2018.
O Paraná atingia seu recorde histórico de doação de órgãos: 47,7 doadores efetivos por milhão de população. Era referência nacional em doação de órgãos. A liderança não fora construída rapidamente. Fora resultado de quase uma década de esforço contínuo do Poder Executivo, de servidores públicos e de equipes hospitalares comprometidas com um sistema que havia transformado a doação de órgãos em uma política pública de excelência.
Mesmo no auge, o sistema reconhecia que ainda havia espaço para avançar. Estudos demonstravam que o acesso ao transplante no Paraná era independente da condição socioeconômica dos pacientes. Ao mesmo tempo, revelavam desigualdades importantes: algumas Regionais de Saúde eram muito mais eficientes do que outras na identificação e conversão de potenciais doadores.
O sistema tinha um novo desafio: não apenas manter a liderança nacional, mas fazer com que a eficiência alcançada pelas melhores regiões do estado pudesse ser reproduzida nas demais. As estimativas eram ambiciosas: se todas as Regionais de Saúde alcançassem desempenho semelhante ao das mais eficientes, o Paraná poderia chegar a 69 doadores efetivos por milhão de população.
Esse era o horizonte.
Mais doações significam mais transplantes, mais pessoas beneficiadas, com maior sobrevida e melhor qualidade de vida.
2025.
O horizonte dos 69 doadores efetivos por milhão de população não se concretizou.
Dados consolidados do Registro Brasileiro de Transplantes demonstram que, entre 2018 e 2025, houve uma queda de 18,4% no número de doadores efetivos por milhão de população no Paraná.
A queda no número de doadores efetivos não significa, por si só, que as mortes encefálicas tenham deixado de acontecer. O número de doadores efetivos é o resultado de uma longa cadeia que precisa ser percorrida com sucesso até que uma possibilidade de doação se transforme em doação efetiva.
Essa cadeia começa com a identificação do potencial doador, passa pelo diagnóstico e pela notificação da morte encefálica, pela manutenção clínica, pelo acolhimento e pela comunicação com a família, pelo consentimento para a doação e, finalmente, pela coordenação necessária para que os órgãos possam ser disponibilizados para transplante. Quando o número de doadores efetivos cai, é nessa cadeia que precisamos procurar onde estamos perdendo eficiência.
A taxa de recusa familiar passou de 27% para 33% — seis pontos percentuais, ou um aumento relativo de 22,2%.
A entrevista familiar é um dos momentos mais delicados da cadeia da doação e merece atenção, mas seria simplista — e injusto — atribuir a redução das doações a uma suposta menor solidariedade ou menor altruísmo das famílias enlutadas. O aumento da recusa pode, entre outros fatores, sinalizar perda de eficiência do próprio sistema nessa etapa: acolher uma família enlutada, comunicar adequadamente a morte e oferecer, no momento apropriado, a possibilidade da doação. A decisão da família deve sempre ser respeitada, e nenhum sistema eliminará completamente a recusa. Mas equipes treinadas, processos bem estruturados e comunicação qualificada criam melhores condições para a doação.
Por fim, no mesmo período, houve redução de 24,1% no número de transplantes de órgãos realizados.
Um sistema que mirava aumentar ainda mais sua eficiência passou a demonstrar perda de desempenho justamente naquilo que, ao final, mais importa: o número de transplantes.
Seria um erro primário imputar a perda de desempenho aos profissionais que sustentam diariamente o Sistema Estadual de Transplantes. Em sua maioria, são os mesmos profissionais que participaram da construção da liderança paranaense. Continuam trabalhando, acumulando experiência e tentando preservar resultados com as ferramentas que lhes são disponibilizadas. O corpo técnico da Central Estadual de Transplantes permanece como o coração do sistema. O desgaste não decorre da falta de competência de quem o sustenta. Sistemas complexos não sobrevivem apenas do esforço individual. Dependem de prioridade política, investimento, educação permanente, tecnologia, estrutura e capacidade de renovação.
Reputo que parte da resposta, portanto, precisa ser procurada fora das paredes da Central Estadual de Transplantes. Um sistema dessa magnitude depende da ação cotidiana de seus servidores, mas depende igualmente das condições que o Poder Executivo oferece para que desempenhem seu trabalho. A organização do Sistema Estadual de Transplantes é responsabilidade do Estado e, por isso, cabe também a ele criar as condições para que o sistema funcione em sua máxima capacidade. É preciso reconhecer que, nos últimos anos, a política estadual de doação e transplantes não recebeu apoio compatível com a complexidade e a importância do sistema que o Paraná havia construído.
E de que ações concretas falamos? Investimento em educação continuada, treinamento periódico das equipes hospitalares, atuação firme na rede hospitalar do próprio Estado e valorização e retenção de profissionais experientes em funções estratégicas. O sistema não capitulou. Precisa ser reestimulado, valorizado e novamente colocado em movimento.
Ao mesmo tempo, o mundo dos transplantes mudou. Tecnologias de perfusão de órgãos, sistemas de aprendizagem e ferramentas de inteligência artificial devem ser incorporados para aumentar o aproveitamento dos órgãos doados e ampliar os limites do que pode ser transplantado.
2026.
Setembro Verde, o mês da conscientização da doação de órgãos e tecidos. Um momento para lembrar que nosso estado pode — e deve — fazer mais pelas pessoas que precisam de um transplante.
O Paraná não precisa simplesmente reconstruir o sistema de 2018. Precisa recuperar os fundamentos que o fizeram chegar à liderança e, a partir deles, avançar. O conhecimento, a experiência e o capital humano continuam aqui. Cabe novamente oferecer a essas pessoas as condições para transformar esse patrimônio em resultados e preparar o sistema para aquilo que a próxima década dos transplantes exigirá.
Chegar ao topo foi difícil. Permanecer nele mostrou-se ainda mais difícil. O desafio agora é maior: não voltar a 2018, mas construir um sistema melhor do que aquele que um dia nos levou à liderança.
Um outro olhar sobre os transplantes
Depois dos números e dos desafios de um sistema, ofereço aquilo que dificilmente cabe nas estatísticas. Utilizando uma pintura de Fra Angelico, dois sapatos à beira de uma cama ajudam a contar outra história sobre transplantes: a das pessoas que, muitas vezes silenciosamente, deixam tudo preparado para que o extraordinário aconteça.
Sapatos e heranças simbólicas de Fra Angelico
A possibilidade da vida renovada por um transplante, simbolizada pela cor verde, é centrada no Brasil no dia 27 de setembro — Dia Nacional da Doação de Órgãos — instituído por decreto presidencial em 1997, durante a gestão de Henry de Holanda Campos à frente da Associação Brasileira de Transplante de Órgãos, em alusão a São Cosme e Damião.





