— Comunicando incertezas científicas em certezas operacionais...provisórias.
Koch ficou pensativo após sua conclusão. O mito de Cassandra era preciso.
Ricardo serviu-lhe uma caneca de Kulmbacher.
Agradeceu com um gesto simples com a cabeça.
Manteve o olhar fixo na cerveja. O amarelo-ouro límpido do líquido revelava a corrente incessante de microbolhas de gás carbônico que subiam até o colarinho branco como neve recém-caída. Uma gota começou a se formar na parte externa da caneca e serviu não apenas como alerta de sua temperatura perfeita, mas também como gatilho para uma lembrança.
— Meine Damen und Herren...senhoras e senhores...
Koch olhou rapidamente para os integrantes da mesa antes de retornar o olhar para a caneca. Com a ponta do dedo, recolheu a gota que começava a escorrer.
Por um instante, deixou de estar na Taverna.
Estava novamente em Berlim.
Outubro de 1890. O dia do anúncio da tuberculina.
Ajustou o colarinho.
O calor era sufocante naquela tarde. O grande salão circular do Circus Renz parecia incapaz de oferecer qualquer alívio. Secou a testa com o lenço de bolso.
Observava por entre as cortinas a multidão que lotava o recinto.
Franceses.
Ingleses.
Americanos.
Russos.
Japoneses.
Representantes das maiores escolas médicas do mundo.
Estavam sérios, atentos, compenetrados.
E havia um cheiro.
Não sabia descrevê-lo exatamente.
Parecia uma mistura de cera de bigode, lã úmida dos fraques, madeira encerada e um leve toque de tabaco.
As bandeiras vermelhas, pretas e brancas do Reich tremulavam.
— Meine Damen und Herren! É uma honra apresentar Sua Excelência, o Senhor Conselheiro de Estado e Professor Doutor Robert Koch!
O porta-voz do cerimonial quase proclamava cada palavra.
Eu falava sobre pesquisa bacteriológica. Algo absolutamente rotineiro para mim.
Mas, ao final da conferência, descrevi uma substância que vinha estudando. Uma substância capaz de tornar os animais de laboratório insensíveis à inoculação dos bacilos da tuberculose.
Fui intencionalmente vago.
Falei em uma possibilidade promissora.
Não de uma cura consumada.
Os aplausos foram imediatos.
Pessoas se levantaram.
Outras se inclinavam para conversar umas com as outras.
O rumor de esperança tornou-se quase palpável.
Não era apenas entusiasmo científico.
Era algo maior.
Era a sensação de que a ciência finalmente colocaria a morte branca de joelhos.
Tomou um longo gole da cerveja.
Olhou para Mann.
— Fostes preciso. Nossas ideias deixam de nos pertencer quando entram no mundo.
Balançava a cabeça em sinal de próprio convencimento.
— Durante muito tempo imaginei que o problema estivesse apenas nas palavras que escolhi.
Sorriu discretamente.
— Hoje não tenho tanta certeza.
Mais um gole de Kulmbacher.
Acomodou-se melhor na cadeira.
— Eu era um herói nacional naquele momento. Minha palavra possuía um peso que eu talvez não compreendesse inteiramente.
— Muitos ouviram uma possibilidade.
— Mas desejavam desesperadamente ouvir uma cura.
Passou os dedos pela alça da caneca.
— E acredito que tomou proporções ainda maiores por causa do espírito do tempo.
— A Belle Époque? – indagou João Manuel.
— Nein,nein. Wilhelminische Zeit! — Koch balançou a cabeça enquanto apontava a caneca na direção do português — Pelo menos era assim que a víamos em Berlim.
Florence sorriu. Sua sensibilidade já compreendera onde o alemão pretendia chegar.
— Não vais encontrar o joie de vivre parisiense da Belle Époque na Berlim de Koch.
O ambiente estava leve. Miraculosamente, até o farto bigode de Osvaldo Cruz se moveu com seu largo sorriso:
— A Belle Époque... sou praticamente um filho dela. A França iluminada.
— Muito mais do que na França — João Manuel tecia o fio. — A era dourada americana. A Pax Britannica da terra de Nightingale. Cada povo lhe deu um nome diferente.
— Exatamente. — Koch assentiu. — Mudavam os nomes. O espírito era o mesmo.
Tomou mais um gole de cerveja.
— Era o zeitgeist. O homem acreditando que finalmente aprendera a dominar a natureza.
— Pontes de aço atravessando rios antes intransponíveis — observou João Manuel.
— Ferrovias ligando continentes.
— Luz elétrica transformando a noite em dia — completou Osvaldo Cruz.
— Navios cada vez maiores. Telégrafos encurtando distâncias. Motores substituindo cavalos. — Koch falava lentamente, como quem observava um mundo distante.
Nightingale acompanhava em silêncio.
— E na medicina? — perguntou.
Os olhos de Koch brilharam.
— Na medicina acreditávamos viver uma revolução ainda maior.
— A assepsia de Lister.
— A teoria microbiana de Pasteur.
— A imunidade celular de Metchnikoff.
— A anestesia tornando possíveis cirurgias antes impensáveis.
— E a radiografia de Röntgen, permitindo pela primeira vez enxergar o interior de um corpo vivo — acrescentou Osvaldo Cruz.
— Vacinas. Laboratórios. Hospitais cada vez mais organizados. — Koch apoiou a caneca sobre a mesa. — A cada ano surgia algo novo.
Florence percebeu o entusiasmo que ainda permanecia na voz do velho cientista.
— E, pela primeira vez na história, o homem acreditou que a doença seria apenas mais um problema de engenharia.
Koch assentiu lentamente.
— Sim.
— Me recordo como se fosse hoje chegando a Paris.
Os olhos de Osvaldo Cruz eram sinceros e irradiantes.
— A Torre Eiffel. A cidade iluminada. O Instituto Pasteur...
Sorriu.
— Palaciano. Grandes volumes. Janelas amplas. Muita luz natural. Ventilação por toda a parte.
Olhou para Nightingale com o reconhecimento silencioso de quem sabe estar diante de uma das inspiradoras daqueles princípios.
— Suas bancadas, seus microscópios, suas estufas... Pareciam nos contar ao pé do ouvido as palavras do fundador.
Ajeitou o bigode.
— Pasteur dizia que duas leis disputavam o mundo.
— Uma delas, a lei da paz, do trabalho e da saúde.
Bandeira acendeu um cigarro.
A voz de Osvaldo ganhou um entusiasmo juvenil.
— E nós acreditávamos nisso.
— Como não acreditar?
— A teoria dos germes explicava doenças antes envoltas em mistério.
— A vacinação avançava.
— A higiene científica transformava cidades.
— Soros, laboratórios, campanhas sanitárias...
Abriu os braços.
— Parecia que havíamos finalmente encontrado o caminho.
Koch observava em silêncio.
— Havia algo de quase religioso naquela confiança.
— Sim — concordou Osvaldo. — Não acreditávamos apenas que compreenderíamos as doenças.
Olhou para a espuma que ainda resistia no fundo da caneca de Koch.
— Acreditávamos que iríamos vencê-las.
— Todas elas.
Bandeira batia seu cigarro no cinzeiro. Tragava, expirava. A fumaça subiu lentamente, deixou escapar uma risada.
— Quanta confiança, quanta ingenuidade.
Deu uma tragada.
— Bem que eu dizia que o doente metido a ter personalidade morria mesmo.
— Belle époque pra cá. Pax Britannica para lá. Wilhelminismo para acolá.
Expirou a fumaça.
— E a tuberculose ali. Impassível.
Seu olhar rememorava sua solidão e frustração da adultícia.
— Campanhas de arrecadação. Filantropia. Festivais beneficentes. Selos de Natal. Ligas antituberculose.
— Dinheiro correndo por toda parte.
— E para quê?
O tom sarcástico refletia sua condição de tísico profissional.
— Para construir sanatórios.
— Para afastar os doentes das cidades.
— Para lhes oferecer repouso, ar puro, leite fresco e esperança.
Olhou para a ponta incandescente do cigarro.
— Porque tratamento de verdade...
Balançou a cabeça.
— Tratamento de verdade ainda não havia.
João Manuel acompanhava o raciocínio.
— É um ponto importante.
— Houve avanços extraordinários.
— A ciência caminhava.
— As cidades mudavam.
— Os hospitais mudavam.
— Mas a tuberculose permanecia.
Koch assentiu.
— Sim.
— Era como uma objeção permanente ao espírito do tempo.
— O zeitgeist era desafiado pela tuberculose — completou João Manuel.
— Onipresente.
— Silenciosa.
— Traiçoeira.
João Manuel apoiou os cotovelos sobre a mesa e mais uma vez parecia esticar um fio invisível entre todos os presentes.
— É uma ironia histórica extraordinária.
Mann estava soturno.
— A fragilidade humana.
Parecia voltar à Berghof.
— A sensação de impotência.
— O olhar de alguém que sabe que Átropos se aproxima é inconfundível — observou Nightingale.
Bandeira não parava de fumar.
— Para o tísico o fio se esticava de forma quase sádica.
Ricardo completava as xícaras de café.
— O “ainda não morri” convivia diariamente com o “ainda não vivo plenamente”.
João Manuel assentiu.
— A spes phtisica.
— A esperança que se recusava a morrer.
— Exatamente. — respondeu Bandeira.
João Manuel percebeu a conexão imediatamente.
— E o mesmo acontecia com aquela época.
— O zeitgeist recebia da tuberculose um constante “ainda não”.
— Um não coletivo.
— A natureza ainda não estava dominada.
— Ainda não havia sido vencida a doença que mais matava no mundo.
Mann observava a chama de uma vela.
— Isso produzia um mal-estar profundo.
— A ansiedade de um futuro continuamente adiado.
O silêncio pairou por alguns instantes.
Nightingale o rompeu.
— Os campos de batalha nos ensinam algo semelhante.
— Alguém sem esperança aceita muitas coisas.
— Mas dificilmente aceita esperar indefinidamente.
— Há um momento em que a frustração procura uma saída.
— E nem sempre ela a encontra pelos melhores caminhos.
Osvaldo Cruz recostou-se na cadeira.
— Curioso.
— Pasteur falava justamente disso na inauguração de seu Instituto.
Todos voltaram a atenção para ele.
— A primeira de suas leis foi aquela da paz.
— Já a segunda, era a da guerra, do sangue e da morte.
Os integrantes da mesa estavam curiosos.
— Durante algum tempo acreditamos que a primeira venceria sem dificuldade.
Mann sorriu sem alegria.
— Mas o século parecia cada vez menos convencido disso.
— A frustração com os limites da ciência e do progresso foi se acumulando.
— Veio a ressaca.
— E com ela o desejo de ruptura.
João Manuel percebeu onde Mann pretendia chegar.
— Como se uma geração inteira estivesse cansada de ouvir “ainda não”.
— Exatamente. — respondeu Mann.
— E quando a esperança desaparece, a regeneração passa a parecer mais sedutora que a prudência.
Ricardo aproximou-se discretamente.
Inclinou-se junto ao ouvido de Mann.
— Mão Negra.
Mann ergueu os olhos.
O semblante escureceu.
— Sim...
Olhou para João Manuel.
— O fio estava esticado demais.
Ricardo completou em voz baixa:
— Gavrilo Princip.
Koch e Nightingale trocaram um olhar.
Não compreendiam a referência.
João Manuel tomou a palavra.
— Gavrilo Princip.
— Um jovem nacionalista sérvio.
— E também tísico.
— Foi ele que disparou contra o Arquiduque Franz Ferdinand, em Sarajevo.
— O atentado que se tornou o estopim da Primeira Guerra Mundial.
Koch permaneceu em silêncio. Coçou a barba.
Nightingale franziu levemente a testa.
— Um tísico? — perguntou.
Mann assentiu.
— Não foi a tuberculose que causou a guerra.
— A história é sempre mais complexa do que isso.
— Mas há símbolos que ajudam a compreender uma época.
Bandeira entendia perfeitamente.
— Quem convive diariamente com a perspectiva da morte aprende a olhar o futuro de forma diferente.
— Alguns encontram serenidade.
— Outros, desespero.
— E alguns procuram um significado que justifique o sofrimento.
Ricardo tomava anotações em seu caderno.
— Princip nasceu dentro daquele caldo de nacionalismos, ressentimentos e promessas frustradas.
— Mas também carregava nos pulmões a doença que mais simbolizava a espera e a incerteza de seu tempo.
Mann completou:
— A espera de uma cura.
— A espera de um futuro.
— A espera de uma redenção.
— E há momentos em que os homens se cansam de esperar.
Nightingale havia compreendido perfeitamente.
— Então ele tentou cortar o fio.
— Sim. — respondeu Mann.
— Enquanto milhões aguardavam pacientemente um amanhã melhor, ele escolheu precipitar a história.
Koch percebeu o fim do espírito do tempo que havia notado:
— E conseguiu.
João Manuel pegou sua última castanha.
— Talvez seja por isso que sua figura permaneça tão perturbadora.
— Não porque tenha causado sozinho uma guerra.
— Mas porque parece condensar as angústias de toda uma geração.
O sabor da erva-doce preencheu suas papilas gustativas.
Bandeira tinha a tranquilidade irônica de ter vivido isso por anos.
— A tuberculose esticava os fios de Láquesis.
E Mann que escreveu sobre, foi exilado e vivera intensamente tudo isso, sentenciou:
— E naquele verão de 1914, alguém decidiu empunhar a tesoura.
Nenhum deles precisou pronunciar o nome da Parca.
Átropos já estava sentada à mesa.






