, olhos arregalados, complementou:
— Então... a viagem no tempo seria possível? Fantástico!
Einstein sorriu, inclinando-se levemente à frente:
— Matematicamente é compatível com a teoria da relatividade. Poderíamos acessar o passado, o presente, o futuro... e voltar.
Camus, estupefato, comentou:
— Ou seja... para nós, leigos em ciência, isso quer dizer que eu não estou enlouquecendo — e que tudo o que estou vivenciando aqui é verdadeiro. — havia alívio genuíno em sua voz.
Lemaître aproveitou para acrescentar:
— Pelo menos, matematicamente possível. E compatível com a teoria da relatividade de Einstein.
Galileu exclamou, extasiado:
— Bravo! O triunfo da razão pura, matemática, brilha como a luz do Sol!
Nietzsche revirou os olhos e bufou discretamente. Einstein, percebendo, instigou ainda mais, estreitando o olhar com um sorriso curioso:
— A matemática pura é, à sua maneira, a poesia das ideias lógicas. Concorda, caro Nietzsche?
O filósofo respondeu, sardônico:
— Vocês afirmam que o tempo é uma ilusão, que a matemática é um farol de luz em meio à ignorância. O que vocês não percebem, cientistas, é que ao definirem o belo, deixam de compreendê-lo. — Ergueu as mãos firmemente cerradas
— Quando as garras do conhecimento e da razão comprimem uma paixão, uma beleza, uma porção de vida... escapam entre seus dedos a essência, restando apenas um significado inútil e sem sentido — uma mera sombra projetada e deformada do real. — E abriu as mãos como se libertasse uma borboleta.
Fez uma pausa, e concluiu, examinando as linhas de suas palmas:
— Caso usassem dos instintos, talvez em suas mãos abertas da razão repousasse o absoluto... o real.
O garçom, então, interveio com ironia leve:
— A ciência é querer adaptar o menor sonho ao maior, Nietzsche.
Galileu simplesmente sorriu:
— Sabem, ao entrar nesta taverna, esperava encontrar dezenas de músicos e seus instrumentos. Então… — o astrônomo inclinou a cabeça, atento — estou ouvindo uma bela melodia, que acentua os sentimentos como nunca antes pude apreciar. Onde estão os músicos? Devem ser muitos.
Sagan respondeu, com um brilho nos olhos:
— Em nosso tempo, Galileu, conseguimos perpetuar as notas musicais e a melodia em artefatos, para reproduzi-las ao nosso bel prazer.
— Mas isto é fantástico! — exclamou Galileu, aturdido. — Que maravilha de instrumento! Não posso imaginar que outros avanços o futuro ainda poderá produzir. Sempre tive esperança de que a inventividade e a imaginação prevaleceriam sobre a ignorância.
Galileu demonstrava imensa satisfação, tamborilando os dedos no ritmo da música de Wagner:
— Sabem, a música faz parte da minha formação. Meu pai, Vincenzo, foi músico e compositor. Mas, além disso, foi um investigador incansável dos sons. Estudávamos juntos a tensão das cordas do alaúde no porão da nossa casa, em Pisa. — traçava com seus dedos delicadas linhas imaginárias no ar.
— Já faz muitas décadas, mas lembro-me como se ele ainda estivesse aqui… dizia que a música só evoluiria se fosse liberta da autoridade pitagórica dos números.
Sagan perguntou, curioso:
— Seu pai buscava investigar sons e instrumentos?
— Sim — respondeu Galileu. — E tive o privilégio de estar ao lado da mente que provou que a teoria musical vigente estava obsoleta.
Einstein interveio:
— Você foi o precursor do método científico — a experimentação guiando o pensamento teórico. Viu isso também em seu pai?
— Em minha época, — respondeu Galileu — a filosofia do conhecimento, que vocês chamam de ciência, era considerada verdadeira em sua pureza teórica. A autoridade dos antigos era praticamente intocável.
Einstein assentiu.
— Então, enquanto seu pai desafiou a inviolabilidade pitagórica dos números sobre a música, você destronou o conceito aristotélico milenar de que a Terra era o centro das esferas celestes.
Galileu sorriu, como quem não aceita um elogio.
— Aprendi desde cedo a questionar. Perguntava-me se haveria outras explicações — pois o que eu via através da minha luneta contradizia frontalmente a visão geocêntrica, da terra imóvel, e apoiava a teoria copernicana.
Einstein disse, apoiando o cachimbo entre os dedos:
— E saiba que foi baseando-me em sua relatividade, Galileu, que iniciei a minha teoria da relatividade restrita. Reconheço em sua obra a luta apaixonada contra qualquer tipo de dogma baseado na autoridade.
— Embora um católico devoto — respondeu Galileu, inclinando-se ligeiramente —, pude sim cultivar uma independência de pensamento. Nunca pretendi afrontar a Escritura Sagrada, apenas contestei sua interpretação literal.
Einstein riu, o cachimbo pendendo na lateral dos lábios.
— Curiosamente, muitos colegas me atacaram pelo oposto: minha teoria foi construída a partir de princípios matemáticos, e não de observações.
Galileu levantou o queixo, com serenidade:
— Amigos, não os vejo, mas sei quem são — luminares de suas épocas, cada qual à sua maneira.
Sagan, hesitante, tomou coragem e perguntou:
— Galileu… poderia nos informar a sua atual situação?
— Claro. Atualmente, estou em cárcere formal em minha casa, próxima a Florença, sob ordem do Tribunal do Santo Ofício do Papa Urbano VIII. — franziu a testa e deu de ombros —Deixei furioso meu antigo amigo Maffeo Barberini, agora Papa, ao publicar meu Diálogo, em 1632. Nele, há uma exposição dos dois sistemas — o heliocêntrico e o geocêntrico.
Então, com um leve sorriso e um tom quase conspiratório, acrescentou em voz baixa:
— Mas o segredo, meus amigos, é que nunca parei de escrever. — sussurrou —Publiquei recentemente, nos Países Baixos — longe do alcance da Inquisição —, um livro sobre materiais e movimento, e estudo a queda de projéteis.
Galileu apesar da idade apresentava um brilho juvenil nos olhos.
Pela alegria contagiante, Sagan entrou no clima e disse com cumplicidade:
— E como foi exatamente a questão do seu julgamento? — perguntou. — A imagem do senhor de joelhos, abnegando suas convicções e teorias, é extremamente forte e impactante. Até hoje é lembrada, mais de quatrocentos anos após.
Galileu inspirou fundo antes de responder:
— Agora, mais velho, entendo que minha decisão de divulgar e comprovar a hipótese de Copérnico colocou Sua Santidade em xeque. Optou por proteger a própria autoridade à apoiar um velho conhecido. — Fez uma pausa e apertou os lábios. — Creio que Urbano acreditava que a teoria heliocêntrica jamais poderia ser provada. Daí que a tratava como mera hipótese, inicialmente sem implicações teológicas.
Sagan o interrompeu:
— Sentiu medo, Galileu?
Galileu mudou ligeiramente de postura antes de responder:
— Tentei atenuar meu discurso, mostrando que as novas descobertas que fiz — as fases de Vênus, os satélites de Júpiter, as manchas solares e o relevo lunar — não se encaixavam na velha imutabilidade divina das esferas celestes. — Desenhava movimentos circulares com os dedos sobre a mesa. — Não previ que pudessem ser interpretadas como ofensas ao Papa.
Sagan insistiu:
— E o julgamento da Inquisição?
— Foi longo — respondeu Galileu, com voz grave. — Fui obrigado a me retratar e a negar minha obra para que minha pena fosse atenuada, sendo condenado apenas como suspeito de heresia. Caso contrário, seria torturado e poderia receber pena capital... — as palavras saíam com esforço, pesadas demais para Galileu, que continuou:
—Não me envergonho. Um homem deve saber quando recuar. E mesmo que meus textos sejam banidos pela Igreja, ninguém pode proibir a verdade. — As pontas dos dedos empalideceram ao pressionar a mesa — Tenho certeza de que um dia outros, mais corajosos, revelarão a natureza como ela é — não como imaginam que seja.
Galileu estalou os lábios.
— Sem os grilhões da autoridade religiosa. É inevitável. É apenas uma questão de tempo.
Sagan o observou em silêncio. Galileu, então, murmurou quase para si, abatido:
— Talvez eu tenha vivido em um tempo ainda não preparado para receber as verdades da natureza e a natureza das verdades.
Por alguns momentos, somente o crepitar da lareira pôde ser ouvido.
Sagan interveio com voz suave:
— No seu século, a ciência moderna dava seus primeiros passos, tentando se diferenciar da filosofia e tendo a teologia com a a rainha das ciências.
— Você, Galileu, em verdade construiu as bases para uma nova ciência — disse Lemaître, com um leve aceno. — Séculos depois, sua ciência seria continuada por Newton e, mais tarde, por Einstein, aqui presente.
— Aristóteles dizia que se a Terra estivesse em movimento, todos o sentiriam — completou Einstein.
Galileu ergueu os olhos, um leve sorriso emoldurando a serenidade da voz.
— Realmente, mas as minhas observações foram bastante convincentes em apoiar o modelo heliocêntrico.
Lemaître interveio com calma, os dedos sobre o crucifixo em seu peito:
— O cardeal Bellarmine, no seu tempo, Galileu, ratificou que não havia problema em discutir a obra de Copérnico como hipótese, desde que não se afirmasse como verdade física… — disse, retirando a mão do crucifixo como se por reflexo — enquanto não houvesse demonstrações irrefutáveis.
— Aí está! — Sagan gesticulou para Lemaître. — A autoridade e sua permissividade condicional.
— De todo modo, a afirmação continuava contrária ao sentido literal das Escrituras, o que a tornava inaceitável para os teólogos da época. — Sagan puxou a sua gola rolê com o indicador.
Camus cruzou os braços e murmurou, grave:
— E não há como defender o ato eclesiástico como meramente disciplinador, devido ao grande impacto ético e futuro na vida e obra de Galileu.
Lemaître assentiu. — Foi, sim, utilizado como condição indevida para criar-se o mito de oposição entre ciência e religião, entre razão e fé, que perdura até nossos dias.
— Mesmo que o episódio tenha sido amplificado, ou mesmo simplificado, isso não diminui o fato — replicou Sagan, a voz firme. — Houve censura, houve proibição de livros e textos, inclusive daqueles que Galileu ainda viria a escrever!
Sagan comprimiu os lábios, mas não conseguiu conter a indignação.
— Galileu foi obrigado a renegar sua obra sob coerção, com ameaça de tortura física, e recebeu prisão domiciliar. Creio que poderia ter sido pior, caso ele não tivesse certa proeminência na sociedade.
Lemaître explicou, ponderado:
— A situação política e intelectual da época era de tensões religiosas. Admitir publicamente uma teoria que parecesse contrariar as Escrituras era considerado perigoso. — disse indicando um ponto sobre a mesa — Não nego que a Igreja cometeu erros institucionais concretos, Sagan — censura, proibição, processos. Mas perdemos ainda mais com o uso ideológico atual desse episódio como oposição entre ciência e fé, o que se tornou um ressentimento indevido.
Galileu então se inclinou um pouco à frente, o olhar vazio distante:
— Nunca pude imaginar que o meu julgamento pudesse criar… ressentimento, por tanto tempo. De fato, nunca foi minha intenção opor as Escrituras Sagradas à ciência.
Silêncio pairava no ar. Depois, ele acrescentou com amargura contida:
— Meus detratores tentaram proteger as falácias de seus argumentos com o manto da simulada religiosidade e da autoridade das Escrituras.
— O que queremos dizer é que o argumento de que Galileu não possuía a prova empírica definitiva do movimento da Terra não significa que sua posição fosse mera convicção pessoal, concordam? — perguntou Sagan.
— Maravilhei-me com as descobertas astronômicas de que os corpos celestes não eram ideais de imutabilidade — respondeu Galileu. — Assim, não pude deixar de afirmar que os fundamentos físicos do sistema geocêntrico inexistiam. E segundo a Santa Igreja a Terra necessariamente deve estar no centro, imóvel.
— Ou seja, você não podia provar que a Terra se movia, mas podia provar que o modelo que dizia que ela não se movia estava errado — comentou Einstein.
— A ausência de prova não é a prova de ausência — acrescentou Sagan.— A ausência de prova definitiva não invalida uma hipótese, se ela for a melhor explicação disponível.
— Sem dúvida, não podemos confundir a falta de provas definitivas com a ausência de racionalidade científica — completou Lemaitre.
— E para que eu possa descansar minha mente — disse Galileu, ansioso —, conseguiu-se comprovar definitivamente a teoria de Copérnico no futuro?
— Meu caro Galileu — respondeu Sagan, sorrindo —, foi somente em 1838 que houve uma prova física direta: a chamada Paralaxe Estelar.
A reação de Galileu foi um misto de êxtase e resignação.
— Newton progrediu nos estudos do seu último livro e formulou a gravitação universal, mas sem conhecer a natureza da força, que só poderíamos entender melhor séculos depois — disse Sagan — E nem por isso Newton foi tachado de irracional. As suas evidências observacionais, Galileu, fortes e inéditas, invalidavam o sistema geocêntrico.
— Newton conseguiu fechar o circuito do seu pensamento — comentou Einstein. — As mesmas leis que fazem uma pedra cair na Terra também mantêm a Lua em órbita e governam os movimentos dos planetas. A gravitação universal, a Terra e o céu obedecem às mesmas leis.
— De tudo, o mais importante, Galileu, é o princípio correto de que a observação deve corrigir a interpretação da Escritura e não o contrário — finalizou Sagan. — E embora você não tivesse todas as provas, sabia mais do que sua época pôde demonstrar, quando nascia a ciência. Além disso, sua capacidade preditiva de antecipar corretamente futuras observações se encaixa em um contínuo de comprovações. É o ápice da ciência.
O próximo capítulo do Banquete dos Pensadores poder ser encontrado abaixo.
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