Retirou sua capa preta de forro vermelho e a acomodou sobre a cadeira da cozinha.
Eu apenas observava minha mãe.
A enfermeira pediu que eu esticasse o braço.
Seu vestido branco parecia recém-passado.
A touca era tão rígida que eu imaginava como conseguia dobrar o pescoço.
Usava meias grossas e sapatos pretos que faziam pouco ruído ao caminhar.
Senti o frio do algodão.
Depois a picada.
Olhei para minha mãe.
Uma lágrima escorreu.
Três dias depois voltaram.
Examinaram meu braço.
Depois olharam para meus pais.
Falaram baixo.
Não consegui ouvir.
Minha mãe começou a chorar.
Mandaram-me brincar no quarto.
Encostei a porta sem fechá-la completamente.
Não consegui ouvir as palavras.
Vi apenas minha mãe levar a mão ao rosto.
Meu pai segurou seus ombros.
Quando as enfermeiras partiram, havia papéis sobre a mesa.
E silêncio.
Ouvi uma palavra que nunca tinha escutado antes.
Preventório.
Ninguém me explicou direito o que significava.
Alguns dias depois minha mala estava pronta.
A plataforma estava cheia de crianças.
Algumas seguravam bonecas.
Algumas choravam.
Os adultos também.
Eu não sabia para onde olhar.
Quando o trem começou a se mover, minha mãe caminhou ao lado da janela.
Continuou caminhando.
Depois correndo.
Depois apenas acenando.
Meu pai permaneceu parado na plataforma.
Pela janela vi os dois ficando menores.
Até desaparecerem....
Banho.
Roupa nova.
Cabelos raspados.
Meninos para um lado.
Meninas para o outro.
Amarraram uma pequena etiqueta à minha mala.
Meu nome estava escrito nela.
Nunca tinha visto meu nome parecer tão sozinho.





